10 de março de 2026
Geral

Migrantes

Alessandra Morgado
| Tempo de leitura: 5 min

10% da população da cidade são migrantes

10% da população da cidade é de origem migrante

Texto: Alessandra Morgado

Cerca de 10% da população é migrante, vinda de outra cidades do Estado ou, até mesmo, de outros estados mais longíquos do País. A migração inter-regional

Os sotaques se misturam e dão forma ao jeito bauruense de falar, com uma pitada mineira, um cantar carioca ou a marcação pernambucana. Uma contagem populacional realizada em 96 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estudo (IBGE) aponta que 9,48% da população da cidade é fruto da migração inter-regionais. As causas disso ainda devem ser objeto de estudos mais profundos. As universidades, por exemplo, atraem todos os anos uma quantidade considerável de migrantes flutuantes que têm Bauru como um local de passagem.

Os migrantes, população natural de outras cidades e estados são 27.750 pessoas, sendo que a maior parte deles

(21.765) são originários do próprio Estado de São Paulo. Em seguida, vêm os mineiros e paranaenses.

(veja infográfico). As migrações podem ser definidas como o deslocamento de populações dentro de um espaço geográfico.

A reportagem do JC nos Bairros falou com famílias que chegaram à Bauru em diferentes épocas e por diferentes motivos. Uma delas veio em busca de melhores condições de trabalho, enquanto outra aspirava apenas estar próximo dos filhos. É claro que quando chegam à cidade enfrentam problemas de adaptação ao espaço e clima. Porém, muitos acabam se fixando e passando a fazer parte do quadro de residentes. Historicamente os grupos humanos costumam migrar por várias causas, como econômicas (busca de trabalho), sociais (melhores condições de vida), políticas (fuga de guerras e conflitos), ideológicas

(perseguições religiosas e outras), entre outras.

O outro lado da moeda

Ainda que não estejam bem delineados os motivos e atrativos que trazem migrantes para a cidade, existe um lado problemático da migração: o inchaço das periferias, onde as famílias de baixa renda costumam fixar moradia. Segundo o presidente da Comissão Municipal de Defesa Civil, Álvaro de Brito, é possível notar que "a ocupação de áreas degradadas e de risco".

Ele acredita que a rede de assistência social existente na cidade - mais de 60 instituições-, acaba incentivando a migração de famílias de baixa renda, que não estão encontrando condições de sobrevivência em outros municípios.

As penitenciárias da região seriam outro forte motivo de migração das famílias de detentos, que querem ficar próximos aos locais onde os parentes estão cumprindo pena.

"Num raio de 100 quilômetros temos três grandes complexos penitenciários (Bauru, Pirajuí e Álvaro de Carvalho) para onde foram trazidos perto de 2.400 presos. Se apenas 10% das famílias acompanharem os detidos serão 240 novas famílias na região", explica Brito.

Ele ressalta que as famílias de presos costumam procurar cidades com equipamentos assistenciais, que podem dar apoio para a migração, como é o caso de Bauru e Marília.

"O projeto de desfavelamento também atraiu muita gente para a cidade. Os prefeitos de outros municípios incentivam a migração para Bauru dizendo que aqui estavam dando casa para os pobres", destaca ele.

Centro de Triagem

Brito defende a criação de um centro de triagem de migrantes na cidade, porque o crescimento em progressão geométrica da população é muito maior do que os investimentos em infra-estrutura, moradia, educação e saúde. Tudo isso aponta para um futuro nada promissor para a cidade que já vive dias de abandono.

"É evidente que mais cedo ou mais tarde será necessário criar centro de triagem de migrantes para controlar o fluxo migratório que está passando por aqui, porque a cidade não vai comportar", alerta o presidente da Comissão de Defesa Civil.

"Bauru tem que pensar no que aspira ser nas próximas décadas e se preparar para isso", defende ele.

Causas ainda não foram devidamente estudadas

A geógrafa Línia Maria Bilac Garrone, 42 anos, explica que as migrações no território brasileiro são um processo histórico antigo que vem desde a

época da colonização, mas intensificou-se a partir da década de 50, quando o País acelerou seu processo industrial. De modo geral a região que atraiu maior contingente de pessoas foi o Sudeste, por possuir os melhores equipamentos técnicos e maior oferta de trabalho, entre outros fatores. Era o sonho de uma vida mais digna na Terra da Garoa, o que acabou refletindo em todo o Estado.

"A partir dos anos 50, se intensificou com o presidente Juscelino Kubitschek que modernizou o parque industrial e fez entrar o capital multinacional. É mais necessariamente no Estado de São Paulo que esses equipamentos chegam mesmo. A partir daí começa uma intensa migração do Norte e Nordeste para a região Sudeste. Rio de Janeiro e São Paulo são os dois estados que mais receberam pessoas", explica.

Dados da década de 50 revelam que a intensidade da migração no período fazem da cidade de São Paulo uma "cidade nordestina". Dentro da região Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espiríto Santo) também ocorreu forte migração.

Para a geógrafa cabe a um estudo para verificar o porquê de Bauru atrair migrantes, já que a cidade não é um pólo industrial considerável no interior. A cidade

é marcada pelo desenvolvimento do setor terciário

(comércio e prestação de serviços).

"Por tudo isso seria necessário verificar as causas da migração para a cidade, destacando motivos, fatores, etc", explicou.

Ela afirma que os dados da contagem do IBGE são crus e não revelam motivos de migração, os quais precisariam ser levantados com apuro científico para mostram o que está por trás dos números frios da contagem.