‘O voluntariado mudou minha vida’
É com leveza, mas com muito trabalho, que Fernando Augusto de Barros Vieira, 67 anos, tenta tornar um pouco melhor a vida de pessoas em situação de vulnerabilidade, incluindo aquelas que estão na rua, famílias de baixa renda e pacientes internados em hospitais. Atuante em iniciativas solidárias de Bauru, como o Esquadrão do Bem, o projeto Alegria e os trabalhos sociais realizados pelo Centro Espírita Irmã Catarina, ele descobriu no voluntariado um novo sentido para a própria vida.
Nascido em Santo André, graduou-se em relações públicas e só se voltou a esta missão quando chegou a Bauru, em 2005. A profissão de formação, contudo, continuou servindo à nova etapa de vida, já que ele usa suas habilidades na comunicação para divulgar as ações desenvolvidas por estes grupos beneficentes.
Também com experiência em atuação - Fernando fez vários comerciais para marcas conhecidas -, busca manter, mesmo nos dias difíceis, o espírito alegre para arrancar sorrisos destas pessoas que tanto sofrem. Casado com Ana Aparecida Tomassine Duarte Vieira, com quem teve os filhos Alexandre, Thiago e Felipe, Fernando comemorou, no último dia 5, o Dia Internacional do Voluntário.
Nesta entrevista, ele fala um pouco de suas origens, da carreira profissional que começou aos 13 anos e de como se reinventou como ser humano já depois da aposentadoria, ao mergulhar no voluntariado. Leia, abaixo, os principais trechos.
JC - Você é filho de um português? Conte um pouco sobre sua origem.
Fernando - Meu pai, Altino, nasceu no Porto e minha mãe, Helena, mineira, foi para Portugal ainda criança, porque o pai dela também era do Porto. Lá, ela ficou até uns 18 anos, quando eles voltaram para o Brasil. Ela já tinha conhecido meu pai, que veio atrás. Depois, acabaram se casando.
JC - Seu primeiro emprego foi na área em que se graduou?
Fernando - Não. Comecei a trabalhar com 13 anos em uma loja de calçados. Depois, fui office boy, trabalhei em indústrias de fertilizantes, de telhados, em uma multinacional e, então, entrei na Câmara Municipal de Santo André. Comecei como oficial administrativo e cheguei à assessoria de comunicação. E também fui ator. Fiz teatro e participei de comerciais de televisão, incluindo um do Boticário, para o Dia dos Pais, em que eles chamaram atores e seus pais de verdade. Meu pai topou e guardo com muito carinho a recordação desse dia. Entre 1986 e 1995, também fiz comerciais para a Estrela, Amil, Orloff, transportadora Metropolitan, Banespa, Bradesco, Volkswagen e Ford.
JC - Como foi sua vinda para Bauru?
Fernando - Eu me aposentei e minha esposa queria sair de Santo André. Chegamos a ir para Uberaba, mas, em 2005, viemos para Bauru, onde a família dela morava. Então, comecei a ir ao Ceac (Centro Espírita Amor e Caridade) para estudos. Lá, fui convidado a trabalhar como voluntário no projeto Amor e Moradia, para ajudar uma família a construir sua casa. Depois, fui trabalhar em bazares beneficentes, mas percebi que não havia tanta divulgação. E comecei a procurar os veículos de comunicação, como o Jornal da Cidade, para dar maior visibilidade a estes eventos.
JC - Foi Bauru, então, que o despertou para o voluntariado? Como foi essa experiência de uni-lo à sua profissão?
Fernando - Sim. Fiquei cerca de dois anos no Ceac e, depois, fui para o Centro Espírita Irmã Catarina (Ceic), onde comecei ajudando em trabalhos internos. Então, passei a divulgar as palestras, bazares beneficentes, drive thru, campanhas para pedir doações de alimentos, agasalhos e cobertores dentro de empresas, escolas, academias e junto à imprensa. Aos poucos, fui conhecendo e me envolvendo com outras iniciativas, como o projeto Alegria, que visita pessoas internadas em hospitais; os Amigos da Noite, que leva marmitas a moradores de rua; e o Esquadrão do Bem. Saí do Amigos da Noite e ingressei no Doe Amor Bauru, dentro do Ceic, que também entrega marmitas.
JC - O que o move a se dedicar a essa missão?
Fernando - Entrar em contato com as comunidades, chegar e conversar de forma descontraída e fazer essas pessoas sorrirem é muito recompensador. Já no projeto Alegria, lidamos com pessoas vulneráveis em termos de saúde. E muitas estão sozinhas. A gente ouve as histórias e tenta levar um pouco de leveza para aquele paciente. O mesmo vale para os moradores de rua, para quem, além de comida e conversa, levo panfletos de divulgação dos serviços Centro Pop, que fiz por conta própria. Saber que posso ser útil a alguém todos os dias mudou minha vida. É algo maravilhoso. Além disso, aprendo muito com a experiência dessas pessoas.
JC - Teve algum episódio marcante nessa trajetória?
Fernando - Uma que me chamou atenção foi em uma visita na brinquedoteca de um hospital de Bauru. Tinha uma menina com câncer, que não queria conversar. Brincamos um pouco com as crianças e ela continuava séria. Então, percebi que a mãe estava muito agoniada e fui conversar com ela, que começou a desabafar e chorar. De repente, a menina fez um gesto com as mãos, dizendo que não queria que a mãe chorasse. Apesar de todo sofrimento, ela estava preocupada com a mãe. Olha o tamanho desse amor!
JC - E como está sendo a campanha de Natal deste ano?
Fernando - O Ceic está com duas campanhas: de alimentos e brinquedos. Conseguimos fechar parcerias com a rede Nissei, onde os consumidores podem comprar e doar leite e itens de higiene pessoal para adultos e bebês, e com o supermercado Assaí, para arrecadação de alimentos. Quem quiser ajudar também pode fazer Pix para 14996125794, que é o número de telefone do Ceic para informações, inclusive sobre como entregar doações.
JC - Além do voluntariado, o que mais gosta de fazer?
Fernando - Faço natação e, sempre que posso, vou à cachoeira do bairro Floresta, em Cabrália Paulista. É uma propriedade particular, mas a entrada é gratuita. Vou, fico na água, faço minhas orações no meio da mata e volto para casa reenergizado.
O QUE DIZ O VOLUNTÁRIO
'Fiz teatro e participei de comerciais, incluindo um do Boticário, para o Dia dos Pais, em que eles chamaram atores e seus pais de verdade'
'Entrar em contato com as comunidades, chegar e conversar de forma descontraída e fazer essas pessoas sorrirem é recompensador'
'Saber que posso ser útil a alguém todos os dias mudou minha vida. É algo maravilhoso'