Rosso denuncia compra de voto em Agudos
Vereador denuncia 'caixinha' em Agudos
Texto: Tania Fonseca
Rosso surpreende ao denunciar um esquema de compra de voto para eleição da presidência da Câmara, do qual próprio ele fazia parte
Agudos - Por um período de ano e cinco meses, um grupo de nove vereadores de Agudos participou de um esquema de
'caixinha' para manter na presidência da Câmara, os candidatos previamente escolhidos. A afirmação é do vereador Evandro Rosso (PSB) que fez a denúncia na última sessão da Câmara, na semana passada. Ele fez a afirmação e diz que ele próprio fazia parte do esquema. "Quando descobri que isso é ilegal, resolvi parar", diz o vereador acrescentando que além de ilegal, o esquema era imoral. Todos os vereadores entrevistados pelo JC negaram as acusações de Rosso e disseram desconhecer tal esquema de compra de voto. Apesar de desconhecer o assunto, o atual presidente da Câmara, José Aparecido Dantas
(PTB) disse que já encaminhou as denúncias para o Ministério Público analisar.
De acordo com Evandro Rosso, logo após as aleições realizadas em outubro de 1996, houve uma reunião na casa do vereador Lauro Antônio (PSD), onde estavam presentes os vereadores José Aparecido Dantas (PTB), Lauro Antônio
(PSD), José Otaviano Delazari (PMDB), o pastor Manoel Messias
(PPB), José Aparecido de Oliveira, o Ico (PDT), Vilma de Albuquerque (PSDB), Tarciso Hellinger (PTB), Evandro Rosso (PSB), José Aparecido dos Santos, o Zé Mensageiro (PT) e Michel Neme (já falecido). Ainda de acordo com Rosso, dessa mesma reunião teriam participado os candidatos Nélson Ayub e Carlos Octaviani que haviam acabado de perder a eleição para Afonso Condi.
Rosso disse que nesse encontro, foram pré-escolhidos os nomes dos quatro vereadores que ocupariam a presidência da Câmara pelos quatro anos seguintes. Teria ficado definido então, segundo Rosso, que os vereadores que seriam os próximos presidentes do Legislativo seriam, pela ordem, José Otaviano Delazari, Evandro Rosso, Aparecido Dantas e Vilma de Albuquerque.
Independente da denúncia de Rosso ser procedente ou não, a sucessão na presidência da Câmara, nos três primeiros anos, bateu com a suposta lista.
Rosso afirma ainda que na mesma reunião, ficou definido que, como eles eram maioria (são 15 vereadores em Agudos), o acordo não poderia falhar e que a verba de representação recebida pelo presidente da Câmara , em torno de R$ 2,7 mil seria dividida entre os vereadores participantes do esquema. Isso daria uma média de R$ 200,00 mensais para cada um dos vereadores participantes do acordo o que, segundo Rosso, se configurou a compra de votos pelo presidente da Câmara. Dessa forma, a eleição para decidir quem ficaria com a presidência seria apenas simbólica e para cumprir a legislação. Em Agudos, a lei prevê que o presidente da Câmara seja eleito para dois anos. Mas por conta de um acordo entre os próprios vereadores, a cada fim de ano, o presidente renuncia e o vice asssume. Assim, são quatro presidentes ao longo dos quatro anos.
O único vereador que estava presente na reunião e que segundo Evandro Rosso, não topou participar do esquema de 'caixinha' foi o Zé Mensageiro. "Ele disse que não achava certo e não participou mesmo".
O primeiro vereador a assumir a presidência da Câmara, em 1997, foi José Otaviano. Rosso afirma que "ele assumiu e pagou pelos votos, como havia sido combinado durante o ano todo. Eu mesmo recebi todos os meses".
No fim do ano de 1997, José Otaviano renunciou à presidência como havia sido combinado, para Evandro Rosso assumir. "Eu assumi paguei durante cinco meses. Aí pensei: não vou pagar mais porque está errado isso aí. Eles me cobraram direto". Rosso disse que consultou o departamento jurídico da Câmara, contou o que estava acontecendo e foi orientado a parar de pagar, já que o acordo era ilegal. Ainda de acordo com Rosso, o pagamento sempre foi feito em dinheiro, nunca em cheque.
Rosso disse que depois que ele mesmo quebrou do acordo, não sabe como ficou o relacionamentto entre os demias vereadores.
"Eu parei de pagar. O Dantas não me pagou nada. Não sei se o acordo continua entre eles".
Definição
Segundo Evandro Rosso, na reunião realizada na casa do vereador Lauro Antônio, a definição sobre quem seriam os quatro presidentes foi rápida e sem muita demora. "Não foi nem pelos duzentão. Eu queria ser presidente. Todo mundo quer ser presidente. Ninguém quer saber de abrir mão. Foi onde que se propôs ver os quatro que queriam ser presidente e rachar a verba de representação. Aí começou: o Michel não queria, o Ico não queria. Então ficou: o Otaviano primeiro, eu o segundo, o Dantas terceiro e a Vilma a quarta".
Assumindo a culpa
O vereador Evando Rosso disse que assume sua parcela de culpa nesse esquema, já que entrou no acordo, recebeu e pagou, mas gostaria que os demais também assumissem as responsabilidades.
Essa denúncia veio à tona justamente no momento em que há uma outra denúncia de tentativa de compra de voto sendo investigada na Câmara Municipal de Agudos. Esta, envolvendo vereadores que, não teriam feito parte do suposto grupo dos nove. A denúncia, que já está sendo investigada por uma Comissão Processante de Inquérito
(CEI), no caso, recai sobre o vereador Régis Pauletti (PSD) que teria tentado comprar o voto de um outro vereador, tendo como intermediário, o vereador João Carlos da Silva (PSDB), o João Tatu.
"Acordo apenas falado"
O presidente da Câmara, Aparecido Dantas disse que de fato, após as eleições de 1996 houve uma reunião na casa do vereador Lauro Antônio, da qual ele foi um dos participantes, e onde discutiu-se candidaturas. "Lá ficou assim, falado: você quer... eu não quero...ah, não quero...então eu quero... O José Otaviano falou, se puder ser no primeiro ano eu agradeço. Aí o Evandro falou também que queria...Eu queria. A Vilma também pleiteou".
De acordo com Dantas a reunião serviu para montar uma bancada,
"de quem seriam os presidentes e tal, mas nada de compromisso. Não tinha aquela obrigação de votar. Então, foi assim que ficou acertado. Agora, eu não sei o porquê do Evandro fazer essa denúncia. Não sei se ele está querendo tumultuar..."
Na última eleição para escolha do presidente da Câmara, Dantas foi eleito com nove votos para presidir a Câmara pelos próximos dois anos. A vice dele é a vereadora Vilma de Albuquerque. Mas Dantas disse que ainda não sabe se no final do ano vai renunciar para que a vereadora assuma.
Dantas diante das graves denúncias feitas por Evandro Rosso, já encaminhou o assunto para o Ministério Público. Ele considera que Rosso tenha feito falsa denúncia.
Desconhecendo o assunto
Para o vereador José Aparecido de Oliveira, o Ico, a denúncia de Evandro Rosso surge apenas com o objetivo de tumultuar a CEI já instalada para investigar a susposta tentativa de compra de votos por parte do vereador Régis Pauletti. Sobre a reunião na casa do vereador Lauro Antônio, Ico diz que é normal, após eleições, esses encontros para se discutir posições.
Outro vereador que disse desconhecer o tal esquema denunciado por Rosso é Lauro Antônio. "Não sei nem do que ele está falando", declarou.
A opinião é reforçada pelo vereador José Otaviano Delazari que foi o primeiro presidente da Câmara nesta legislatura. Além de negar que durante todo o ano de 1997 tenha dividido sua verba de represetnação, ele diz que desconhece tal acordo.