10 de julho de 2026
CESTA BÁSICA

Demora na entrega de cesta básica preocupa entidades do município

Por André Fleury Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
André Fleury Moraes
Sem energia em casa, alimentos perecíveis sumiram da geladeira de Valéria

A demora em se rodar a fila de espera e ampliar a concessão de cestas básicas em Bauru têm preocupado entidades socioassistenciais do município.

A cidade tem mais de 30 mil pessoas registradas no Cadastro Único e, ao mesmo tempo, distribuiu menos de 1 mil cestas básicas no mês de novembro. Os dados são da Prefeitura de Bauru.

O número de cestas básicas fornecidas pelo município, tanto pela Secretaria de Bem-Estar Social (Sebes) como pelo Fundo Municipal de Solidariedade, caiu de 1.225 em setembro para 940 em novembro.

Em nota, a prefeitura afirma que a fila se deve ao fato de que os benefícios concedidos a partir do Cadastro Único são oferecidos pelo Governo Federal.

Questionada sobre se há planos para aumentar o estoque do Fundo Social de Solidariedade, a administração não respondeu até a conclusão desta edição - a assessoria de imprensa disse que aguardava informações da Sebes. O aumento na busca por cestas básicas é confirmado por Rose Lopes, coordenadora da Casa da Sopa da Vila Dutra, em Bauru. "Recebo mais de 30 ligações por dia. Quem tem fome tem pressa", afirma.

O principal motivo da maior procura, diz Rose, é a alta da inflação dos alimentos, que disparou em 2022.

Ela critica a queda na entrega do benefício por parte da prefeitura e defende que o Fundo Social efetue uma compra emergencial para ampliar o estoque de alimentos. "O fundo pode realizar compras diretas por ser um órgão emergencial", explica.

A reportagem também conversou com representantes de outras entidades - que preferiram permanecer sob anonimato para evitar retaliações - e recebeu as mesmas queixas. Algumas, por sinal, nem recebem mais cestas básicas para distribuir.

DIFICULDADES

Moradora da Vila Giunta, em Bauru, Valéria Aparecida Pavanelo é dona de casa por força de um desemprego que já dura dois anos. Distribui currículos, mas não é chamada. Nem mesmo os "bicos" que costumava fazer aparecem mais. Ela é uma entre as centenas de pessoas que enfrentam a fila de espera por cestas básicas.

Sem dinheiro, ela tem sobrevivido através de doações de alimentos não perecíveis, já que a geladeira de sua casa não funciona mais desde que teve a energia cortada em razão das contas em atraso.

À noite, as velas acesas são a única fonte de luz em sua residência. Recentemente, porém, as velas se apagaram durante a madrugada e sua mãe, que se levantou para buscar água, tropeçou na escuridão e caiu.

Valéria mora com a mãe, de 84 anos e já aposentada, e com um filho portador de esquizofrenia. Ela deixa de comer se for preciso, já que os dois são sua prioridade. E teme que a fome volte à sua casa pela situação difícil em que se encontra.

Desassistida, Valéria foi ao Cras do Jardim Ferraz em busca de cesta básica. Entrou numa fila de espera que parece não ter fim.

"A atendente me mostrou o caderno da fila e disse que não tem como me encaixar agora. Iriam entrar em contato quando liberasse vaga. Mas não tenho como atender ligações do Cras, já que estou sem celular", lamenta.

Antes, lembra ela, as cestas básicas chegavam religiosamente todo mês. A dificuldade em se conseguir o benefício chegou há cerca de um ano, afirma. "Não ter o que oferecer à própria família é algo que me dói muito", aponta.

Em um dos cômodos de sua casa, enquanto isso, crescem os sacos plásticos com roupas que precisam ser lavadas. A falta de energia, afinal, impede o uso da máquina de lavar.

Ela regula o uso do gás de cozinha para evitar que o botijão chegue ao fim. "Se acabar, não tenho como comprar outro". Uma Bíblia aberta na escrivaninha de seu quarto tem sido o consolo diário para Valéria.

O banho com água quente saiu de sua rotina desde que a companhia desligou a energia de sua casa. Restou uma mangueira ligada a um tanquinho no quintal de sua residência. Todos tomam banho no final da tarde para evitar a água gelada da noite. Nas palavras dela mesma, "cheguei à estaca zero". Interessados em fazer doações para Valéria podem entrar em contato pelo número (14) 98840-6306 (falar com Alexandre)