08 de julho de 2026

Eu somos

Por Roberto Magalhães |
| Tempo de leitura: 1 min
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais

Dane-se a gramática, eu nunca fui um só. Brigam em mim muitos eus. Um fiel canino me lambe festivamente; o outro, felino, me odeia e me ameaça; há um velho que me pede repouso e cama; o outro quer mulher e cachaça; um garante que está no jogo, o outro confessa ter pendurado a chuteira; um de chupeta e fralda pede colo e mamadeira. Habitado por tanta gente diferente, me vejo sempre diante de pergunta idiota: "Mas, afinal, qual é a sua verdadeira cara?"

Como se eu tivesse uma e não mil. Como se eu fosse singular e não plural. Como se eu estivesse bem resolvido com as minhas bagunçadas gavetas, algumas trancadas a sete chaves. Há dor, conflito e contradição em mim. Buscando caminho encontro placa e contramão. Nunca fui, nem sou ou serei.

Eu somos. Existe em mim um que mostra e outro que esconde. Por favor não me peçam coerência, tenham comigo paciência, não sou diferente de ninguém.

Sou apenas humano, um bicho com casca, com asas e correntes, um poço sem fundo, o avesso do avesso, um caminho sem fim. Deus e até o diabo, quer eu queira ou não, existem e, pior, cochicham em mim.