A distância de quase 800 quilômetros foi um mero detalhe diante de duas jovens, que agora se consideram 'irmãs de sangue'. O afeto foi selado em um esperado abraço, cheio de vida e gratidão. Em janeiro de 2021, conforme o JC noticiou, a bauruense Giovanna Venarusso Crosara, de 26 anos, doou sua medula óssea para uma pessoa, até então desconhecida. Mas, após a quebra do sigilo do receptor, ela viajou de surpresa até o Rio de Janeiro para, enfim, conhecer a carioca Eduarda de Castro Saraiva, de 24 anos, curada de uma leucemia por conta do transplante.
Tudo começou em agosto de 2016 quando Giovanna, após ler uma reportagem do Jornal da Cidade sobre a campanha de cadastramento promovida pelo curso de Biomedicina das Faculdades Integradas de Bauru (FIB), decidiu se inscrever no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome).
Em 2020, ela recebeu o primeiro contato do Redome. Foi informada sobre uma possível compatibilidade com um paciente no Recife. Após vários exames, foi constatado que as medulas ósseas eram 100% compatíveis, o que é extremamente raro.
Motivada pela possibilidade de salvar a vida de alguém, a psicóloga seguiu em frente e viajou até a capital pernambucana em janeiro de 2021, com os gastos custeados pelo Redome, para fazer a doação, que ocorreu no dia 25 daquele mês.
EM BUSCA DA CURA
Giovanna, até então, não sabia que, do outro lado, estava a jovem Eduarda, que buscava a cura de sua Leucemia Mieloide Aguda (LMA). Ela recebeu o diagnóstico do câncer em agosto de 2020, aos 22 anos, quando estava com 70% de células cancerígenas. Foram necessárias sessões de quimioterapia para controlar o avanço da doença, sendo que parte do tratamento foi realizado no Recife.
Durante a espera pelo transplante de medula óssea, a carioca chegou a ser compatível com outras duas pessoas, que acabaram desistindo da doação. Mesmo assim, ela continuou aguardando, até receber a notícia, no final de 2020, de que tinha um doador 100% compatível. Após receber o transplante, foram necessários apenas 12 dias para a medula óssea finalmente 'pegar' e, a partir daí, Eduarda caminhar em direção à cura.
QUEBRA DO SIGILO
As partes envolvidas em um processo de transplante são protegidas pelo anonimato, que só pode ser quebrado após 18 meses, se os dois lados tiverem interesse e se o receptor estiver em boas condições de saúde. E foi exatamente o que aconteceu com Giovanna e Eduarda, que viveram o tão sonhado abraço em 14 de novembro último, exatos 1 ano, 9 meses e 20 dias após a doação.
"Antes de embarcar para São Paulo para uma viagem a lazer, combinei com os pais da Duda de visitá-los pessoalmente no Rio de Janeiro e fazer uma surpresa. Quando ela chegou na sala, eu estava lá. Ela ficou bem surpresa, porque jamais imaginava que eu iria para lá. E nós ficamos bem próximas. Sabe quando parece que você já conhece a pessoa há mil anos? Queremos levar essa relação para vida. Ganhei uma irmã. Os pais dela até me chamam de filha", conta a bauruense, que pretende retornar ao Rio em janeiro de 2023.
Já Eduarda, nas redes sociais, agradece, em várias publicações, pela oportunidade de receber a cura e poder ter uma vida saudável, com a família. Pede ainda que as pessoas sejam doadoras de sangue e de medula.
"Deus me deu uma responsabilidade muito grande em passar por esse processo do câncer, mas desde o início eu já sabia que a recompensa seria maior do que toda a minha dor. Deus me presenteou com a Giovanna. Eu acredito que Deus une propósitos, e Ele uniu eu e a Gi", escreveu. "Ela teve diversas oportunidades de desistir e continuar seguindo a vida dela, mas por amor a alguém que ela até então não conhecia, decidiu me dar uma chance. Chance essa que mudou a minha vida e me trouxe a cura da Leucemia. Eu sou e serei eternamente grata a Deus e a minha irmã, Gi, pela vida nova", completou.
COMO DOAR?
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), para se tornar um possível doador de medula óssea, é necessário ter entre 18 e 35 anos, estar em bom estado geral de saúde, não ter doença infecciosa transmissível pelo sangue (como HIV ou hepatite) e não apresentar história de doença neoplásica (câncer), hematológica ou autoimune (como lúpus eritematoso sistêmico e artrite reumatoide).
O cadastro no Redome deve ser feito em um hemonúcleo, com documento de identificação oficial com foto em mãos. No ato, também poderá ser coletada amostra de sangue para exame de tipagem HLA. O Hemonúcleo de Bauru fica na rua Monsenhor Claro, 8-88, Centro.