07 de julho de 2026
Geral

Editorial

B. Requena
| Tempo de leitura: 2 min

Governo atrapalha, mas o cinema vence

Governo atrapalha, mas o cinema vence

(*) B. Requena é editor de Internacional do JC

O Brasil existe para brilhar, apesar de, infelizmente, termos governo. Não se trata de uma proclamação inconseqüente, porém uma constatação. Por incrível que pareça, quando via a notícia sobre o sucesso do filme "Central do Brasil", que no domingo passado conquistou o Globo de Ouro, em Los Angeles, como a melhor produção estrangeira, quem me veio à memória foi Mané Garrincha. E qual relação haveria entre aquele que foi um dos maiores craques da Seleção Brasileira em todos os tempos e o sucesso de uma produção cinematográfica? Tentarei explicar.

Nossos sucessivos governos têm sido efetivamente mais um obstáculo para manifestações artísticas, amadoras ou profissionais, como é o caso do cinema, do que prestado alguma ajuda. Enquanto isso, em muitos países, programas governamentais têm dispensado ajudas significativas a artistas e produtores. E no final, é o nosso cinema, pobre, porém rico na criatividade, que desponta lá na frente, trazendo muita emoção e um orgulho enorme para todos nós. Estivemos nas alturas com "O Pagador de Promessa", "O Quatrilho" e, agora, com "Central do Brasil". É o cinema pobre dando banhos de criatividade e sucesso no cinema rico dos franceses, italianos, ingleses, japoneses e tantos outros. Lembra o rapazinho franzino, mal-alimentado e, ainda por cima, com as pernas tortas, dando olés nos atletas bem-nutridos, com alimentação balanceada e preparados para o sucesso. Lembra também, como já foi o caso, a atleta brasileira que corria descalça nos treinamentos por falta de calçados adequados, fazendo bonito nos Jogos Olímpicos. E quanto à ajuda do Governo...

E não se diga que não vale a pena investir porque o setor é uma área de malucos, sonhadores, poetas, enfim, a utopia em seu grau máximo, inspirada em Gláuber Rocha. Que o cinema não é uma indústria. O país que leva cinema a sério chega a transformá-lo numa fonte bilionária. Haja vista produções que correm o mundo faturando dólares em pencas. Quando

é que o Brasil despertará para o fato de que o nosso cinema está dando certo? E que é inteligente acreditar nele?

O desprestígio da assim chamada Sétima Arte é tanto que tivemos recentemente um presidente (elle) que não só zerou qualquer ajuda aos cineastas, mas que chegou mesmo a extinguir a Embrafilme, o órgão máximo de apoio até então existente. Os governos anteriores, pior ainda, censuravam e tratavam os artistas como verdadeiros bandidos, apontando os porões para eles. Felizmente, toda arte que se liberta das masmorras vem com mais valor, mais criatividade. Esta é a situação do nosso cinema, chegando aos píncaros da glória, apesar de sempre ter um governo atrapalhando.

(*) B. Requena é editor de Internacional do JC