11 de março de 2026
Geral

Carta de Botucatu

Marcos Zibordi
| Tempo de leitura: 9 min

Botucatu pára e protesta contra a crise

Botucatu pára e protesta contra a crise

Texto: Marcos Zibordi

Movimento "Carta de Botucatu" realizou passeata e ato, ontem, com apoio do comércio, indústria e trabalhadores

Botucatu - O movimento "Carta de Botucatu" realizou ontem o primeiro ato público contra a crise econômica e paralisou o centro da cidade. O comércio e a indústria fecharam suas portas e os trabalhadores foram liberados do turno da tarde para a maior concentração popular de protesto que já ocorreu na cidade. Cerca de 2 mil pessoas estiveram presentes na passeata e na concentração em frente

à Praça do Bosque.

Este foi o primeiro ato público contra a política econômica e o modelo de desenvolvimento adotado pela administração

"tucana" no estado e no país. O "Carta de Botucatu" contou com o adesão de quase todas as entidades de classe na cidade, pedindo uma política de retomada da produção para geração de emprego e renda. Patrões e empregados se uniram gritando palavras de ordem do tipo "o povo quer agora emprego sem demora". Empresas como a Hidroplas dispensaram seus funcionários para o ato, além de levarem faixas de protesto contra a política de recessão do governo federal.

Os servidores da Unesp (setor administrativo) também foram dispensados do trabalho e estiveram presentes na passeata pedindo, por exemplo, o fim dos cortes na saúde que, no caso de Botucatu, se reflete diretamente na crise enfrentada pelo hospital Sorocabano, que faz campanha para arrecadar fundos.

Autoridades do executivo também participaram do protesto, com a presença do prefeito que discursou contra o crescente desemprego em Botucatu, que conta com uma população de 10 mil desempregados atualmente. Vereadores de são Manuel também estiveram presentes no ato.

O setor sindical foi representado pelo Sindicato dos Metalúrgicos e da Construção Civil. Segundo Joel Alves de Oliveira, 51 anos, presidente da Federação dos Trabalhadores da Construção e do Mobiliário do Estado de São Paulo (Feticon), o que o trouxe da capital para Botucatu foi a "chama" lançada pelo movimento "Carta de Botucatu". Oliveira: "Quando a sociedade toda se une e se faz representar num ato público como este, é sinal que alguma coisa está acontecendo. O povo está acordando, as autoridades e a comunidade está acordando para a situação dramática em que se encontra nosso país, a economia do nosso país, a quebradeira geral, o desemprego, e nós precisamos nos unir efetivamente para combater tudo isso". O número de postos de trabalho na construção civil teve uma das maiores quedas de sua história nos últimos anos de Real.

A "comissão de frente" da passeata que saiu da praça Paratodos por volta de 15 horas foi composta por deficientes físicos da Associação dos Deficientes Físicos de Botucatu (ADEFIB). Entre as várias entidades presentes, estiveram ainda a Apeoesp, o Partido dos Trabalhadores

(PT) local, entre outros.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), diretorias regional e estadual, prestaram apoio ao movimento (leia entrevista com o vice-presidente da Fiesp/Ciesp)

Números da crise em Botucatu

Segundo os organizadores do "Carta de Botucatu", a cidade não pode ficar passiva diante do atual quadro de crise econômica. Com uma população estimada em cerca de 120 mil pessoas (cerca de 60 mil eleitores), Botucatu é uma das cidades mais importantes do interior paulista, geradora de emprego e formadora de mão de obra especializada.

Num levantamento feito entre as 10 maiores indústrias de Botucatu, constatou-se que nesta década foram fechados 52% dos postos de emprego no setor. No começo de 90, as maiores indústrias da cidade empregavam cerca de 6 mil funcionários. No final de 98, o número era de pouco mais de 3 mil empregos.

No ano passado, o Comércio registrou uma média de 2 demissões por dia. No final do ano, quase 600 funcionários haviam sido demitidos no comércio.

Fala Povo

Leia algumas opiniões colhidas entre os participantes da passeata que parou o centro de Botucatu ontem à tarde.

"Isso representa a conscientização do pessoal do que está acontecendo na cidade. É claro que é importante".

Alexandra Cardoso, 25 anos, funcionária da Unesp.

"Acho importante, nesse momento de crise que o país está atravessando, o povo dar as mãos e se unir".

João Batista da Silva, 38 anos, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos

"Botucatu está provando para o Brasil e para o mundo que é capaz de levantar e mobilizar a população num movimento cívico, honesto de garra e de trabalho".

Lorival Leonardo, 52, funcionário da saúde

"Tem que mudar a estrutura do Brasil inteiro, principalmente no Planalto. Precisava cair o Fernando Henrique, derrubar ele".

Erotides Bueno Garcia, 70 anos, do lar.

"Esse desemprego vai causar danos para os moradores de Botucatu. A educação está decadente, saúde. Tem que ter uma iniciativa".

Cássia Priscila, 17 anos, estudante.

"É importante conscientizar as autoridades maiores, governadores e presidente, que façam algo pelo nosso país, principalmente contra o desemprego".

Maria de Fátima Longo, 45 anos, vereadora em Botucatu

(PPB).

"Eu estou sem trabalhar há três meses em Botucatu. Eu acho que é uma solução para as pessoas que estão sem trabalhar".

Vilma de Oliveira, 30 anos, metalúrgica desempregada.

"Em Botucatu está ocorrendo um momento histórico. O governo federal está prejudicando muito a universidade e os estudantes. Eu acredito que está mudando".

Joacas Pinheiro, 26 anos, eletricista desempregado há 3 meses.

Vice da Fiesp critica modelo e apóia "Carta"

Texto: Marcos Zibordi

Botucatu - A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) esteve representada na passeata de ontem em Botucatu pelo seu vice-presidente Nicolau Geha, 60 anos. Ele representa o atual posicionamento da Fiesp, nesta nova gestão com Horácio Lafer Piva, de "bater de frente" com o modelo de desenvolvimento adotado pelo Brasil. Há pouco tempo eleita, a nova diretoria da Fiesp vem mantendo uma postura crítica em relação ao governo, propondo novas fórmulas de enfrentar a crise, gerar emprego e desenvolver a indústria nacional.

Nesta entrevista com o vice-presidente ele fala da importância do movimento "Carta de Botucatu", dos problemas econômicos estaduais e federais e apresenta novas propostas ao modelo neo-liberal adotado sem restrições pelos atuais mandatários do país, que "nos jogou nos braços do FMI", segundo Geha.

Jornal da Cidade - O que traz a Fiesp à Botucatu?

Geha - A Fiesp dormiu muito tempo. Ela está sendo resgatada pela gestão do Horácio Piva. E ele já lançou claramente, no fim do ano passado, um pacto pela produção e pelo emprego. Esse acontecimento da "Carta de Botucatu" é um desdobramento natural do movimento que o Piva lançou. O que nós queremos? Um modelo econômico que privilegie o crescimento, o investimento, a produção, o emprego, saúde e educação, e não essa política econômica que nos jogou nos braços do FMI, que provocou recessão, desnacionalização, estouro da dívida pública e, lamentavelmente, esta situação vexatória que nós estamos passando, tendo que aceitar um acordo com o FMI cheio de condicionalidades que, na minha opinião, são contra os objetivos legítimos que o Brasil tem que buscar.

JC - E quais são os objetivos legítimos que o Brasil tem que buscar?

Geha - O Brasil tem que ter autonomia na sua política monetária, cambial, tem que ter direito de voltar a crescer, exercer sua vocação de crescer, e não ficar em recessão, e não ficar nesse cassino financeiro de especulação. Nós temos que criar condições políticas para que o governo federal entenda que o povo brasileiro quer uma mudança de política, quer uma mudança de modelo.

JC - Segundo a Fiesp, quais os pontos objetivos que devem ser mudados?

Geha - Nós temos que ter um projeto nacional de desenvolvimento econômico e social. O que adianta o vento favorável se você não sabe onde quer ir? O Brasil tem que ter um projeto que mostre para todos nós aonde nós queremos ir. Feito isso, nós temos que fazer políticas para que se chegue neste objetivo. A curto prazo, primeira coisa que nós temos que fazer é baixar esta taxa de juros. É impossível. Há 4 anos nós temos um juro altíssimo para defender o câmbio. Agora o câmbio foi para o espaço e nós temos que ter um juro altíssimo para evitar a inflação. Ora, alguma coisa deve estar errada. Eu acho que temos que baixar realmente este juro e ter políticas públicas, o Banco Central tem essa condição, para estabilizar este câmbio o mais rápido possível, porque se o câmbio continuar em 1,90 vai ser muito difícil a gente ter crescimento. Então, primeiro, estabilizar o câmbio, e isso pressupõe o Banco Central atuando, e não ficando inerte. Segundo lugar, baixar os juros já. Dentro de um contexto maior, de um projeto nacional de desenvolvimento econômico, passa pela reforma do Estado, pela reforma tributária que desonere a produção, por uma reforma política para que a gente não tenha essa vergonha de deputados trocando de partidos, de partidos que não tem ideologia nenhuma, por uma reforma previdenciária, por uma reforma administrativa e, principalmente, uma coesão da população brasileira em torno desse projeto, que significa crescimento econômico e emprego. Evidente que isso passa por uma atenção prioritária para a saúde e para a educação.

JC - O modelo do Brasil faz parte de um modelo maior que se reflete, por exemplo, na mudança das relações trabalhistas. Qual o posicionamento da Fiesp sobre as relações patrão-empregado?

Geha - Nessa questão das relações trabalhistas, eu acho que nós estamos sendo ainda dirigidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que

é um documento de 60 anos. Nós achamos que é preciso repensar isso, fazer uma discussão com a sociedade no sentido de flexibilizar as relações do trabalho, não para cortar direitos conseguidos, mas para que a gente possa ter uma legislação que permita ao trabalhador receber mais no seu bolso e a empresa não gastar tanto com encargos.

O modelo com os qual nós não concordamos é o modelo do Consenso de Washington, o chamado modelo neo-liberal, que propunha abertura total da economia, privatização total do estado, estado mínimo, e políticas monetárias de juros altos. Esse programa só beneficia os países centrais, que eles sim fazem protecionismo, e querem que a gente abra totalmente as economias dos países periféricos e que façamos esse tipo de receita do FMI. Nós não podemos concordar com isso porque o resultado está nas ruas.

JC - A gestão do Piva representa uma mudança histórica do posicionamento da Fiesp/Ciesp em relação ao governo e a política econômica?

Geha - Tem razão. A antiga gestão da Fiesp era uma gestão de adesão. A do Piva é uma gestão que pretende colocar, com independência ao governo, aquilo que nós achamos que é bom para o Brasil. Quando o governo acertar, nós vamos aplaudir. Quando o governo errar, nós vamos levar a nossa crítica construtiva, sempre com proposta.