"Loucura com amor se cura" vai à rua
"Loucura com amor se cura" vai à rua
Texto: Erika de Lima
Quem pensou que não haveria nenhum desfile de Carnaval em Bauru se enganou. O bloco Loucura com Amor se Cura, do Hospital Psiquiátrico da Sociedade Beneficente Cristã (SBC)
"Paiva", com 120 pacientes e mais 50 profissionais, desfilou ontem, juntamente com a escola Estrela do Samba, de Tibiriçá, no final fa tarde de ontem.
O bloco Loucura com Amor se Cura faz parte do programa de Reabilitação Psico Social da SBC, criado em 1996. O objetivo de criar um bloco de Carnaval foi a integração e interação dos pacientes internos do hospital à sociedade. Além disso, foi a melhor forma encontrada para conscientizar a população de que a doença mental ou a física é como outra qualquer, segundo o psicólogo e presidente do bloco, Dorival Vieira.
Vieira afirma que este desfile é um movimento histórico. Na rua, 120 pacientes desfularam, o que foi feito dentro de uma atitude consciente de médicos e equipe técnica.
A intérprete Mel, enfermeira do Hospital Psiquiátrico, cantou o samba-enredo "Brazzzil 500 anos" escrito por Dorival Vieira e Paulinho da Cuíca. A letra do samba "fala do Brasil e seus 500 anos de enganação com seus governos", diz um dos autores. O primeiro samba-enredo foi feito pelo paciente Bonga, do Hospital Psiquiátrico da SBC.
Segundo Vieira, neste ano 20 pacientes resgataram, mesmo de forma singular, a cidadania "que é aniquilada pela proposta manicomial arcaica e ineficiente".
O bloco tem participação de pessoas portadoras de deficiência mental ou física que já participaram de outros desfiles e ganharam o Tamborim de Prata por terem ficado em segundo lugar na categoria de originalidade, em 1996.
Para a realização do desfile, foi necessária a cooperação de vários artistas, profissionais ligados à área de saúde e do Sindicato dos Bancários, que cedeu o caminhão de som aos foliões.
Entre os 50 profissionais que desfilaram estavam artistas plásticos, psicólogos e médicos. "A produção cultural foi feita com a colaboração desses profissionais, que emprestaram fantasias e permitiram que o desfile acontecesse sem que precisássemos depender de entidades ou órgãos", ressalta o psicólogo.
Estrela do Samba
O desfile do bloco "Loucura dom amor de cura" foi engrossado pela escola Estrela do Samba, de Tibiriçá. A história da escola começou há exatos dez anos, quando a agremiação ainda era somente um bloco e tinha outro nome, Vai Quem Qué.
Antes do Carnaval de 1989, um grupo de funcionários de uma serraria de Tibiriçá se reuniu, convidou os amigos e, juntos, todos organizaram um desfile que aconteceu no sábado de Carnaval daquele ano. Até então, Tibiriçá não dispunha de nenhuma agremiação carnavalesca e tampouco de desfiles de rua. A apresentação aconteceu na rua Major Joaquim Rodrigues Fraga (que, à
época, ainda nem tinha asfalto) e marcou o início de uma tradição: desde aquele ano, o desfile da escola acontece em todos os Carnavais, geralmente aos sábados.
Em dez anos, a agremiação cresceu e o número de componentes, também. Do primeiro desfile, participaram cerca de 80 pessoas. Hoje, a escola já tem 112 integrantes, distribuídos em três alas e a bateria - esta, com aproximadamente 20 integrantes.
Desde o Carnaval de 1993, a Estrela do Samba desfila em Bauru, competindo como bloco, na categoria Originalidade. Essa é a categoria em que competem os blocos com menor estrutura, enquanto na categoria Especial disputam aqueles mais estruturados.
Em Bauru, a Estrela do Samba já conquistou, inclusive, alguns prêmios como destaque na categoria em que se apresenta
- entre eles, em 1997, o Tamborim de Prata, prêmio oferecido pela rádio Auriverde.