08 de julho de 2026
SAÚDE

Mente sob cuidados

Por Constança Tatsch |
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação
Psicóloga inglesa Julie Smith discute temas como ansiedade, depressão, solidão e relacionamentos

Na tela, a doutora Julie Smith, de jeans e camiseta, chacoalha uma cerveja: "Sabe quando parece que a vida faz isso com você? Um monte de coisa acontece ao mesmo tempo, você fica muito mexido e sente que mais uma e explodirá?" Ela abre a garrafa, o líquido permanece intacto. "Nada. Você manteve tudo guardado aí dentro e, por fora, ninguém imagina com o que você está lidando. Às vezes ficamos tão bons em esconder as coisas que enganamos até a nós mesmos dizendo que está tudo bem." Até que o inesperado acontece: alguém bate outra garrafa na que ela segura, e a bebida explode para fora. "Tudo vem à tona e você se sente totalmente fora de controle. Não espere até esse momento antes de pedir ajuda e fazer algo a respeito", finaliza enquanto a cerveja jorra.

O vídeo de 43 segundos teve mais de 750 mil visualizações e recebeu quase 700 comentários de pessoas discutindo saúde mental. Esse é só um exemplo do trabalho da psicóloga inglesa nas redes sociais, em especial no TikTok, onde tem mais de 4 milhões de seguidores. Desde 2019, Smith faz vídeos curtos sobre temas como ansiedade, depressão, autoestima, solidão e relacionamentos. Ela escreveu o livro "Por que ninguém me disse isso antes?", que acaba de ser lançado no Brasil (Sextante). A seguir, a psicóloga fala sobre seu trabalho na plataforma e garante que todos podem desenvolver ferramentas para cuidar da própria saúde mental.

Que tipo de coisas as pessoas não ouviram antes?

Julie Smith - Muitos não imaginam que uma parte da terapia é educacional: você aprende ferramentas, como sua mente funciona, como você pode impactar seu humor e sua saúde mental no dia a dia. E uma vez que as pessoas têm essa informação, elas se sentem tão empoderadas porque podem cuidar de si mesmas e fazer algo pela sua saúde mental e não depender tanto do terapeuta. Então me perguntavam: "Por que ninguém me disse isso antes? Não é uma ciência dificílima, é simples, mas quando boto em prática a sério, faz uma grande diferença". E eu pensei: isso deveria estar mais disponível, terapia é uma coisa, mas não há motivo para que as pessoas não tenham mais educação nesse sentido. É claro que não dá para detalhar muito nos vídeos porque são 60 segundos, então o livro foi onde decidir aprofundar, mostrar o passo a passo.

Qual a proposta dos seus vídeos?

Julie Smith - Todos são diferentes e lidam com circunstâncias diferentes. Mas o consenso é que muita gente está sofrendo e não há serviços para ajudar como precisa. Então, as pessoas estão buscando outras formas de ajudarem a si mesmas, de se educarem. Os vídeos compartilham informações, ideias, habilidades que a pessoa pode usar como, por exemplo, técnicas de respiração para se acalmar em um ataque de pânico, ou como impedir que a ansiedade evolua para pânico, coisas simples que você consegue ensinar em segundos. Isso está disponível para que as pessoas usem, pratiquem e experimentem. Outros vídeos são mais como plantar uma semente, introduzir uma ideia, pensar as coisas de forma diferente, repensar algo sobre si mesmo ou desafiar certos hábitos que podem estar fazendo mal. Nunca sabemos o verdadeiro impacto de cada vídeo, mas a o motivo que continuamos é por conta dos retornos. A noção de que atingimos pessoas de verdade e estamos fazendo uma pequena diferença, vale o esforço.

Por estar numa rede social, você acaba falando mais com os jovens?

Julie Smith - Minha audiência no Tik Tok talvez seja mais de jovens, mas há gente de todas as idade. Tenho avós, pais, pessoas de todas as idades me procurando.

É interessante alcançar idosos, um público que ainda enfrenta certo tabu em discutir saúde mental?

Julie Smith - Ainda há muito estigma em buscar ajuda. Cuidar da saúde mental não deve ser mais vergonhoso do que cuidar da saúde física. Quanto mais as pessoas entenderem sobre saúde mental e tendo menos medo de falar disso, também passam a ter menos medo de cobrar esses serviços necessários para que as pessoas fiquem saudáveis. Idosos têm problemas similares aos dos outros: relacionamento, dificuldades com a família, cansaço, depressão.

E como se ajuda uma pessoa que está sofrendo?

Julie Smith - Temos que conseguir resolver isso pelas pessoas da família ou aquelas que amamos, mas frequentemente não podemos. Mas podemos, sim, dar apoio de formas que subestimamos. Por exemplo, alguém com depressão ainda cozinha para si mesmo todo dia. Mas você pensa que seria melhor que ela tivesse uma folga, então tira essa tarefa prática dela. E isso pode se tornar ainda mais debilitante, porque é difícil conseguir retomar. Eu encorajo ações que promovam a recuperação: sair para caminhar todo dia, aproximar de outros membros da família. Coisas como apoio social, exercício, comer bem, dormir, rotina, sol e ar fresco, tudo contribui. Mas subestimamos quão poderosas essas ajudas podem ser e pensamos que não estamos fazendo um bom trabalho. Mas até levar a pessoa a uma caminhada pode fazer uma grande, grande diferença.