07 de julho de 2026
Geral

Migrantes

Alessandra Morgado
| Tempo de leitura: 4 min

Baiana fugiu da seca e da falta de perspectiva

Baiana fugiu da seca e da falta de perspectivas

Texto: Alessandra Morgado

Depois de oito dias viajando de trem, uma família baiana chegou a Andradina. Na época, o desejo era um só: começar vida nova longe do desconforto da seca

"De mudança não trouxemos nada. Só a mala de roupa, um lata de farofa e um farrafão de água", lembra a doméstica Eunice Rosa da Silva, 57 anos, que há 35 anos veio para o Estado de São Paulo fixando-se primeiro em Andradina e, mais tarde, em Bauru.

Nice, como é conhecida, é uma baiana de família grande (os pais tiveram nove filhos), que foi obrigada a buscar melhores condições de vida. Os Silva moravam na fazenda Capim Pubo, no interior da Bahia, um local como tantas outros castigados pela seca e sem perspectivas.

O caminho para o Sul foi difícil. Foram oito dias viajando de trem com umas poucas tralhas na bagagem. Os primeiros anos de adaptação também foram duros, ela conta que era preciso acostumar-se com tudo de novo, desde a alimentação até coisas que não existiam em sua terra natal, como os veículos automotores.

"Lá, todo mundo era muito pobre. Não tinha carro e nada do que tinha aqui", lembra a baiana.

Depois de casada ela mudou-se para Bauru e foi trabalhar como doméstica em uma casa onde continua até hoje, mesmo depois de aposentada. E, lá se vão mais de 20 anos de vida como "baurense".

"Vim para cá depois que meu marido veio trabalhar aqui na construção de prédio", conta ela. Aqui, Nice criou os quatro filhos, construiu casa e acredita ter confortos que não seriam possíveis em sua árida terra natal.

"Eu não voltaria para a Bahia. Lá, eu não teria conseguido formar meus filhos, porque só tinha trabalho na roça".

Um dos irmãos de Nice continua vivendo na mesma fazenda, mas o restante da família tenta ajudá-lo enviando dinheiro para a sobrevivência. A vida dessa doméstica nascida baiana foi dura, mas ela guarda poucas coisas materiais do estado natal. Uma delas é o antigo título de eleição, que mostra em uma foto apagada um pouco da beleza de moça dessa baiana.

Migração continua dando novos sotaques à população bauruense

Cerca de 10% da população bauruense é migrante, oriundos de outras cidades ou estados. Um fato interessante já que Bauru não é pólo industrial e parece ter poucos atrativos para novos moradores. Porém, atrás de 2.750 migrantes estão histórias recomeços nem sempre muito fáceis. Existem aqueles que fugiram da seca ou tenham vindo para a cidade para ficar próximo aos filhos.

A migração descontrolada também está inchando nossa periferias. Segundo a Defesa Civil, os migrantes de baixa renda vêm para a cidade em busca do auxílio dos mecanismos de assistência social, o que acaba criando um outro problema de falta de infra-estrutura para crescimento da cidade.

Boa ou má, a migração é uma realidade, que mistura gostos e sotaques pelas ruas da cidade.

Editorial

Migrar é mais que a definição de locomoção de massas humanas, porque atrás de cada total estão histórias de desencontros entre as aspirações humanas e as condições naturais, a política, religião ou o contexto econômico de algumas regiões. Porém, só quem deixa parentes, amigos, hábitos e até filhos pode contar as dificuldades, tristezas ou alegrias. A migração parece mais o nome dado ao lado prático da esperança. Para uma baiana passar oito dias em viagem de trem foi o caminho para uma vida melhor, longe da aridez das terras da fazenda onde nasceu. Dá para condenar isso? É claro que não, mas o contínuo fluxo migratório no Brasil também leva a problemas sociais graves e de difícil solução. Durantes anos várias cidades, inclusive Bauru, apenas receberam pessoas, mas não conseguiram equacionar seu crescimento populacional ao desenvolvimento urbano. As favelas nasceram e disseminaram-se pelo País. Somente em Bauru perto de 10% da população reside em locais sem condições mínimas de higiene e saúde.

A migração para Bauru é apenas uma constatação, mas parece ainda não ter sido estudada a fundo. Uns acreditam que a cidade oferece atrativos, mas defendem a criação de um centro de triagem de migrantes, onde seria feito o controle da população que chega à cidade e recorre ao serviço assistencial. Mais uma vez fica patente que

é preciso planejar a cidade para os próximo anos, antes que os problemas sejam maiores que nossas possibilidades de soluções.