08 de julho de 2026
Geral

Alfabetização

Andréia Alevato
| Tempo de leitura: 7 min

A busca pela alfabetização

A busca pela alfabetização

Texto: Andréia Alevato

Até o dia 29, 70 professores e estudantes de magistério, além de secretários municipais de educação, vindos do Ceará e Pará, estarão em Bauru, participando de mais uma etapa do projeto "Alfabetização Solidária", que integra o programa "Comunidade Solidária", criado pela primeira dama, Ruth Cardoso, e que visa combater o analfabetismo no Brasil.

Os professores e estudantes de magistério vêm em busca de aperfeiçoamento profissional. O objetivo, como já aconteceu em outras oportunidades, é treinar os profissionais para utilizarem o material didático elaborado pelo MEC, que será usado para a educação de adultos em seus municípios de origem.

Esse é o terceiro grupo de alfabetizadores que busca aperfeiçoamento na USC (Universidade do Sagrado Coração), através do programa "Alfabetização Solidária". Os municípios selecionados para participarem são sempre de localidades pobres.

Francisco Ernane Peres Lima, secretário da Educação em Catunda - CE, Francisca Joyce Guerreiro Jorge, professora e secretária da Educação de Tamboil - CE, Carlos Alberto Souza Paiva, coordenador do programa "Alfabetização Solidária" em Hirolândia - CE, Luiz Tatiana Luiz Batista, coordenadora do programa em Tamboil - CE, Trindade de Noronha Ferreira, coordenadora do programa em Portel - PA, e Ana Paula Ximenes Pires, coordenadora do programa em Catunda

- CE, falaram, num bate-papo informal, sobre o programa e os principais problemas da educação no país.

Jornal da Cidade - O que é o projeto "Alfabetização Solidária"?

Francisco Ernane Lima - O Alfabetização Solidária

é um projeto do Governo Federal, em parceria com universidades e municípios. O governo federal entra com todo material didático, as universidades com a parte pedagógica e o município com o alojamento e com a locomoção. Ele visa combater o analfabetismo no Brasil, mas na realidade,

é uma forma do governo recompensar a deficiência na educação.

JC - Como o programa ajuda nessa "deficiência"

?

Francisco Lima - Um programa como este vem ajudar nessa necessidade de saber e tentar suprir essa deficiência na educação. Atualmente, ele atende principalmente o Nordeste, porque nessa região do país, o jovem, ao completar 18 anos, não tem emprego, o que faz com que ele vá embora do seu Estado em busca de trabalho. Saindo do Estado, ele já não estuda mais. Como forma de incentivo, agora o jovem recebe uma bolsa para ele permanecer em sua localidade, não sair do Estado em busca de emprego.

Francisca Joyce - O "Alfabetização Solidária" está realizando o sonho de muitas pessoas de se alfabetizarem. Muitas delas, já com idade bastante avançada, não estudaram por vários motivos, ou por formação da própria família ou por dificuldades financeiras. Mas os órgão competentes não podem deixar que esse projeto e outros parecidos parem. Se eles não derem continuação a eles, eles servirão apenas como uma enganação: "faz de conta que estamos alfabetizando", se preocupando com a população. Se o projeto parar, vai servir apenas como um cala boca.

JC - Há diferença na educação de um Estado para outro? Qual a consequência?

Francisca Joyce - Há uma diferença muito grande na educação de um Estado para outro. A consequência

é a falta de estrutura na educação. Cada lugar ensina uma coisa diferente de outro.

JC - O analfabetismo prejudica a vida do ser humano. Em quais

áreas ele é mais prejudicial?

Francisca Joyce - O analfabetismo é prejudicial demais para o ser humano. Primeiro, na parte de mercado de trabalho, porque hoje, um segundo grau, pode se dizer, não vale mais nada. Até para trabalhar como doméstica é preciso saber ler e escrever, se não como ela vai ler as receitas e anotar os recados? Sem a alfabetização, a pessoa perde a oportunidade de viver melhor. Se ela passa em frente a uma loja em promoção, para ela, os cartazes são apenas cores. Ela não sabe que ali ela pode adquirir um produto mais barato.

JC - A educação no país é ligada a qual outra área?

Francisca Joyce - A gente percebe que a educação está ligada a saúde, as duas andam juntas. Quando a pessoa não tem educação, ela também desconhece a parte da saúde. Aí, acarreta vários fatores com consequências desfavoráveis, como o desconhecimento de direitos e de leis. Nossos governantes precisam se preocupar mais com a educação. Nos olhos políticos, quanto mais analfabeto melhor. Melhor para eles, para que possam dominar sozinhos. A partir do momento em que o ser humano toma conhecimento, é educado, ele passa a tomar conhecimento dos seus direitos. É por isso que eu acho que existe no Brasil, essa deficiência com a educação, porque quanto mais pessoas forem alfabetizadas, mais vão atrapalhar os planos do governo.

JC - As trocas de experiências de uma localidade para outra são importantes?

Francisca Joyce - As trocas de experiências são muito importantes, porque aumenta a qualidade de ensino. Às vezes, uma experiência que nós desconhecemos, aprendemos com outros profissionais.

Ana Paula - Nós tivemos um encontro no Ceará com professores de diversas regiões do Estado. O que nós pudemos perceber é que em cada lugar há formas diferentes de ensino. A troca de experiência foi maravilhosa, porque profissionais mais capacitados podem ensinar aos menos capacitados.

O que mais interessa no programa para as pessoas?

Francisca Joyce - A alegria de aprender a ler e a escrever. Muitos brasileiros não sabem nem escrever seu nome, principalmente os de idade mais avançada, que não tiveram a oportunidade de estudar.

Francisco Lima - Nas reuniões em escolas nós percebemos como a situação do analfabetismo é grave. Os pais que são analfabetos não têm como controlarem os filhos na escola. Daí a necessidade e o interesse deles em aprender também.

JC _ Há muitos alunos desinteressados na escola. O que

é preciso fazer para que os alunos se interessem mais pela escola?

Francisca Joyce - Têm professores que usam o mesmo programa pedagógico todos os anos. Isso desinteressa o aluno. Eu já presenciei brigas entre colegas para permanecerem na mesma série. Só que o problema é que eles não querem permanecer na mesma série para desenvolverem um trabalho diferente a cada ano com os alunos. Eles querem ficar na mesma série para não terem que montar um novo plano escolar para aquela série. Têm professores que usam o mesmo plano há mais de 10 anos.

Carlos Alberto - Por isso é importante o rodízio de professores entre as séries. Se numa escola rural há três classes e três professoras, a cada ano, as professoras vão mudar de classe, mudar de série.

Ana Paula - Em minha cidade, Catunda, temos um ensino bom, mas falta um método de despertar o interesse de estudar no aluno. Às vezes, a mãe pensa que o filho está na escola, e ele está na locadora, jogando video-game.

Francisca Joyce - Mas o problema Ana Paula, é que as nossas escolas não são atraentes para os alunos. O que nós precisamos são de escolas atrativas, para que o aluno tenha prazer de ir para a aula. Um ensino atraente.

É isso que falta para que nós, professores, consigamos prender os alunos na sala de aula. Nós temos que passar a parte pedagógica, mas nós precisamos saber trabalhar aquela disciplina, fazer com que o aprendizado se torne interessante.

Ana Paula - Na escola onde eu leciono, todos os anos tem a Feira do Artesanato. Os alunos ficam tão entusiasmados com a Feira, que quando ela fica pronta, nós até pensamos que eles receberam ajuda. Durante toda a semana que antecede a Feira, eles se preparam, fazem gincanas e serestas, e, o mais importante, não faltam a aula.

Francisca Joyce - Os alunos têm potencial, sabem como fazer. Mas, infelizmente, alguns professores não deixam que essa criatividade se desenvolva. Se essa criatividade fosse desenvolvida, os alunos teriam prazer de irem a escola. Mas, se as aulas forem sempre a mesma coisa "leia um texto, faça uma conta", o aluno perde o interesse e abandona tudo. O professor tem que criar uma maneira interessante de dar aula.

Trindade - Muitas coisas que eu estudei há anos atrás ainda são ensinadas. Falta interesse dos professores em montar novos planos de ensino, porque têm colegas de trabalho que só se preocupam em saber quantas folgas e dias de férias eles terão no ano.