08 de julho de 2026
Geral

Paixão

Renata Meffe
| Tempo de leitura: 5 min

Tempo de se apaixonar

Tempo de se apaixonar

Texto: Renata Meffe

"Paixão que não acaba, não é paixão, amor que acaba não é amor."

(Nelson Rodrigues)

"Não há diferença entre um sábio e um tolo quando estão apaixonados." (George Bernard Shaw)

"Quem se apaixona por si mesmo não tem rivais".

(Benjamim Franklin)

"Quem domina suas paixões é escravo da razão."

(Cyril Connolly)

"As paixões são como ventanias, que enfunam as velas dos navios. Algumas vezes os submergem, mas sem elas não se pode navegar." (anônimo)

"Se resistimos às nossas paixões, é mais pela fraqueza delas que pela nossa força." (La Rochefoucauld)

Apesar de carregar a fama de efêmera, a paixão, que desperta doses de ansiedade e faz o coração disparar,

às vezes é surpreendentemente duradoura.

O estigma de avassaladora também contrasta com sua capacidade de surpreender não apenas jovens, mas pessoas de todas as idades. Sempre é tempo de se apaixonar, ficar nas nuvens e passar horas pensando no ser amado. Não é raro conhecermos casais de idosos que se conheceram já na terceira idade e se entregaram à paixão. Também não

é difícil observar crianças, ainda em idade pré-escolar, que chegam em casa com a notícia de que estão namorando, ou apaixonadas por algum colega de classe. Em cada fase da vida e para cada casal, ela chega de um jeito, mas sempre provoca sensações inesperadas.

A ciência não tem explicações sólidas para o fenômeno. Ainda não se conhece quais os mecanismos cerebrais que regulam a paixão. Não se sabe por que é uma pessoa e não outra que faz o coração disparar, mas já sabe-se que isso é causado por uma troca química entre neurônios.

Para Freud, pai da psicanálise, o amor nasce da sexualidade, mesmo que não se reduza a ela. Alguns dizem que ela só existe por um tempo determinado, quando acaba ou se transforma em amor.

Dora de Almeida Ferreira, 70 anos, e Eurípedes Ferreira Filho, 71 anos, juntos há meio século, garantem que ela não acaba. "Nos conhecemos na escola profissional, em Franca, eu fazia costura e ele mexia com marcenaria", recorda.

De lá para cá, o sentimento que os uniu vem crescendo.

"O importante é ter paciência, não falar tudo que pensa, passear, ir ao baile e namorar", resume Dora.

Predestinados

O tempo ou a distância até podem apagar a chama da paixão, mas basta um encontro, um telefonema, uma notícia ou até mesmo um pensamento, para reacendê-la.

A história do casal Júlia e Renato faz lembrar o romance de Gabriel García Marques, "O Amor nos Tempos do Cólera", que narra a trajetória de um homem que aguarda durante toda a vida o dia em que terá sua amada, a paixão de sua juventude, de volta.

A bióloga Júlia Maria Xavier, 34 anos, conheceu o dentista Renato Sanzer Simões, 34 anos, quando eram adolescentes. Tinham apenas 14 anos quando se apaixonaram, em 1979. Ela morava em Bauru, e ele em São Paulo, mas sempre se encontravam na colônia de férias que frequentavam, em Suarão.

Depois de namorarem durante três anos, cada um seguiu para um lado. "Fui fazer faculdade e depois fui para o Japão", conta Júlia.

Dezessete anos depois da separação, veio o inesperado reencontro. Me casei, tive dois filhos, me separei e voltei a morar em Bauru. Minha tia, que agiu como "cupida", encontrou com a mãe dele na conhecida colônia de férias e falou de mim. No mesmo dia ele me ligou", conta Júlia.

Simões, que estava noivo e morando em São Paulo, não exitou em procurar pela antiga namorada. "Ele me esperou mesmo", gaba-se a noiva - Simões mudou-se recentemente para Bauru e os dois pretendem se casar em julho.

"Já esperamos muito".

A afinidade do casal e a emoção que um costumava provocar no outro persistiu. "Temos muito coisa em comum, quando nós conversamos depois de tanto tempo, parecia que não nos falávamos há apenas uns 10 dias", afirmam.

Empolgação

A barreira que separa a paixão da razão talvez explique a atitude da estudante Míriam Lupia Crema, 19 anos e do promotor de vendas Leonardo Balbino, 20 anos, considerada pela família de ambos como precipitada. Com apenas um mês de namoro, os dois decidiram ficar noivos. "Deu vontade, a gente comprou as alianças e ficamos noivos, vamos deixar rolar e ver no que vai dar. A família tomou um susto", diz Míriam.

A primeira vez que se viram, em uma lanchonete da cidade, os dois já se identificaram, perceberam estar na mesma sintonia, mas tanto ela quanto ele namoravam e o romance só começou depois de algumas semanas. "Um dia, a gente ficou, e não parou mais", recorda Míriam, garantindo que mesmo com projetos de vida em muitos aspectos divergentes, a intenção

é permanecerem juntos".

Por toda a vida

Kristina Regina Diogo Martins, 31 anos, não poderia supor que permaneceria junto a Ermelindo Inácio Martins Jr, 36 anos, quando o conheceu, mesmo porque, ainda era um bebê recém-nascido nessa época. "Nossas famílias eram amigas e nós começamos a namorar quando eu tinha 12 anos", lembra Kristiana. Seis anos depois, o relacionamento que para os pais poderia parecer "fogo de palha", ou coisa de criança, virou casamento.

De acordo com o casal, a paixão vem se intensificando, mesmo depois de 14 anos de casamento e o nascimento de dois filhos.

"Está ficando melhor. Namoramos, saímos para jantar, fazemos passeios sem as crianças e curtimos bastante", orgulha-se Kristiana.

Sentimento cultivado

A tese de que a paixão é imediata e instantânea, gerando faíscas já no primeiro encontro, não foi válida para Maria José Cortez, 43 anos e Walter Cortez, 43 anos. Quando os dois eram mais jovens e participavam do mesmo grupo de teatro, Walter queria namorar com Maria José, mas ela não se empolgava com a idéia. "Achava que não tínhamos nada em comum, mas aceitei namorar com ele diante da insistência de uma amiga. Apostei que só namoraria por dois meses, que não daria certo. Mas nesse período, teve o encantamento e eu me apaixonei", diz, lembrando que teve que bancar um jantar, para pagar a aposta.

Distância

A distância pode prejudicar o relacionamento em vários aspectos, mas para a paixão, a saudade costuma ter efeitos positivos. A estudante Verena Raquel Moraes,19 anos, precisou ficar longe de Jair Mantovani, 19 anos, que é tenista, em função das constantes viagens do namorado para competir. "Já fiquei quatro meses longe dele. Foi complicado. A expectativa era para receber notícias. Nessa fase, quando o telefone toca, o coração já dispara", diz, descrevendo um dos sintomas mais típicos da paixão.