Turbulência faz BB cancelar venda de dólar
Turbulência faz BB cancelar venda de dólar
Texto: Márcia Buzalaf
O Banco do Brasil (BB) cancelou, ontem, todas as operações em dólar, tanto a venda, como a compra. O motivo foi a turbulência causada pelas mudanças na política cambial do país.
Ontem foi revogado o comunicado que estabeleceu as novas bandas cambiais na última quarta-feira. A mididesvalorização do real em 8,96% estabelecida pela ampliação da banda cambial e a incerteza em relação ao mercado, fez com que a procura por dólar tenha aumentado bastante.
A única operação em dólar que autorizada pelo Banco do Brasil foi para quem apresentou uma passagem para o exterior. Mesmo assim, o limite de compra era de R$ 3 mil. De acordo com a gerente de administração do banco, Romilda Leite de Aquino, 42 anos, a procura foi grande nos últimos dias.
O movimento para a compra de dólares, segundo Aquino, foi de cinco vezes maior do que o normal, mesmo não comercializando a moeda. "O movimento cresceu ainda mais hoje", completa.
Na última quinta-feira, quando as operações de câmbio ainda estavam funcionando, o movimento aumentou cerca de duas vezes em relação ao normal. As outras operações de câmbio, relativas à exportação e importação, o banco não suspendeu.
Aquino afirma que dólar fechou em R$ 1,44, apesar de ter sido comercializado no paralelo por até R$ 1,60. Esta marca aumenta em 9,1% a desvalorização do real.
Ainda não existe orientação se o Banco do Brasil vai ou não abrir as operações de câmbio na segunda-feira, data em que será revista o estabelecimento da banda cambial. "Depende da abertura do mercado, nós só vamos saber na segunda-feira mesmo", afirma.
Análise
De acordo com o economista e professor universitário, Reinaldo César Cafeo, a medida tomada pelo Banco Central demostra que o governo percebeu que é melhor deixar o mercado se auto-regular. "Mais do que ficar torrando as reservas, é preferível que o mercado estabeleça um parâmetro de paridade", afirma.
A grande questão do momento, segundo Cafeo, é em que patamar a desvalorização diária poderia chegar. O medo é que o país siga o exemplo do sudeste asiático, que desvalorizou a moeda em 10% em um primeiro momento e foram obrigados a desvalorizar ainda mais por pressão dos próprios investidores. "Isso leva por água a moeda interna de um país", defende Cafeo.
A desvalorização do real nos últimos dois dias soma a porcentagem de quase 18%, sendo que 8,96% foi estabelecido pelo aumento da banda, que subiria o teto do dólar para R$ 1,32, e de 9,1%, depois que o câmbio foi liberado e o dólar fechou em R$ 1,44.
Isto significa um incentivo às exportações e, a longo prazo, uma sinalização de queda nas taxas de juros.
O grande problema apontado por Cafeo é a própria descredibilidade do mercado interno em relação ao real. As bolsas sinalizaram uma leitura positiva do mercado em relação às mudanças, afirma Cafeo.
Quem está sofrendo neste momento, reafirma Cafeo, é mesmo quem tem qualquer tipo de dívida em dólares não lastreados.
Cafeo afirma que a situação do Brasil, agora, é muito pior do que a de cinco anos atrás, quando começou a luta efetiva contra a inflação. "Por exemplo, a dívida interna está muito elevada, o déficit em conta corrente e na balança comercial altos, quer dizer, um ambiente muito pior do que foi em 94", completa Cafeo. Ele ainda afirma que as reservas - que, atualmente, são maiores do que no início do real - talvez não sejam compensatórias proporcionalmente, frente a esta situação.