10 de julho de 2026
OPINIÃO

Pouca fome pra muita sede

Por Alexandre Benegas |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor escreve artigos didáticos, ficcionais, coautor de antologias da Língua Portuguesa

Fato: a falta de acesso regular a uma alimentação adequada por grande parte da população brasileira tem sido um dos principais desafios enfrentados pela sociedade ao longo dos últimos anos. Em 2022, segundo dados do IBGE, divulgados recentemente, 62,5 milhões de brasileiros estão abaixo da linha de pobreza, um equivalente a 29,4% da população sobrevivendo com menos de R$ 16,20 por dia. Possuímos o maior rebanho bovino comercial do mundo. Somos o maior exportador de carne em tonelada, o segundo maior exportador de alimentos do mundo no ranking da Organização Mundial do Comércio. Por que não conseguimos minorar a fome?

Diariamente, em todo o território nacional, 39 mil toneladas de comida, em condições de serem aproveitadas, vão para o lixo em mercados, feiras, fábricas, restaurantes, quitandas, açougues e fazendas. São iogurtes perto do vencimento, tomates manchados, pães amanhecidos, carne esquecida no congelador, milhares de itens descartados. Quantidade suficiente para alimentar 19 milhões de pessoas. Mas é ano de copa. Amanhece-se verde e amarelo. A Ambev, patrocinadora máster, investiu 15 milhões de dólares na seleção. Ano de copa. É verde e amarelo. Emissora número 1 lança campanha 'Tamo junto pela copa', motivando o brasileiro a se unir numa só paixão. 'Tamo junto pela copa'? Não se trata de um manifesto contra o maior evento mundial, contudo uma chamada à realidade contra a bovinice da pessoa que, efusiva pela copa, vive uma alegria incorrigível, ampliada desmesuradamente, esquecendo-se de escalar assuntos de necessário interesse à justiça social. Melhor seria, pois, Tamo junto pela cobrança das promessas eleiçoeiras, pela vacinação. Tamo junto contra a desigualdade social, classista, segregacionista que nos subtrai numa condição desumana. Tamo junto contra o preconceito étnico perverso e sintomático. Tamo junto pela inadiável educação; contra a corrupção que se impõe visível e poderosa corroendo a esperança em um país melhor; tamo junto contra o simplismo das medidas que combatam a violência por inteiro, não pela mtde; essa violência que nos armou a mão, entretanto cegou-nos os olhos.

Com protagonismo de Zeca Pagodinho, a cerveja número 1 lançou a campanha da cremosidade em entorpecida alegria, mostrando cre-mosidade no sabor, cremo-sidade no ingrediente, cre-mo-si-da-de na tradição. Claro que alguém poderia argumentar sobre os riscos do álcool, porém a dose de comerciais e ofertas de cervejas é de suado duplo malte. Ano de copa. Uma notícia rápida na boca elegante do apresentador. A cada dois minutos, uma mulher é vítima de violência no Brasil do penta. Antes de me desejar boa-noite, a informação de necessária atenção, a matéria de um verde amarelo decidido revela os preparativos para o próximo jogo, a análise dos comentaristas, entrevistas com a comissão técnica, viagem, depoimentos, escalação, o suspiro longo de satisfação e queixa dos torcedores, treino tático, vestiário e, é claro, o pé lesionado do Neymar e sua recuperação.

A mídia sempre soube engarrafar o que lhe interessa. No momento, não há espaço pra pés descalços, pra miséria anatômica das rugas, pra danada da fome. Ao contrário, investe-se na sede da cerveja. Evitar a fome, no Brasil, nunca foi e ainda não é prioridade. Falta-lhe cremosidade. Tamo junto?