07 de julho de 2026
Geral

Pesca

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 7 min

Pescar é realmente uma delícia. Saborear um bom peixe traz um prazer semelhante, mas, com um único inconveniente: as espinhas. Muitos dizem que seria ótimo se os peixes não possuíssem espinhas, principalmente aquelas em forma de Y, que tanto atrapalham na hora de comer. Além de chatas para tirar, devido ao seu formato, muitas são pequenas e difíceis de encontrar. As espinhas são responsáveis, em grande parte, pelo pequeno consumo de peixes pela população brasileira. Os mais procurados são aqueles que possuem poucas espinhas, os chamados peixes de couro, mas que, em alguns casos, não trazem o mesmo sabor dos peixes de escama. Há quem diga que uma pessoa pode consumir 500 gramas de peixe se ele não tiver espinha. Caso contrário, o consumo não chega à metade. O que é realmente um desperdício, pois o peixe é um alimento muito saudável, que deve fazer parte do cardápio do brasileiro.O filé de tilápia é uma alternativa que começa a entrar no mercado e está sendo bem aceita. Apesar da grande quantidade de espinhas da tilápia, em filé, o peixe pode ser consumido sem medo. E fica muito bom. Principalmente frito, em forma de aperitivo. Em Bauru, há uma nova alternativa para quem quer enriquecer o cardápio saboreando um bom peixe. Advanir Alberto de Oliveira, 42 anos, conhecido por Fio, é desossador de peixes, e chegou na cidade há cinco meses. Fio nasceu e cresceu em Cândido Mota, próximo ao rio Paranapanema, onde aprendeu a pescar e a lidar com o peixe. Há cinco nos, ele dedica seu trabalho na desossa de peixes. Nesse período, Fio já desossou mais de cinco mil peixes, entre curimbatá, piapara, paucu, matrinxã, tucunaré, piraputanga, corvina, traíra e, é claro, dourado, o rei do rio. A técnica, explica ele, foi desenvolvida com muito treino, paciência e alguns peixes despedaçados. "Eu sou músico (baterista) e já viajei muito. Um dia, em Cuiabá, vi um homem desossando um peixe, mas ele cortava pelas costas e não retirava todas as espinhas. As pequenas e mais chatinhas acabavam ficando. Resolvi enfrentar o desafio e acabei desenvolvendo uma técnica."Além do peixe, que é sua especialidade, Fio também desossa frango e leitoa. O interessante é que a carne fica com o mesmo aspecto de antes. O segredo está no recheio que acompanha o prato. Fio é pescador e também cozinheiro. O dom, revela, herdou do pai que sempre dedicou-se à cozinha e à música. Outro fator importante no preparo dos alimentos é o tipo de assadeira utilizada. Fio preparou suas assadeiras com grelhas que deixam o peixe (frango ou leitoa) suspenso, fazendo com que a gordura escorra e fique na assadeira e não na carne. O método deixa o peixe mais saboroso e mais leve. Mas acreditar que alguém possa retirar todas as espinhas de um peixe que tenha no mínimo um quilo, deixa qualquer um curioso. A equipe do Pesca & Lazer foi conferir a informação e aproveitou para saborear uma bela traíra assada. Vale lembrar que a traíra tem uma quantidade razoável de espinhas. Fio escolheu uma traíra com 1,6 Kg para desossar, rechear e assar. Acompanhando o trabalho, foi possível entender o segredo, mas não o suficiente para aprender. Na verdade, Fio conta com o conhecimento que tem dos peixes e sua habilidade em trabalhar com seus instrumentos: facas (afiadíssimas) e um alicatinho.Após tirar todas as escamas e barrigada, ele começa o trabalho. A primeira parte retirada é a espinha central, onde se encontram as costelas, as espinhas maiores. É importante lembrar que toda a "operação" é feita internamente, para que o peixe não seja danificado. Depois, vem a fase mais complicada, que são as pequenas espinhas. Fio faz o corte no local certo e retira mais uma quantidade de espinhas. Há, é claro, uma pequena perda do peixe, que não poderia ser evitada. No final, ele confere todo o peixe, milímetro por milímetro, e retira as pequenas espinhas que sobraram. Pronto, não há mais nenhuma espinha.Enquanto Fio desossava a traíra, Deise, sua esposa, preparava o recheio com camarões, palmito, alcaparra e farinha de milho. Ali, o trabalho é em família. Os filhos também auxiliam. Desde a pequena Monike, quatro anos, que já pescou muito ao lado do pai, Ingrid, 12 anos, e Cauê, 13 anos, são excelentes companheiros no trabalho. O peixe já estava desossado, mas faltava temperar. Fio também dispensa aquele tempinho em que o peixe fica "curtindo" no tempero. "Gosto de temperar, rechear e colocar para assar. Como tempero o peixe por dentro, o sabor pega facilmente", explica. Recheada e costurada, a traíra tem a aparência de antes. "Eu sou muito detalhista, quero que o peixe fique perfeito."Ele faz quatro tipos diferentes de recheios, mas se alguém preferir um outro, não há problema. Fio segue a receita. A família também prepara almoços, jantares, com o cardápio indicado pelo interessando, mas vale a pena conferir o peixe. Fica muito gostoso e, acreditem, sem nenhuma espinha. A traíra preparada foi consumida por cinco pessoas. Seu preço sairia por R$ 16,00. O preço, explica Fio, varia pela necessidade da pessoa, se ela leva o peixe ou não.Fio veio de Cândido Mota a convite da família de Leandro Tibúrcio que, um dia, passando por Cândido Mota comprou uma rifa de um frango desossado, mas não ganhou. Fio fez questão que Tibúrcio levasse o frango para experimentar. Na sequência veio o peixe desossado, e Tibúrcio gostou muito. Amigos, Fio mudou-se com a família para Bauru, onde pretende continuar seu trabalho de desossar peixes. Ele lembra que as pessoas que tiverem interesse podem deixar tudo por sua conta ou, se preferirem, levar o peixe, porém, salienta, é necessário que a espécie tenha, no mínimo, um quilo. Há muitos pescadores na cidade que têm uma nova opção para preparar o seu troféu. Fio deixa a critério do consumidor. "Se quiser que eu só desosso, tudo bem. Eu acho interessante que a pessoa leve assado, prontinho. É mais gostoso."Serviço Avenida Duque de Caxias, 5-26, telefone (014) 227-2501. Encomendas devem ser feitas com, no mínimo, quatro horas de antecedência.**** História de pescador **** Pescaria com rã "Fazia calor, e muito, era setembro, e estava muito quente mesmo. Foi quando me lembrei que era o mês em que pescava no Mato Grosso. Aproveitei, então, e corri até a casa do meu irmão Mirão para ligarmos para o Eduardo, em São Paulo, nosso companheiro, para combinarmos a tão esperada pescaria. Acertamos a data para o fim do mês, pois a lua minguante começaria dia 23. A gente sempre pescava nessa lua.Entramos em contato com o Luizinho, que tinha um caminhão, com meu cunhado José Luiz, meu outro irmão Betão e, é claro, meu falecido pai, que sempre era o principal da caravana. Marcamos a saída para o dia 25 setembro.Como de costume em toda caravana de pescadores que vão para o Mato Grosso, ligamos para um pirangueiro de lá para termos informações sobre qual tipo de peixe estava pegando, para que levássemos a isca adequada. Conversamos com o pirangueiro Tendéu que, na época, morava em Coxim, e ele nos informou que estava pegando muito dourado na rodada, com bóia, mas só com rã iscada pelas costas.Aí começou a correria para arrumar a tralha toda, que era grande, desajeitada. Corremos atrás dos barcos, motores e, é claro, das rãs. Com muita batalha conseguimos 80 rãs.Lembro-me como se fosse hoje, saímos de Cândido Mota, para quem não conhece é uma cidade pequena, com 30 mil habitantes, a oito quilômetros de Assis, às três horas da manhã e chegamos em Coxim, anoitecendo. Eu, como de costume, sempre cuidava das armadilhas, como espinhel, anzol de galho, corda de ar. E meu pai sempre comandava a parte de organizar as barracas, comidas, etc.No dia seguinte, acordamos às cinco horas da manhã. Todo mundo louco para pescar. E como a gente sempre trabalhava com dois barcos, eu ficava com um e deixava o outro para os pescadores que preferiam pescar com caniços e molinetes. A vontade de pescar era tanta, que às 5h30 eu já estava fazendo rodada com 15 bóias, todas iscadas com rãs vivas pelas costas. Rodamos, 15 minutos, 30 minutos e nada. Uma hora e nada de peixe. Como não havia nem sinal de peixe, já um pouco irritado com a certeza que o pirangueiro tinha nos enganado, começamos a recolher as bóias.Foi, então, que tivemos uma surpresa. As rãs estavam todas em cima das bóias, vivas e tranquilas. O pirangueiro nos deu todas as informações certas, só esqueceu de nos avisar que as mãos e as pernas das rãs deveriam ser amarradas."Advanir Alberto de Oliveira, 42 anos, conhecido por Fio, é músico, pescador e contador de histórias