09 de julho de 2026
ENTREVISTA

Angelo Botero: aos 100 anos, ele vai votar, dirigir e jogar

Por Marcele Tonelli | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Marcele Tonelli
Disposição: Angelo Botero mostra o título de eleitor em uma mão e a CNH na outra

Mesmo com os avanços da medicina, poucos são os que chegam aos 100 anos, ainda mais se a idade é alcançada com tamanha disposição e muita lucidez. É no Centro de Agudos (13 quilômetros de Bauru), mais especificamente na rua Fernando Machado, que mora uma dessas raras pessoas: seo Angelo Botero. Uma simpatia que completou um século de vida no último dia 20, mas, como muitos dizem, sequer aparenta ter deixado os 80 anos. É esbanjando humor e entusiasmo que ele, além de votar neste domingo (30), já adianta que, depois, irá dirigir e jogar bocha com os amigos.

Inclusive, um dos colegas, conhecido como Celião de Agudos, o fez viralizar nas redes sociais nos últimos dias. Em um vídeo, Botero aparece cortando a barba de Celião, "cultivada" por 25 anos. Conforme o JC noticiou, a cena inusitada ocorreu como cumprimento de uma promessa feita há anos caso o idoso atingisse o centenário.

Natural de Pederneiras (26 quilômetros de Bauru), seo Botero trabalhou com a família em lavouras de café, até que, na década de 60, mudou-se para Agudos para atuar na antiga fábrica da Brahma (atual Ambev).

Por lá, ele se aposentou e marcou seu nome como um dos fundadores do Esporte Clube Brahma, que o inseriu na história da bocha na região, após a conquista de inúmeros troféus e medalhas.

Além da bocha "sagrada" aos fins de semana, seo Botero mantém uma rotina diária de andanças pela cidade. Para ele, que é casado há 72 anos com dona Alzira - com quem teve três filhos, cinco netos e dois bisnetos -, o segredo para a longevidade está justamente em não abrir mão dos hobbies, assim como se alimentar bem e fugir da preguiça.

JC - Conte um pouco sobre suas origens.

Angelo Botero - Sou filho de italianos, que vieram para Pederneiras trabalhar com lavouras de café, milho e feijão. Conheci minha esposa, a Alzira, que está com 95 anos hoje, ainda na juventude, no jardim de Pederneiras, onde tinha bandas no coreto aos finais de semana. Nós dois trabalhávamos nas lavouras. Namoramos três anos, casamos e tivemos três filhos: a Cleusa (em memória), o Ismael e o José Humberto. Este último filho nasceu quando mudamos para Agudos.

JC- Como foi essa saída da lavoura para a vida na cidade?

Botero - Eu tinha uns 40 anos quando fiz bicos como ajudante para um caminhão de bebidas. Uma semana depois me chamaram para trabalhar na antiga Brahma. Na época, só a minha cunhada tinha telefone de linha, ligaram para ela. Não pensei duas vezes e nos mudamos de Pederneiras para Agudos, neste mesmo endereço que moramos até hoje. Eu trabalhei por 20 anos na Brahma, fazendo de tudo… até na caixotaria, produzindo engradados de madeira. E nunca tomei uma advertência sequer.

JC - Foi nessa mesma época que a bocha entrou para sua vida?

Botero - Sim. Eu e mais uns 15 amigos de trabalho fundamos o Esporte Clube Brahma, em 1966. E, depois da aposentadoria, passei a me dedicar completamente. Hoje, sou o único fundador vivo, infelizmente. Ao longo dessa trajetória, conquistei muitos troféus e medalhas dos quais me orgulho.

JC- Dizem que o senhor não aparenta a idade que tem por ser muito ativo…

Botero - É porque eu tenho o juízo bom. Eu dirijo, vou ao mercado fazer as compras, vou até a padaria, até a farmácia… faço o que precisar. Acho que chego a andar mais de 2 quilômetros por dia, às vezes. Toda manhã, dou uma passada no velório da cidade para saber quem morreu, muitos queridos já se foram. Costumo também ficar sentado em um banquinho, todas as manhãs, em um posto desativado na esquina de casa. Fico lá algumas horas, batendo papo com conhecidos e pensando na vida. Mas, a minha maior alegria mesmo é ainda poder ir pescar com meu filho, aquele ar gostoso e úmido do rio e da mata acalenta a alma.

JC - Inclusive, o senhor fará questão de votar neste domingo, né?

Botero - Com certeza. Nunca deixei de votar nas eleições. Acredito que o Brasil pode melhorar mais e eu quero contribuir para isso. Vou de carro para, depois, poder ir jogar bocha.

JC - E como foram os bastidores desse vídeo que viralizou do senhor?

Botero - Foi uma promessa cumprida. Quando eu tinha uns 80 anos, pedi para ele (Celião) cortar aquela barba. E ele me disse, debochadamente, que faria isso quando eu chegasse aos 100 anos. Agora, no dia 20 de outubro, eu fiz aniversário e ele cumpriu com a palavra (risos).

JC - Qual o segredo para a longevidade?

Botero - Eu nunca deixei de fazer nada que quisesse na vida. E, nesse sentido, devo muito à Alzira, que sempre foi minha companheira, meu alicerce e criou muito bem nossos filhos. Acho que o segredo da vida é ser ativo e sem preguiça, ter uma boa alimentação, dormir bem e fazer o que você gosta. E olha que eu sempre tomei o meu chopinho e, ainda hoje, tomo duas cervejinhas todo fim de semana.

JC - Aos 100 anos, tem algo que o senhor ainda não realizou?

Botero - Não. Sou muito grato a tudo o que construí com a minha esposa, que é meu braço direito. Se, no dia de amanhã, Deus me chamar, eu vou realizado. Não deixei manchas na história, nunca tive inimizades.

O QUE DIZ O CENTENÁRIO: 

"Minha maior alegria mesmo é ainda poder ir pescar com meu filho, aquele ar gostoso e úmido do rio e da mata acalenta a alma."

"Nunca deixei de votar nas eleições, acredito que o Brasil pode melhorar mais e eu quero contribuir para isso."

"Se, no dia de amanhã, Deus me chamar, eu vou realizado. Não deixei manchas na história, nunca tive inimizades."