Mulheres invandem os redutos masculinos
Mulheres invadem os redutos masculinos
Texto: Ana Maria Ferreira
"Sexo frágil não foge à luta..."
, a música de Rita Lee nunca foi tão atual como nesta década, marcada pelo avanço das mulheres em
áreas antes tidas como exclusivas dos homens. Não existem números oficiais para comprovar a mudança de comportamento das mulheres brasileiras, mesmo porque o tema ainda não provocou estudos mais profundos por parte de entidades especializadas em medir as mudanças da sociedade.
A mídia já percebeu a importância do avanço das mulheres no mercado de trabalho, ocupando posições de chefia e liderança ou exercendo profissões muito
"masculinas" - num pensamento antiquado para nossos dias - como piloto de Boeing e helicóptero, soldado de tropa de choque da polícia militar, eletricista, mecânico entre outras. As mulheres exercem papel definitivo na compra de um carro para a família, porque elas acabaram se tornando as "motoristas oficiais" da casa, e não se intimidam na hora da escolha de produtos masculinos que caíram no gosto feminino. Roupas e perfumes
Os perfumes e a moda são o carro-chefe desta tendência. Muitas mulheres se tornaram adeptas dos cheiros masculinos porque são menos adocicados e combinam, ao mesmo tempo, com uma personalidade mais agressiva e sensual. Um exemplo de fã de perfumes masculinos é a jornalista Sarah Francisco, 30, "desde que me conheço por gente compro perfumes masculinos. Quando chego na loja vou direto à prateleira dos perfumes para homens e nem me interesso pelos lançamentos femininos. Acho isso super normal, mesmo porque os femininos são mais doces e fortes, o aroma se parece com uma mistura de flor e mel. Ah! Também uso gravatas, mas só no inverno."
No campo da moda o que se tornou um hit entre as adolescentes
é o Street Wear ou moda de rua, que até pouco tempo era roupa de menino. O produtor de moda Miguel Daré salienta que hoje as meninas usam todo o conjunto de roupas e acessórios.
"Calças big, tênis com solado alto, camisetas muito largas e cuecas, este é o conceito básico da Street Wear que a mulherada adotou. Os grandes estilistas e as griffes estão investindo nesta tendência. Para um público mais maduro o terno, mas terno mesmo com lapela e botões, tornou-se um clássico da moda feminina. Os ajustes da mais tradicional roupa do homem ficam por conta de um corte levemente adaptado ao corpo da mulher. O terno foi a alta do inverno passado."
O frison do consumo feminino ganhou destaque na mídia depois do lançamento da G Magazine , revista direcionada ao público gay mas que tem agradado em cheio as mulheres por trazer ensaios fotográficos com homens nus. O número mais recente traz o jogador de futebol Vampeta na capa e este é um dos assuntos mais comentados nas rodinhas de homens e de mulheres, não só pelo fato de um atleta, de um dos esportes mais "machos" do País, aparecer sem roupa para quem quiser pagar para ver, maìs ainda pelo súbito e notório interesse das mulheres pela revista. Foi uma estratégia perfeita, acertou dois coelhos com uma pedra só. Atingiu dois públicos distintos e lançou o nome da novata G Magazine (Ed. Fractual) num mercado altamente competitivo e o responsável por todo esse sucesso: uma mulher, a jornalista Ana Fadigas.
A Banca 24 Horas, instalada há 5 meses na avenida Getúlio Vargas, teve aumento de 30% nas vendas de revistas direcionadas ao público masculino só que compradas por mulheres. Segundo Rodrigo Queiróz, gerente da banca em pouco tempo foi notado esse aumento nas vendas e ele acredita que este número vai crescer mais. "As mulheres não ficam nem um pouco constrangidas em levar uma revista erótica, de futebol, esportes radicais", afirma. A própria funcionária da banca Daniele Ventura, 17, compra revista masculina como a Placar(futebol), por exemplo.
De perfumes a carros esportivos, de donas-de-casa a diretoras de grandes corporações, não existem mais barreiras intransponíveis para o "exercito de saias"
, e até a saia já não é um ícone da feminilidade.
Macacão, botas e batom
A mulher até de macacão e botas não perde o charme e encanto. Hoje não se pode mais estranhar a presença feminina em lugares onde, até bem pouco tempo, ninguém sonhava em ver uma mulher, como numa oficina de manutenção elétrica de uma usina hidroelétrica, por exemplo. Mas que existe, existe. Ludmila Gomes Junqueira Moraes, 17, formada pelo Senai, ainda não exerce a função de eletricista, pois passa por um período de transição entre o contrato de Menor Aprendiz - convênio entre Senai/Cesp
- e a efetivação como eletricista. Tudo amparado na legislação referente a trabalhos para menores em área de risco, mas vai desempenhar a função logo que completar 18 anos. Isso não impede que ela receba todo o treinamento prático da empresa - Cesp-Companhia Energética de São Paulo - e coloque a "mão na massa" dentro da oficina. "O interesse pela área surgiu devido ao trabalho do meu pai, já aposentado nesta mesma área, e a admiração que sempre senti por ele. Lembro que perguntava a ele: '- Pai como é que eu posso ser igual a você?' E aqui estou, super satisfeita depois de ter cursado dois anos de elétrica e fazer um ano de estágio. Mesmo nas férias eu acompanhava o trabalho na oficina. Durante o curso haviam pouquíssimas meninas, acho que cerca de 8 na escola toda. Mas isso não muda muita coisa. Eu me considero super vaidosa e quando as pessoas ficam sabendo que sou eletricista, não acreditam. Adoro usar saia, batom, perfume, arrumar o cabelo, fazer a unha, enfim tudo que qualquer mulher gosta. Quem me vê aqui dentro se surpreende quando me encontra em outro lugar e vice-versa. Fica até engraçada a reação das pessoas."
Ludmila é a única mulher a desempenhar a função de eletricista dentro da empresa. Segundo o setor de Recursos Humanos da Cesp, está em processo final a contratação de uma mecânica, no mesmo esquema de Menor Aprendiz; e existe outra mulher exercendo a função de Operadora de Subestação - operar usinas, subestações, painéis gerais de controle entre outros, em Mogi das Cruzes
(SP) .
O que mais chama a atenção nisso tudo é que dentro de um universo monopolizado pelos homens o que se espera
é uma certa dose de hostilidade para com as mulheres "invasoras". Mas a realidade é bem diferente. Ludmila afirma que tudo
é muito tranqüilo e que percebe um cuidado especial de todos com ela. "Eles evitam usar palavrões quando estou por perto e tenho muito incentivo e respeito dos colegas que sempre procuram me ajudar e ensinar detalhes de um equipamento, por exemplo." Ela acrescenta que seu objetivo futuro é cursar engenharia elétrica e permanecer na área. Curto-circuito
O Senai, conhecida escola técnica profissionalizante, tem quase a totalidade de alunos homens, mas assim como Ludmila Moraes outras mulheres também têm vislumbrado possibilidades de especialização profissional nos cursos oferecidos pela escola.
A desenhista Márcia Gomes da Silva, 36, se interessou em fazer o curso de "manutenção elétrica", para a partir daí não só desenhar e sim projetar instalações elétricas industriais. "Senti a necessidade de saber mais sobre o assunto porque no meu dia-a-dia queria melhorar dentro da empresa, conhecer mais profundamente a área na qual já atuava, apesar de morrer de medo de mexer com instalação elétrica (risos). Tive uma experiência hilária quando provoquei um curto-circuito. Com o 'estouro' causado pelo curto dei um grito de susto e imaginem as conseqüências. A sala parou para rir porque é muito comum acontecer curto, mas ninguém grita!" Márcia conta que no primeiro dia de aula se sentiu "um peixe fora d'água" porque na sala de aula tinham 23 homens. "A escola toda é um reduto masculino. Faz pouco tempo que existe banheiro feminino (com exceção da administração). Quando cursei o Senai, em 1997,
éramos em 7 alunas na escola toda. Tive um impacto inicial quando cheguei. Olhei dos lados e só vi homens. Mas isso só durou um minuto. Depois você entende que é uma escola como outra qualquer. Acho que foi uma quebra de tabu de ambos os lados, meu e deles. Tive a atenção e incentivo de todos. Recebi mil dicas."
Evolução da participação feminina
Na política, desde 1995, uma lei reservou 20% das vagas nas chapas de cada partido para mulheres e comparando a trajetória feminina desde a década de 30, quando o País teve apenas duas deputadas federais e uma suplente de senadora tudo mudou. Nas eleições de 1994, a Câmara dos Deputados passou a contar com 6,8% de mulheres e o Senado com 6,2%. O número de vereadoras eleitas no Brasil dobrou de uma eleição para outra.
As mulheres vestiram a toga prá valer. Metade do corpo de advogados do País é formado por doutoras e 25% do quadro de juizes também está nas delicadas mãos femininas.
Farda já não excluí as mulheres, dos estudantes que alcançaram o título máximo de aluno-coronel em 1997, nos doze colégios militares do Brasil, 80% são de garotas.
Pilotando aviões, até um ano atrás, eram 8 mulheres na aviação civil.
Na área de pesquisa científica quase metade dos bolsistas do CNPq é de mulheres
Fonte: Revista Veja, edição de 25/08/98 e relatório sobre Desenvolvimento Humano no Brasil-1996