08 de julho de 2026
Geral

Desvalorização moeda

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 6 min

Desvalorização pode não beneficiar produtores

Desvalorização pode não beneficiar produtores

Texto: Márcia Buzalaf

Com parte da produção já comercializada, os produtores podem não se beneficiar tanto da desvalorização do real quanto poderiam. A pressão do mercado internacional e a elevação do custo da produção

- por conta dos insumos importados do setor - são fatores que podem amenizar as conseqüências positivas da desvalorização para o café.

A afirmação de que grande parte dos produtores agrícolas deve se beneficiar pela desvalorização do real pode ser questionada por fatores internos - aumento do custo da produção

- e externos - pressão internacional para manter o preço como está. A afirmação foi feita pelo vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo e presidente do Sindicato Rural de Bauru, Maurício Lima Verde Guimarães, 60 anos. Segundo ele, 80% dos produtores agrícolas já comercializaram seus produtos.

A pressão internacional para a manutenção do preço acontece sempre que um país desvaloriza sua moeda, o que, teoricamente, traria benefícios para a produção nacional. "Como o importador sabe que o produtor vai ter maior valor na moeda do país, ele abaixa o valor de compra lá fora", completa Guimarães.

Exportação

Teoricamente, a redução das importações e a desvalorização do real são motivos para que os produtores consigam se beneficiar da mudança. "Nós deveríamos receber maiores valores em reais. Na prática, não é bem assim", completa Guimarães.

De acordo com o presidente do sindicato rural, a redução das importações tem um lado negativo quando se fala em termos de Mercosul. A relação de troca com os países vizinhos poderá ser abalada se for restringida a entrada de produtos no Brasil. "Na relação com o Mercosul, a medida em que você limita a importação, você fecha uma porta lá", alega.

Os insumos comprados em dólar (como os defensivos agrícolas), assim como grande parte de toda a produção nacional, representam um aumento do custo da produção. Entretanto, da mesma forma com que a produção foi parcialmente comercializada, grande parte dos insumos também já foram comprados, já que a produção agrícola está na entresafra, o que pode amenizar o aumento no custo.

De acordo com Jader Bianco, 49 anos, diretor superintendente da Cooperativa dos Cafeicultores da Região de Marília

(Coopemar), o adubo e os defensivos de fato já subiram e estão atrelados ao dólar.

O custo da produção de café, por exemplo, em junho de 98, para uma lavoura média com produtividade de 20 sacas por hectare é de R$ 116,00 a saca. "Os produtores mais produtivos consegue baixar o custo", completa Bianco. No repasse da desvalorização dos últimos dias, o aumento no custo da produção é significativo.

Os insumos importados representam, no custo variável do café por hectare, cerca de 40% do custo total da produção. Nos custos fixos da produção, afirma Bianco, os insumos em dólar representam 30% do total.

Café

Ele diz que um dos exemplos dos produtos que poderiam se beneficiar com a desvalorização é justamente o café, produto quase dolarizado da produção nacional, e que sofre alta pressão internacional.

O café baixou, na quarta-feira, 7% na bolsa de valores de Nova York, segundo Guimarães. "Eles sabem que podem pagar menos dólares que nós vamos continuar vendendo", completa Guimarães.

Se há 10 dias, o produtor vendeu uma saca de café por R$ 130,00 e o importador conseguia comprar por R$ 130,00, ele acha que este valor está bom", completa Guimarães.

O importador abaixa a oferta em dólar para que o produtor continue recebendo R$ 130,00, segundo Guimarães. Segundo ele, o importador afirma que, se os produtores brasileiros podiam vender no preço anterior, eles podem continuar vendendo naquele mesmo preço.

O produto também já foi bastante comercializado. Segundo Guimarães, restam apenas de quatro a cinco milhões de sacas de uma produção de cerca de 30 milhões.

"O benefício que a desvalorização poderia dar é muito pequeno", completa ele.

O café e a soja são os dois produtos que representam a maior quantia de exportação agrícola do Brasil. A soja acaba sendo beneficiada, já que sua produção

é estável, o que não acontece com o café.

A produção bianual do café faz com que Guimarães afirme que vai faltar café no próximo ano.

De acordo com Bianco, da Coopemar, assim como a cotação do café na bolsa de valores de Nova York, as previsões da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), que estão flutuando de acordo com os movimentos de subida e descida da moeda americana. Segundo a previsão para março da BM&F, a saca do café na abertura da bolsa de ontem estava sendo cotado a US$ 122,50, sendo que, durante a tarde de ontem, a previsão do valor da saca caiu para US$ 120,50. "A queda dos dois dólares está acompanhando a variação do câmbio", completa Bianco.

Ele lembra que é a primeira vez que o Brasil promove desvalorização cambial com contenção de inflação.

O preço do café, afirma Bianco, estava em R$150,00 a saca há uma semana atrás. Depois da desvalorização, o preço subiu para R$ 171,00, o que, na opinião de produtor, não representa ganho algum, apenas a equiparação do que foi gasto com o aumento do preço dos insumos dolarizados e a pressão do mercado. "O aumento do custo de produção está penalizando o produtor", completa Bianco.

Ele afirma que precisa ter um diferencial de ganho para o produtor do café. "A expectativa é que o aumento no ganho do produtor seja maior do que o aumento no custo da produção. Se não, não existe vantagem alguma", completa Bianco.

Laranjada

A perda na produção norte-americana de laranjas, em função das geadas em várias partes do país, também não representa uma maior abertura para o produtor nacional. Segundo Guimarães, o grande prejuízo nos Estados Unidos foi na produção de laranja de mesa, não do suco.

O Brasil exporta cerca de 7% de sua produção de laranja de mesa, afirma Guimarães. Esta parcela de produtores pode se beneficiar da situação. Mesmo assim, Guimarães lembra que estes produtores também já comercializaram sua produção há dois meses, época da safra de laranja. "Os preços deste ano foram razoáveis, chegaram a US$ 4 a caixa. Mas, também nós não temos mais laranja para vender", alega.

Quem pode ganhar com isso, segundo Guimarães, não são os produtores, mas, sim, os industriais que exportam suco de laranja. "Eles têm uma maior capacidade de estocagem", explica Guimarães.

Se a situação persistir e o produto ficar escasso no mercado, Guimarães afirma que, para o próximo ano, pode ser que o produtor consiga um preço melhor.

Exportação em números

* US$ 53 bilhões por ano - valor da exportação total do Brasil por ano

* US$ 15 bilhões por ano - exportações de produtos primários

* US$ 5 bilhões por ano - quantia de café o soja exportados