08 de julho de 2026
Geral

Violência policial

Solange Monteiro
| Tempo de leitura: 4 min

Família acusa PM de invasão de domicílio e violência

Família acusa PM de invasão de domicílio e violência

Texto: Solange Monteiro

A Polícia Militar apreendeu 20 pedras de crack e uma porção de maconha na residência de Alessandro Teodoro Cardoso, 18 anos, por volta de 22h40 de terça-feira, na quadra 3 da rua Raul Crevelente Guedini, no Núcleo José Regino. A família do rapaz porém, nega que as drogas estivessem na casa ou lhe pertencessem, afirmando que oito PMs invadiram a residência e agrediram-no com um pedaço de pau e pontapés. No Plantão Policial o caso não foi registrado como flagrante de tráfico.

Segundo a mãe de Cardoso, Maria José Barros da Silva, 39 anos, os policiais deram choque elétrico no rapaz usando o fio da geladeira.

Maria contou que por volta de meia-noite, seu filho estava deitado em um colchonete na sala, ouvindo música, e ela e seu marido estavam no quarto, quando os policiais chegaram gritando para abrirem a porta. "Meu filho não sabia de nada e entrou no meu quarto falando que tinha alguém querendo entrar".

Os policiais abriram a porta de vidro com o pé, enquanto outros policiais iluminavam o banheiro através da janela como se quisessem ver alguma coisa, segundo Maria.

Já dentro de casa, a família relata que os policiais reviraram tudo, jogaram comida no chão, tiraram a roupa do varal e perguntavam para Cardoso onde estavam as drogas. "Eles falavam cadê as pedras ? Mas eu não sabia de nada", disse.

A família dizia que não tinha nada ali, mas os policiais insistiam, segundo ela, dizendo "nós recebemos uma denúncia , dona".

Maria contou também que ela e seu marido foram trancados no quarto e revistados sendo obrigados a tirar a roupa diante dos policiais e agachar e levantar. Depois, outro PM teria dito para Maria despir-se novamente.

Durante algum tempo, que ela não soube precisar, ficou presa no quarto com o marido enquanto seu filho era espancado.

"Ele é epiléptico e toma Gadernal, Diasepam e Comital L".

Cardoso contou que estava algemado, mesmo assim, os policiais amarraram um fio no dedão do pé para dar choques. Também teve sua cabeça coberta com um saco plástico preto. "Eu desmaiei quatro vezes. Estava asfixiado". Em seguida, os policiais fizeram-no segurar os fios descascados da geladeira para que tomasse outros choques.

Maria disse que pedia para dar o remédio para o filho, explicando que ele é doente, mas um dos policiais, segundo ela, chutou a cabeça dele dizendo que aquele era o remédio.

Horas depois, por volta de 2h30, Cardoso foi encaminhado para o Plantão Policial junto com as drogas.

Maria disse que também foi colocada algemada em uma das três viaturas estacionadas na frente de sua casa.

Perseguição

Maria acredita que os policiais estão perseguindo a sua família, porque seu outro filho também foi abordado uma vez, embora, segundo ela, ele não portasse drogas nem fizesse tráfico.

Cardoso disse que quando era menor, ele costumava passar na frente dos policiais com uma mobilete provocando-os. "Eu fazia só para ver se eles me pegavam". Em uma dessas ocasiões foi ameaçado por um policial, que disse que ele se daria muito mal quando fosse adulto.

O outro lado

De acordo com o comandante interino da 1.ª Cia, tenente Jorge Duarte Miguel, os policiais receberam uma denúncia de que Cardoso estaria comercializando drogas.

Baseados nessas informações, os policiais foram até a residência dele, por volta de 22h40, e fizeram uma busca constatando que dentro de um saco plástico havia 14 pedras de crack embrulhadas em papel alumínio, nas proximidades da casa.

No interior da casa, havia 4 pedras envoltas em papel alumínio dentro do vaso sanitário, no banheiro, e mais duas pedras embrulhadas da mesma forma, na estante da sala. No guarda-roupa os policiais encontraram uma porção de maconha no bolso de uma blusa.

As 20 pedras de crack e a porção de maconha, junto com um aparelho de toca-fitas para carro, uma furadeira elétrica e um rolo de papel alumínio, foram encaminhadas para o Plantão Policial junto com Cardoso. O boletim de ocorrência porém, não foi registrado como tráfico de entorpecente e nem foi dado como flagrante, embora Cardoso tenha declarado comercializar crack e maconha por estar desempregado e que vendia cada pedra por R$ 10, segundo o tenente.

O comandante responsável pelo Pelotão Sudeste, tenente Flávio Jun Kitazume, disse que os policiais efetuaram a ação mediante denúncia e que o sargento que estava no comando viu quando Cardoso tentava esconder as pedras no vaso sanitário, porque iluminou o banheiro com a lanterna através da janela.

Sobre as agressões que teriam sido cometidas pelos PMs ele disse que isso será apurado.

Inquérito

De acordo com o comandante interino da 1.ª Cia, apesar de não haver uma queixa formal de violência policial por parte da família de Cardoso, o tenente Jorge esclareceu que será realizada uma investigação preliminar a fim de apurar os fatos.

Dentro de cinco dias o relatório da investigação prelimiar deve estar pronto e será entregue para o comandante do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior. Ficará a critério do comandante se o inquérito policial militar será instaurado ou não considerando as informações contidas no relatório, segundo o tenente.