10 de julho de 2026
ENTREVISTA

Luiz Carlos Bernardi: Mestre de mais de 50 mil alunos

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Isabele Scavassa
Luiz Carlos Bernardi: mais de cinco décadas dedicadas a ensinar

Com 56 anos de dedicação ao magistério e tendo sido mestre de mais de 50 mil alunos, Luiz Carlos Bernardi possui uma trajetória que exemplifica claramente um velho ditado: "o professor é a profissão que forma todas as outras". Entre seus ex-pupilos, estão médicos, engenheiros e promotores de Justiça que, até hoje, quando o encontram pelas ruas de Bauru, fazem questão de abordá-lo e lembrá-lo: "o senhor foi meu professor".

Segundo Luiz Carlos, hoje com 85 anos e aposentado, estas aproximações - que sempre rendem sorrisos e boas lembranças - são frequentes, o que demonstra o enorme carinho que estes ex-estudantes dos ensinos fundamental e médio mantêm pelo mestre. Nestas mais de cinco décadas, o professor deu aulas de Inglês, Ciências e Biologia em dezenas de escolas das redes pública e particular de cidades como Bauru, Jaú, Botucatu, Lins, Marília, Lençóis Paulista e Cabrália Paulista, bem como Londrina e Rolândia, no Paraná.

Viúvo de Julieta Bertoni Bernardi, com quem teve os filhos Luís Otávio, Maria Angela, Luís Fernando, Luciane e Cristiane, Luiz Carlos casou-se novamente com Maria Elena de Ornelas Bernardi, que - veja só - também foi sua aluna décadas atrás.

Nesta entrevista, ele comenta estes reencontros e seu amor pelo ofício, pela família e por viagens, além de avaliar e celebrar todo o reconhecimento que recebe até hoje por ter transmitido conhecimento a tantas pessoas. Leia, a seguir, os principais trechos.

JC - Conte um pouco sobre sua origem.

Luiz Carlos - Sou filho de Luiz e Alzira Bernardi, que tinham um armazém de secos e molhados em Piratininga, cidade onde nasci. Assim que comecei a conseguir carregar sacos de feijão, passei a ajudar meus pais na loja. Fiz o colegial (atual ensino médio) no Ernesto Monte, em Bauru, porque não tinha em Piratininga. Ia e voltava todos os dias de trem ou ônibus. Cursei faculdade de Letras Anglo-germânicas na Fafil, hoje Unisagrado, e comecei a dar aulas de Inglês em uma escola de Cabrália Paulista. Não ganhava nada, apenas a chamada carteira quilométrica, para ir e voltar para casa. Depois, em 1960, fui indicado para dar aulas em uma escola de Lençóis Paulista e acabei me mudando para a cidade. Um ano depois, me casei com a Julieta. Tive meus filhos lá.

JC - Como surgiu o interesse do senhor em cursar Letras?

Luiz Carlos - Sempre gostei de inglês, assistia a filmes. E também tive bons professores em Piratininga. Além de aprender com eles, me encantei pelo ofício. Sempre quis ser professor, ter a possibilidade de ensinar e continuar a aprender, porque a gente precisa se manter atualizado. Até hoje, gosto de ler, estudar e viajar.

JC - E por qual motivo o senhor decidiu cursar Biologia?

Luiz Carlos - Eu estava dando poucas aulas de Inglês e decidi fazer outro curso. Fiz Biologia na ITE, em Botucatu. Passei a ensinar Biologia, Ciências e Inglês no ginásio e colegial (ensinos fundamental e médio), em Lençóis.

JC - Por que decidiu vir morar em Bauru?

Luiz Carlos - Fiz concurso para ingresso no magistério e escolhi Bauru. Comecei dando aulas no Mercedes Paz Bueno, em 1971. Até as 15h, funcionava o primeiro grau, com o nome de Mercedes, e, depois desse horário, o segundo, como Colégio Azarias Leite, do qual fui diretor. Depois, fui dar aulas no Centro Supletivo, o Ceesub. Na rede particular, também lecionei no Triângulo, cursos Brasília, Preve Objetivo, Anglo, Poliedro, Liceu, D'Incao e escola de idiomas CCI. E ministrei aulas de Biologia em Londrina (PR).

JC - Como era a relação do senhor com os alunos? Era um professor rígido?

Luiz Carlos - Não. Era uma relação boa. Saía com eles para excursões, jogava futebol, basquete… fui paraninfo de algumas turmas. Sempre que saio de casa, alguém me aborda para dizer que foi meu aluno. A gente conversa, relembra histórias. É uma delícia. Costumo ir à sauna do BTC e quase todas as pessoas que frequentam o local foram meus alunos. Até minha segunda esposa, a Maria Elena, foi minha aluna, quando ela tinha 12 anos, em Lençóis Paulista.

JC - E como vocês dois se reencontraram?

Luiz Carlos - Em Bauru, porque o marido dela era meu dentista. Ela era servidora aposentada do município, na área de saúde, e ajudou a Julieta, que teve um AVC e ficou sete anos de cama, no hospital. Alguns anos depois de ficarmos viúvos, começamos a nos relacionar, em 2014.

JC - Quais são as coisas que o senhor mais gosta de fazer hoje?

Luiz Carlos - Ficar com a família, curtir meus netos e os da Maria Elena. Nós dois, inclusive, moramos em São Paulo por oito anos, quando eu já estava aposentado, para ficarmos mais próximos de três dos meus filhos: Luís Otávio, Luciane e Cristiane, que moravam lá. Depois, a Cristiane voltou para Bauru e decidimos retornar também. Outra coisa que adoro é viajar. Já fui para o Uruguai, Portugal. Mais jovem, fui acampar com a Julieta e os cinco filhos em Camboriú. Já a última viagem que fiz com a Maria Elena foi um pouco antes do início da pandemia. Passamos por Guarujá, Riviera de São Lourenço, Ubatuba e Caraguatatuba. E também gosto de assistir a partidas de futebol, principalmente as do São Paulo, de quem sou torcedor, e fazer palavras cruzadas.

JC - E algum dos filhos, inspirado no senhor, tornou-se professor?

Luiz Carlos - Sim. Meu filho mais velho, o Luís Otávio. Ele é professor de Física. Chegou a ir no programa do Luciano Huck para apresentar uma pesquisa de robótica que ele e os alunos desenvolveram. É muito inteligente.

JC - O senhor tem ideia de quantos alunos já teve? Qual é a sensação de ter transmitido conhecimento a tantas pessoas?

Luiz Carlos - Calculo que mais de 50 mil. Tenho ex-aluno que, hoje, é desembargador, engenheiro, uns quatro ou cinco são promotores de Justiça. Peguei o livrinho da Unimed de Bauru e encontrei 43 médicos que foram meus alunos. Um deles me disse que escolheu Medicina por minha causa. O sentimento é de alegria, orgulho, satisfação. Sou muito agradecido por esse reconhecimento.