Quem ganha e quem perde com a mudança cambial
Quem ganha e quem perde com a mudança cambial
Texto: Márcia Buzalaf
A mudança na política cambial e o aumento de quase 14% na taxa de assistência do Banco Central (Tban), que
é um indicador para as taxas de juros do País, influencia vários setores da economia. A Tban passou de 36% para 41%.
De acordo com o economista e professor-chefe do Departamento de Ciências Econômicas da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Wagner Aparecido Ismanhoto, a mudança na taxa de juros influencia vários setores da economia.
Entre as áreas que podem se beneficiar da mudança no câmbio e na elevação das taxas de juros, Ismanhoto destaca as exportadoras e a indústria nacional, que pode ganhar de volta o espaço privilegiado do gosto do consumidor. "A importação fica mais cara e vai tornar o produto nacional mais competitivo", completa.
O alerta feito pelo economista é em relação
à própria produção nacional. Ismanhoto questiona se o produto brasileiro tem mercado consumidor para que a exportação se desenvolva. "O fato de você criar uma desvalorização cambial para tornar o preço do produto nacional mais competitivo no mercado externo tem que ser examinado junto com o mercado que vai absorver a mercadoria", completa Ismanhoto. Ele afirma que os países tendem a adotar políticas protecionistas se perceberem que o produto de uma origem está ganhando mais mercado do que o produto nativo.
Ismanhoto diz que as empresas capitalizadas podem ter um benefício nesta conjuntura. Se as empresas que ainda dispõe de capital de giro, podem arcar com a elevação da taxa de juros e financiar este aumento para seus clientes, como forma de ganhar o mercado neste momento.
Prejudicados
Quem tem contrato em dólar, como são os contratos de dólar, são os que se prejudicam mais com a liberação do câmbio. "Você vai no banco e paga a parcela de acordo com a cotação do dia - por isso, a influência direta nestas pessoas", completa Ismanhoto.
O presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), Cássio Nunes Carvalho, 44 anos, acredita que todos os setores devem perder com a elevação nas taxas de juros.
No comércio, os dois segmentos influenciados diretamente e negativamente são as lojas de R$ 1,99 e os camelôs, que trabalham com vários produtos importados, segundo Carvalho.
Carvalho afirma que a maioria das lojas está com o estoque em baixa, devido às compras do final do ano, e com tributos em cima, já que os primeiros meses do ano são característicos pelos vários vencimentos de impostos.
O comércio deve sentir diretamente o impacto da elevação dos juros porque é um setor que depende de financiamentos. Segundo Carvalho, a elevação é prejudicial principalmente com os estoques em baixa, como estão atualmente.
Todo tipo de empresa - comercial, industrial ou de serviços
- que não puder arcar com a elevação de custos dos insumos importados irão repassar a diferença para os consumidores invariavelmente. "Isso porque a demanda está baixa, o mercado, recessivo", afirma Ismanhoto.
O economista lembra que existe uma diferença significativa entre taxa que o mercado opera e aquela divulgada pelo governo. Algumas financiadoras estão operando com uma taxa mensal de 16% a 17%, o que significa uma taxa de 558% ao ano, já que a incidência dos juros é capitalizada, segundo Ismanhoto. Ele afirma que esta é uma forma de diminuir ao máximo o risco que estas empresas têm.
As dúvidas que ficaram
Com tantas alterações na política econômica brasileira, ainda restam várias dúvidas em relação
à aplicações, dívidas e, invariavelmente, inflação. O economista Wagner Aparecido Ismanhoto responde algumas delas:
Como fica a concessão de crédito?
É lógico que os bancos estão com receio. Os economista são claros quando dizem que a pessoa não deve fazer muitas compras nem fazer empréstimos.
E as taxas de juros, como ficam?
Vai depender bastante de cada segmento e de cada produto. Mesmo assim, via de regra, houve uma elevação nas taxas praticadas pelo mercado, tanto para o crédito pessoal quanto para o empresarial. Tudo depende dos próximos dias: se os recursos continuarem saindo do País, o governo vai ter que aumentar as taxas de juros mais ainda e o mercado subir mais as taxas.
Qual o maior problema para quem assumiu dívida em dólar?
"Existem alguns contratos que proíbem a antecipação do pagamento de parcelas, geralmente relativas à operações de leasing. Se a pessoa fez o financiamento vinculado ao dólar, a pessoa vai ter as prestações normalmente, já com o reajuste da moeda dos últimos dias. Mesmo para os contratos que permitem a antecipação de prestações, não é viável pagar neste momento, já que o dólar está no pico."
O valor do dólar em relação ao real pode recuar?
"Se continuar estabilizado, ele tende a recuar um pouco. Agora, está no pico."
Os bancos estão fazendo as operações normalmente?
"A maioria dos bancos suspendeu todas as aplicações financeiras, exceto a poupança."
Qual é o conselho para quem tem dívida em cartão de crédito?
"As pessoas que fizeram compra no exterior, é melhor liquidar com a dívida rapidinho."
A inflação pode voltar?
"O governo já avisou que vai instituir um decreto que diminua o custo da importação se a indústria nacional aumentar os preços. Ele vai usar de instrumentos para conter a inflação, mas isso pode sufocar a indústria nacional. Mesmo assim, eu não acredito que ele vai deixar a inflação voltar, já que isso significaria o fim do Plano Real."
Quem ganha?
- quem investiu em dólares
- quem exporta
- quem produz (agricultura)
Quem perde?
- importadores
- quem usou o cartão de crédito em compras internacionais
- quem financiou capital atrelado ao dólar
- economia informal (camelôs)
- Mercosul
- quem pretendia viajar ao exterior
- lojas de R$ 1,99