Diretor fora do gabinete
Diretor fora do gabinete
Texto: Andréia Alevato
Ele foi um dos primeiros funcionários da Escola Estadual
"Professor Antônio Guedes de Azevedo", fundada em 1.984, no Jardim Pagani. Era assistente de diretor. Quando assumiu a direção do "Antônio Guedes de Azevedo, ao lado da comunidade, que construiu o prédio da escola, José Jurandir Gonçalves resolveu fazer uma escola interessante para os alunos.
Hoje, a Escola Estadual "Antônio Guedes de Azevedo" atende não só o Jardim Pagani, mas também o Colina Verde, Jardim das Perdizes, uma parte do Jardim Araruna, Jardim Flórida, Quinta da Bela Olinda, Parque City e toda região das estradas que rodeiam o Jardim Pagani.
A escola, para o diretor Jurandir (como é chamado pelos alunos), é sua vida. Aulas extra-curriculares e interessantes são prioridade na escola. Algumas, ministradas pelo próprio diretor, que também faz questão de visitar as classes todos os dias, além de ficar no pátio da escola, junto com os alunos, na hora do recreio. Manter uma relação amigável com os estudantes, fora do gabinete da diretoria e conhecer todos alunos pelo nome é muito importante para o diretor Jurandir.
Jornal da Cidade: Por que a escola foi construída pela comunidade?
Jurandir Gonçalves: O prédio foi construído pela comunidade, porque ela percebeu a necessidade de uma escola pública no bairro. Consultando a Delegacia de Ensino, constatou-se que haviam 420 crianças interessadas numa escola no bairro. A comunidade se mobilizou, reformou o prédio do Cominde que havia no local, construiu todas as dependências necessárias para o funcionamento da escola.
Jornal da Cidade: E como surgiu a oportunidade da escola gravar um disco de duas faixas?
Jurandir Gonçalves: Desde a inauguração, em 84, nós temos o Coral da escola. É muito importante a música dentro da escola, porque a música também educa. Na inauguração do prédio oficial da escola, construído pelo Estado na mesma área do construído pela comunidade, foi feita a apresentação do Coral. E o governador na época, Franco Montoro, achou
ótima a idéia do ensino da música na escola. Então, ele convidou o Coral para gravar a "Canção do Estudante Paulista", para que todas as escolas do Estado tivessem acesso. Na oportunidade, nós pudemos também escolher uma segunda música para integrar o disco. Nossa regente, Ida, escolheu a música "Coração de Estudante". Desde então, a música teve um impulso muito grande na escola, se tornando nosso ponto forte.
Jornal da Cidade: Quais os outros projetos já implantados na escola?
Jurandir Gonçalves: Nós contamos com o apoio da Delegacia de Ensino e a nova Lei de Diretrizes e Bases dá autonomia à direção para realizar certos projetos, diferente do convencional que estamos acostumados. Nossa delegada de ensino, Ednéa Cucci, nos recebeu e acatou nossas idéias. A Coordenadoria de Ensino do Interior, em São Paulo, também achou que deveríamos experimentar os projetos. Só que o experimento deu certo. Eu também sou professor de música. Aproveitei a oportunidade do Coral, que é formado por 60 alunos, de 5ª a 8ª série
(escola reorganizada na Rede Estadual de Ensino, com alunos de 1ª a 8ª série), e implantei a oficina de flauta doce, ministrada por mim mesmo. Formou alguns monitores, que hoje orientam os outros alunos e até lêem música e tocam o instrumento. Montamos uma "charanga" (banda formada por instrumentos de sopro do tipo da flauta doce) e estamos trabalhando com os monitores. Resolvemos inovar também a grade de língua estrangeira, porque na grade curricular há obrigatoriedade de língua estrangeira, mas inglês, e na LDB diz da obrigatoriedade da disciplina de língua estrangeira, mas que essa língua pode ser escolhida pela comunidade, de acordo com a necessidade e interesse. Foi isso que eu fiz. O ensino de francês está na grade, é oficial. Além dele, há o de inglês e o de espanhol. Contratamos os professores, que já são da Rede Estadual e completam sua jornada aqui na escola, e montamos um centro de línguas. O material para as aulas é confeccionado pelos próprios professores, na escola. Não adotamos um livro didático. Firmamos convênio com o Consulado da França em São Paulo, que envia material, gratuitamente, para a escola. O Consulado manda livros, dicionários, CDs, Fitas cassete, um material que tem auxiliado nas aulas de francês. Nas aulas de inglês continuamos com o material que já vinha sendo usado na escola, mais o audiovisual, que eu acho muito importante. E o material de Espanhol, é montado pela própria professora.
Jornal da Cidade: As aulas de inglês, espanhol e francês são extra-curriculares. Os alunos passam a maior parte do dia na escola?
Jurandir Gonçalves: Na minha cabeça, eu penso o seguinte: o aluno tem que vir para a escola aprender as disciplinas básicas (português, matemática, história, geografia e ciências). Em períodos diversos, ele volta para a escola estudar artes, língua estrangeira e educação física. Aulas de educação física, mas com modalidades esportivas. Montamos turmas para treinamentos com o próprio professor de educação físico. Trabalhamos com uma turma de futebol de salão. A turma é treinada e orientada. Trabalhamos também com uma turma de vôlei mista e para este ano estamos montando uma turma de basquete. As próprias aulas de educação física despertam interesse pelos alunos. A escola tem 100% de freqüência, ao contrário de outras escolas, que nós notamos que os alunos pedem dispensa da disciplina. O professor de música é habilitado em música e o de artes, em artes plásticas. Nas aulas de artes os alunos podem participar das mais diversas modalidades artísticas. Temos aulas de artesanato, de escultura, de pintura, de plástica e as aulas de música. Esta escola é diferente das outras, talvez por estas atividades, que nós colocamos como extra-curriculares. A avaliação de 98 foi muitíssimo positiva, tivemos índice de evasão praticamente zero e um índice de promoção altíssimo. As crianças adquiriram um interesse maior pela escola. A criança estando aqui, ela participa mais. Se ela vem para uma aula de língua estrangeira, ela está aqui e já faz aula de Educação Física.
Às vezes, estamos arrumando o jardim da escola (que é cuidado pelos alunos e diretor), ela também ajuda a arrumar o jardim. Se está livre, está pesquisando na biblioteca. Ocupamos a criança durante o dia. Aqui é um verdadeiro entra e sai, porque temos aulas de manhã e à tarde para crianças de 1ª a 4ª séries, e no período da manhã, intermediário e vespertino, para as crianças de 5ª a 8ª séries. Aqui
é um verdadeiro entra e sai. Mas é muito importante, porque escola é vida. Escola sem criança não tem vida, não parece escola.
Jornal da Cidade: É importante a escola investir em disciplinas atraentes?
Jurandir Gonçalves: Extremamente importante. A criança tem que gostar da escola. E não só a criança, mas também a comunidade. Eu costumo ir à sala de aula todos os dias, nem que seja só para cumprimentar os alunos. Nossas reuniões de pais e mestres têm freqüência muito alta. E quando chamamos, para qualquer atividade que envolva os pais, eles estão presentes. A escola tem que ser atraente.
Jornal da Cidade: Você é um diretor diferente dos outros. Como é a experiência de ser um diretor fora do gabinete?
Jurandir Gonçalves: Tenho um pouco de sorte. Moro na comunidade e conheço todos os alunos pelo nome e faço questão de conhecê-los. A hora do recreio é sagrada para nós. Eu sempre passo com as crianças no pátio. Se eu não posso, a vice-diretora está lá. É um envolvimento muito grande. Muitos pais já foram meus alunos no início de minha carreira. Então há muita confiança no nosso trabalho. Todos nós nos dedicamos de corpo e alma para que a escola pareça uma escola.
Jornal da Cidade: A escola é sua vida?
Jurandir Gonçalves: Eu tenho a impressão que a escola é minha vida. Um dia, eu disse para a Delegada de Ensino que eu namorava a escola. Nós vimos construir, vimos crescer. Muitas crianças que entram aqui na 1ª série só saem daqui na 8ª, e mesmo assim saem tristes porque gostariam de continuar. A gente se dedica bastante. A escola é minha vida sim.