08 de julho de 2026
Geral

Doação de sangue

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 6 min

Doação não depende de morte ou cirurgia

Doação não depende de morte ou cirurgia

Texto: Sabrina Magalhães

O doador tem que ter mais de 18 anos, mais de 55 kg, não ter história de doenças infecciosas, nem envolvimento com drogas ou promiscuidade

"A de sangue (e do leite materno) é a única doação que você pode efetivamente fazer em vida. É uma doação prazerosa, porque quando você pensa em doação, presume-se morte ou cirurgia (no caso do rim). Com o sangue não", observou a hematologista Telma Freitas. Ela salientou que, apesar de todas as tentativas de sintetizar este fluido, nenhum laboratório conseguiu desenvolver um sangue artificial eficiente. Segundo ela, existe um produto com a capacidade de carregar hemoglobinas, que pode ser usado em situações de emergência, mas ele não promove coagulação nem defesa, então o paciente deve receber uma transfusão com sangue verdadeiro o mais rápido possível, sendo o produto artificial apenas um paliativo.

Telma Freitas comentou que, em vários países, doar sangue é um ato cívico, uma quase obrigação das pessoas que têm saúde em ajudar os que não têm. "Porque hoje você está ali doando. Amanhã, você pode estar precisando do sangue de alguém."

Ela ressaltou que a grande dúvida das pessoas é quanto à segurança: "A doação não prevê risco nenhum para quem vai doar. Todo o material utilizado é descartável. Nós usamos uma bolsa e agulha que vêm em embalagem lacrada, esterilizada. Depois da coleta, a agulha e os condutores vão para o lixo, com total segurança e livre de possíveis contaminações. E não há prejuízo. Normalmente quem doa sangue não sente nada, além da picada. Uma pequena porcentagem das pessoas, geralmente as que têm medo e estão tensas, apresenta tontura, mas os funcionários são treinados para aliviar o mal estar em segundos, reclinando a cadeira. Nosso objetivo é que o doador saia do banco de sangue do jeito que entrou, sem qualquer prejuízo."

Perfil do doador

Para garantir a qualidade do sangue que vai ser injetado em outra pessoa, existem critérios muito rígidos para a doação. Os básicos são idade (a lei determina que só maiores de 18 anos podem doar) e peso (com menos de 55 kg a retirada do sangue pode causar mal estar).

Depois, o voluntário passa pela medição da pressão arterial, que não pode apresentar alterações, mede a temperatura e faz o hematóquito, um exame rápido

(teste da espetadinha no dedo), que vai verificar se a quantidade de glóbulos vermelhos presente no sangue permite a coleta sem causar prejuízo ao doador.

"Se uma pessoa chega dizendo que perdeu 25 kg nos últimos meses, nós vamos excluí-la, porque ela precisa do sangue para suprir o que foi perdido, até que haja uma readaptação completa do organismo. Outras vezes recebemos pacientes recém-operados. Também aconselhamos que eles vençam totalmente o pós-operatório, se recuperem, para só então doar. Outro caso comum de exclusão é a mulher que perdeu muito sangue no período menstrual. Nós recomendamos que ela aguarde uma reposição adequada de hematófilos."

Entrevista

Depois dos exames preliminares, o candidato passa por uma entrevista individual, quando será questionado sobre sua conduta sexual, hábitos de risco, como uso de drogas, tatuagem, piercing

(com agulhas não descartáveis), cirurgias anteriores, história de doenças infecciosas.

A grande preocupação dos hematologistas, durante a entrevista, diz respeito à chamada janela imunológica: quando uma pessoa é infectada por uma moléstia qualquer, há um período variável em que o vírus não aparece em exames, porém, a pessoa já está transmitindo a doença.

"Então, por exemplo, a pessoa que manteve relação sexual extra-conjugal há duas semanas, pode ter contraído uma doença e esta só vai ser diagnosticada por exames daqui a 40 dias. Nesse período, se o sangue dela for doado a alguém, a doença vai estar sendo transmitida para um inocente. No momento da entrevista, portanto, a sinceridade do doador é fundamental para garantir a saúde do outro." Segundo a médica, nesta etapa do processo são excluídos cerca de 15% dos voluntários

à doação.

Auto-exclusão

"Nós temos um último recurso, que chamamos de voto de auto-exclusão, que é a última chance da pessoa admitir que não está certa sobre a qualidade do seu sangue. Depois de todo o procedimento normal, a pessoa recebe uma folha, onde vai anotado apenas seu número de identificação. Ali, há um texto explicando que se ela omitiu alguma informação por qualquer motivo, vergonha ou medo, ela tem uma chance de, anonimamente, se excluir da doação. Porque muita gente vai doar empurrado por um familiar ou amigo e acaba doando, mesmo consciente de que não deveria."

Telma Freitas explicou que na folha de auto-exclusão há duas alternativas: "Meu sangue pode ser doado" e "Meu sangue NÃO deve ser doado, apenas usado para a realização de exames". A pessoa assinala a sua opção e deposita a folha numa urna, sem que ninguém veja sua escolha. Então, ela entra na sala destinada para a coleta e o procedimento de retirada do sangue é feito, normalmente. Na hora de processar o sangue, cada bolsa, identificada por um número,

é anexada à folha correspondente da auto-exclusão. Se o doador optou por não doar, o sangue é devidamente examinado e desprezado, mesmo que os resultados não apontem qualquer problema.

Sorologia

No momento da coleta de sangue, são retiradas pequenas quantidades extras, colocadas em dois pequenos tubos, destinados aos exames de sorologia. São investigadas a presença de hepatite B, hepatite C, Doença de Chagas, sífilis, HIV, um vírus pouco conhecido, o HTLV, além da tipagem, fator Rh e pesquisa de anticorpos irregulares (aqueles que não agem no organismo do doador, mas podem se manifestar em outro organismo).

"São feitos cerca de 10 testes, que acabam excluindo outros 20% dos doadores. Três dias depois os resultados estão à disposição dos candidatos. Se encontrarmos algum resultado positivo para doenças, enviamos um comunicado à casa do doador, convidando-o a voltar ao Banco, onde será orientado a respeito dos melhores procedimentos para recuperar a sua saúde."

Cada doador pode beneficiar quatro pacientes

De acordo com a hemoterapeuta Telma Freitas, após a doação o sangue é processado e separado em quatro componentes: os glóbulos vermelhos, o crioprecipitado, as plaquetas e o plasma. Cada um deles é armazenado de uma forma e tem um tempo de "validade" específico. O concentrado de hemáceas (sangue, propriamente dito), dura até 30 dias. As plaquetas duram entre 3 e 5 dias. Já o plasma

é considerado fresco durante um ano, e pode continuar estocado por mais cinco anos, servindo para tratar, por exemplo, queimaduras.

Neste sentido, os glóbulos vermelhos são usados em pessoas anêmicas. O crioprecipitado é administrado aos hemofílicos. As plaquetas são úteis para pacientes com problemas de coagulação. E o plasma

é usado quando o objetivo é aumentar o volume do sangue, neste caso sempre em conjunto com outro componente.

"Dependendo do problema, nós combinados dois, três ou até os quatro elementos, mas pode acontecer do paciente só receber um deles, de forma que o ato de doação de alguém estaria propiciando quatro outras vidas."

Serviço

O Banco de Sangue do Hospital de Base de Bauru realiza as coletas de segunda a sexta, das 7h30 às 10h30. O doador só precisa apresentar um documento de identidade e ter tomado um café da manhã leve, preferencialmente sem alimentos gordurosos.