12 de março de 2026
Geral

Ferrovias

Alessandra Morgado
| Tempo de leitura: 6 min

Noroeste antecipou o Mercosul

Noroeste antecipou o Mercosul

Texto: Alessandra Morgado

Carros especiais foram preparados para levar empresários locais para a Bolívia e outros países do cone sul

As relações comerciais entre os países da América do Sul já passaram por vários ensaios ao longo da história. Um deles esteve associado à trajetória da ferrovia no Brasil e, mais especificamente, em Bauru. A Noroeste do Brasil chegou a preparar um trem que levou empresários da cidade para a Bolívia e trazia compradores de lá para cá.

O historiador Luciano Dias Pires, que trabalhou 37 anos na Noroeste e, depois da federalização, na Rede Ferroviária Federal; explicou que a idéia era fazer com que os empresários e consumidores de países vizinhos, que passavam por Bauru rumo às compras na capital, parassem para efetuar seus negócios aqui na cidade.

O historiador conta que chegou-se a promover uma feira de produtos dos empresários bauruenses na Bolívia, com o intuito de apresentar aos comerciantes e consumidores daquele país a produção local.

"Nós promovemos encontros entre os empresários daqui e da Bolívia. A Noroeste proporcionou o intercâmbio comercial. Ela já fazia o Mercosul nos anos 60", defende ele.

Outras experiências

Para suprir necessidades regionais a NOB mantinha trens com poucos carros. A linha Campo Grande-Pontaporã era um exemplo delas, atendendo passageiros que tinham negócios ou precisavam fazer compras em outra cidade. Mais tarde, foram implantadas as chamadas automotrizes para trajetos curtos, com ar condicionado e serviço de bordo.

Perfil dos passageiros

Aos passageiros eram destinados carros nas diversas categorias: primeira classe, segunda classe e dormitório, sendo que cada uma das categorias contava com características próprias. Os vagões de primeira classe tinham bancos revestidos, cortinas e outros confortos. Já os de segunda classe eram mais modestos, com outros tipos de bancos mais modestos.

O transporte ferroviário abrangia todos as classes sociais. O historiador conta que as passagens eram compradas com grande antecedência e quem tinha poder aquisitivo optava pelos carros dormitórios e vagões de primeira classe, onde o conforto era maior. Um detalhe interessante é que os acompanhantes dos passageiros que quisessem dar "um último adeus" na plataforma de embarque precisavam comprar um bilhete de acesso ao local.

Hoje, bem pouco sobrou do glamour daqueles tempos, quando era possível conversar saboreando as delícias servidas nos vagões restaurantes ou, ainda, dormir tranquilamente sob o balanço do trem num dos carros dormitórios.

Pires lembra que o transporte de passageiros viveu seu apogeu até a década de 60, durante esse tempo a Noroeste foi soberana em vários tipos de transporte (passageiros, cargas e animais).

"A Noroeste tinha trens de passageiros muito bons, com carros de primeira classe e segunda. O carro dormitório tinha chuveiro nas extremidades", relembra o historiador.

Os vagões restaurantes contavam com atendimento de primeira categoria e conforto para as viagens longas. Mesmo porque era possível fazer o percurso do Oceano Atlântico ao Pacífico sobre trilhos: o encontro das diversas ferrovias permitia que se fizesse essa rota.

"Assim que abriam as vendas, tudo era vendido. Engenheiros franceses vieram conhecer as oficinas aqui e falaram que os nossos vagões não ficavam a dever em nada aos europeus", destaca Pires.

Ele lembra que nos tempos progressistas da ferrovia tudo na cidade girava em torno dela: "No começo vieram engenheiros franceses e brasileiros que tiveram grande influência em todos os setores de atividade humana na cidade".

"Em Bauru eram mais de três mil ferroviários e até quatro gerações de uma mesma família foram ferroviárias", destaca Pires.

Transporte obsoleto

Atualmente, o trem perdeu seu lugar ao sol para outros tipos de transporte mais modernos e rápidos, tornando-se opção para passageiros de baixa renda, que precisam se submeter às condições nem sempre adequadas das estações ferroviárias e aos atrasos constantes.

"Nos anos 40 uma viagem Bauru-São Paulo de trem durava seis horas. Hoje, o percurso continua sendo feito no mesmo tempo, apesar de todo o progresso dos meios de transporte", explicou Pires.

Turismo ferroviário despontou em (na década) 60

Trens levaram ao conhecimento do País e do mundo as paisagens e características das terras cruzadas pela ferrovia

Uma série passeios de trem pelo País foram o estopim de um movimento de turismo ferroviário na década de 60 e 70, divulgado através de reportagens da assessoria de imprensa da Rede. Empresas paulista começaram a armar viagens turísticas pelo território nacional. Foi assim que a Noroeste do Brasil (NOB) aflorou seu potencial de entretenimento.

Luciano Dias Pires conta que era relações públicas da Rede naquela época e aproveitou a oportunidade para divulgar as possibilidades de passeios pelo percurso do trem. Nem mesmo Bauru ficou fora das atrações turísticas, sendo que os passageiros eram convidados a visitar locais como a igreja Tenry Kyo, um templo japonês.

Nasceu o interesse das agências de turismo em passeios totalmente de trem. Os passageiros vinham de São Paulo até Bauru, onde dormiam e visitavam a cidade, depois partiam para outro local, como o Pantanal Matogrosense, um dos trens ficou conhecido como "Trem do Pantanal". Muitas vezes as empresas reservavam vagões inteiros para seus clientes.

"Naquele tempo pouco se falava em turismo de trem. Eu comecei a armar viagens turísticas e a divulgá-las através da releases para imprensa", lembra Luciano

Memória Ferroviária

Filho de ferroviária, ferroviário é

Aos 71 anos, sendo 37 deles vividos junto à ferrovia. O historiador, ferroviário aposentado e diretor do Instituto Histórico Antônio Eufrásio de Toledo, Luciano Dias Pires mantém um arquivo físico e outro emocional sobre a história dos trilhos que cruzam o Estado. Isso quer dizer que o que não traz em fotos, textos e jornais, ele traz na memória.

Ele ingressou na Noroeste, via concurso, em 1.º de outubro de 1945 e só pendurou as chuteiras em 1.º de outubro de 1982. Durante 21 anos foi relações públicas da empresa e acumulou fotos, documentos, jornais e objetos que fazem parte da história.

Luciano tinha os trilhos no sangue: sua mãe era escriturária da Noroeste, num tempo em que ainda não era muito comum o trabalho feminino.

"Quando eu entrei, nós trabalhavamos das 11 horas

às 17 horas, posteriormente, passamos para o horário comercial", lembra ele.

Pires é o pai do jornal "Bauru Ilustrado", que circula encartado ao Jornal da Cidade e dedica suas páginas a falar da história da cidade, suas famílias tradicionais e, como não poderia deixar de ser, a ferrovia. Além de colecionar jornais sobre a ferrovia, ele também dedida um espaço do Instituto Histórico Antônio Eufrásio de Toledo à ferrovia.

Muito do material que pode-se consultar no Instituto foi o resultado da mania desse ex-ferroviário de acumular papéis, documentos, objetos e até móveis ligados à ferrovia.