Abortos têm índice alarmantes em Bauru
Abortos têm índices alarmantes em Bauru
Texto: Rita de Cássia Cornélio
Dentre os municípios de mesmo porte, a cidade figura com um dos índices mais altos de aborto. A falta de informação correta e a ociosidade podem ser os fatores que influenciam na gravidez indesejada e o aborto
O aborto é uma das maneiras mais traumáticas de se livrar de uma gravidez indesejada. Bauru, em todo o Estado de São Paulo, figura como uma das cidades onde o índice de aborto é alarmante. De janeiro a novembro de 98 a Maternidade Santa Izabel realizou 519 curetagens. Deste total 363 possivelmente, tenham tido origem nos abortos. Cerca de 30% dos casos, ou seja, 156 curetagens foram realizadas em adolescentes e 218 indicam abortos provocados.
O drama começa quando a adolescente, sem preparo, inicia sua vida sexual e engravida. Tentando se livrar da gravidez indesejada e da "vergonha" que isso possa significar para sua família, ela e seu parceiro procuram uma "aborteira" para se livrar do problema. Com sangramento intenso, essa "menina-mulher" se apresenta no hospital.
A chegada do casal na maternidade de maneira abrupta com ar de apavoramento é um dos sinais de aborto. A paciente fornece a identificação na portaria, que nem sempre é verdadeira. Alega que não trouxe documentos. Na entrevista com o plantonista, ela explica que está com exame positivado de gravidez e que de repente, começou a sangrar.
Mal a mulher é levada para a sala de cirurgia para ser socorrida, seu parceiro desaparece, como num passe de mágica. Retornando, somente, após 7 ou oito horas, quando a adolescente já fez a curetagem. Ainda debilitada, ela tenta convencer o médico a lhe fornecer a alta.
O ginecologista e plantonista da maternidade Sérgio Henrique Antonio confirma o procedimento e ressalta que em muitos dos casos, a paciente espera o momento adequado e foge do hospital sem deixar qualquer pista. "Elas têm pressa de ir embora. Algumas fazem o pedido de alta, outras fogem."
O médico explica que uma mulher que faz curetagem deve permanecer internada cerca de 24 horas. "Elas aguardam em média 7 horas. Quando o parceiro retorna, elas saem de qualquer maneira."
Antonio conhece bem a situação. Como plantonista da maternidade ele já atendeu inúmeros casos de menores em situações que levam a crer que houve prática de aborto.
Na opinião dele em Bauru há "aborteiras".
"Percebemos que grande parte das pacientes com quadro de sangramento intenso sofreu a manipulação do colo de útero. Uma prática de mulheres aborteiras."
Mas, o medo de ter um órgão perfurado, leva a maioria das jovens que optam pelo aborto, a escolherem os remédios abortivos para se livrarem da gravidez. "Os abortos provocados por medicamentos são mais numerosos. Elas ingerem o medicamento e algumas, colocam-o na vagina."
Os abortos, segundo o ginecologista, são provocados entre a oitava e 20ª semana de gravidez. "Nós consideramos abortos neste período ou quando o feto tem até 500 gramas. Depois deste período ou com mais de 500 gramas
é parto prematuro."
Abortos provocados
Os abortos podem ser provocados quando a paciente ingere algum medicamento capaz de expelir o embrião ou feto, ou com instrumentos. Em ambos os casos, a paciente corre riscos de vida, de acordo com o médico. "A mulher pode, entre outras coisas, ter o útero perfurado e morrer. Sofrer uma hemorragia externa, além de correr o risco de uma infeção generalizada, já que os instrumentos usados não são adequadamente esterilizados."
Os instrumentos usados pelas aborteiras, segundo o médico, variam. "A agulha de tricô é o instrumento mais usado. O talo da mamona e a laminaria (semelhante a um pedaço de madeira a base de algas) também são instrumentos usados para provocar a dilatação do colo do útero.
"
Os abortos provocados por medicamentos são os mais comuns em Bauru. "Eu acredito que os remédios utilizados para esse fim cheguem de forma clandestinas porque no país a comercialização é controlada. O medicamento mais usado provoca contração do útero e o deslocamento ovular. A paciente sofre uma dor terrível e começa a sangrar. "
Classe social
O aborto é para a classe social menos abastada, uma maneira de se livrar de uma "boca a mais para alimentar." A situação financeira pesa muito. Já nas classe sociais mais abastadas, o aborto significa menos problemas.
Famílias, aparentemente, bem estruturadas, com condições financeiras para sustentar mais um integrante na família, também procuram o aborto, lembra o médico. " Geralmente elas procuram o ginecologista e tentam convencê-lo a prática. Alegam que a paciente é muito menina e que terá seu futuro comprometido. Não encontrando resposta positiva, partem a procura de uma aborteira."
Sei de pais que forçam a filha a praticar um aborto. Nem sempre a menor concorda, mas acaba cedendo as pressões da família. "Muitas vezes a menina não quer se livrar da gravidez. Os pais alegam que o pai da criança não é pessoa digna e nem pertence a classe social deles."
Prevenção é o melhor caminho
O diálogo e os métodos contraceptivos são as armas indicadas pelo médico para as famílias que não pretendem passar pelo problema da gravidez precoce e pelo trauma do aborto. "Ainda falta muita compreensão por parte dos pais. Os filhos têm que estar preparados para a vida sexual. Isto serve para os pais de adolescentes de ambos os sexos."
O ginecologista acha que o diálogo sobre os riscos da gravidez na adolescência, drogas e doenças sexualmente transmissíveis deveriam fazer parte do dia a dia das famílias. "O uso da camisinha é indicado para os adolescentes de ambos os sexos, uma vez que não evita apenas a gravidez mas, também o contagio de doenças."
Para as adolescentes do sexo feminino, o médico indica os métodos contraceptivos. "A pílula oral diária
é a mais eficaz. A margem de acerto é de 93%." Ele lembra que existem outros métodos, como o anticoncepcional mensal ou trimestral. "
O médico acredita que mesmo com toda a informação, o adolescente ainda acha que o coito interrompido é a melhor maneira de evitar a gravidez precoce e o aborto. "Há falta de informação adequada. Eles não acreditam que vá acontecer com eles."
Início da vida sexual muito cedo
O plantonista da maternidade que já trabalhou em outras cidades do Estado e até fora do país acha que em Bauru, os jovens iniciam muito cedo a vida sexual. "É muito mais cedo do que nas demais cidades. Não sei exatamente a causa. Chego a pensar que a ociosidade dos jovens é que os leva a praticar sexo mais cedo. Já tentamos detectar qual é o fator que leva o adolescente a iniciar a vida sexual mais cedo, porém não chegamos a uma conclusão."
Ele lembra que já fez parto em meninas de 12 anos que engravidaram na primeira menstruação. "Esse caso eu lembro bem. Ela iniciou a vida sexual com 10 anos com o padrasto. Aos 12 já estava na rua. Quando ovulou pela primeira vez, engravidou. Na cidade há os dois extremos. Também já fiz parto em uma mulher de 51 anos."
Vai melhorar
Otimista, o ginecologista acredita que a situação deve melhorar nos próximos anos. "A Unimed/ Bauru tem um programa de prevenção chamado "Planejamento Familiar" que esclarece e orienta os funcionários de empresas e adolescentes de escolas públicas. Na área de saúde pública estamos conscientizando os médicos das unidades de saúde para que dialoguem mais com as pacientes jovens a fim de evitar a gravidez precoce e o aborto."
Ele acha que os médicos de unidades públicas de saúde podem orientar as adolescentes. "Quando elas procuram as unidades de saúde para fazer o exame de gravidez, retornam para pegar o resultado. Este é o melhor momento para que o médico convença-a de assumir a situação e não optar pelo aborto."
Bicho Papão
O bicho-papão das adolescentes grávidas continua sendo o pai, na opinião do médico. "Ele é o fantasma na vida das adolescentes do sexo feminino. O pai sabe, até porque ele praticou sexo na adolescência, que
é uma atitude normal, mas não aceita que a filha tenha vida sexual antes do casamento."
A mãe, em raros casos, não aceita. "Em meu consultório tenho recebido adolescentes acompanhadas das mães. Algumas sabem da vida sexual da filha. Outras acabam sabendo aqui. Eu procuro ajudar as mães a entender a situação e encará-la como normal."
Curetagens
519 curetagens
30% (156) realizadas em adolescentes
70% ( 363) das curetagens indicam abortos
Dos 363 casos, 60% (218) indicam abortos provocados
40% ( 145) indicam abortos espontâneos