11 de março de 2026
Geral

Campanha da fraternidade

Redação
| Tempo de leitura: 5 min

Bispo culpa governo pela atual crise

Bispo culpa governo pela atual crise

A Campanha da Fraternidade deste ano, que tem o desemprego como tema, foi lançada oficialmente, ontem, em Bauru, pelo bispo Dom Aluysio Leal Penna. Exigindo uma solução para a crise, o documento aponta os governos e o "capitalismo sem freios" como responsáveis pelo desemprego mundial.

Leia a seguir a entrevista que o bispo da diocese de Bauru, responsável por 14 cidades da região concedeu ontem ao Jornal da Cidade.

JC - O lançamento da campanha coincide com a crise econômica, existe relação entre o posicionamento da Igreja Católica e momento do País?

Dom Aluysio Leal Penna - Claro, claro, mas é preciso lembrar que estas campanhas são organizadas, previstas dois anos antes. Quer dizer que não foi agora imediatamente que começou a ser estudado.

Uma campanha tem uma longa caminhada, primeiro se consulta as bases e depois então começa a confecção de campanhas de cartazes, de canções, as músicas que cantam nas missas e depois o chamado texto base, que é uma análise da situação com três pontos principais.

JC - Quais são os pontos?

Dom Aluysio - Primeiro ver a realidade, depois julgar à luz da Bíblia, à luz dos documentos, da Declaração dos Direitos Humanos e da legislação brasileira e depois a terceira parte, que dão pistas de ação, mas deixando para que cada comunidade, porque a problemática

é diferente naturalmente em cada lugar, determine melhor essas ações.

JC - Como é feita a preparação para a campanha?

Dom Aluysio - Estas campanhas já existem desde 1964 e existe uma preparação de todos os encarregados diocesanos, com três dias de estudos em Itaici, onde os bispos também se reúnem, depois existem os encontros na dioceses, nos já fizemos aqui também, com agentes de todas as paróquias e depois as paróquias operacionalizam a campanha. Tudo isso já foi feito, agora durante este período da quaresma nós trabalhamos intensamente com este tema. E este tema depois continua durante o o ano.

JC - Um dos pontos da campanha é pedir solidariedade dos católicos e de toda sociedade para o problema. Como o senhor vê este ponto?

Dom Aluysio - Uma coisa é a situação do desemprego, no contexto econômico, social Outra coisa

é a situação concreta dos trabalhadores desempregados, que não tem condição naturalmente de pagar habitação, de dar boa alimentação para os filhos, etc. O emprego, como o Papa disse, é a chave da questão social. Uma pessoa desempregada não tem condição de ter os mínimos recursos para a sobrevivência própria e dos filhos. É um problema gravíssimo.

JC - Como o senhor vê a questão do desemprego em Bauru e na região?

Dom Aluysio - O problema na região de Bauru é menor que em outras região do País, isso é um dado que nós temos e que devemos ficar satisfeitos com isso. Mas, mesmo assim, temos uma situação muito aflitiva, muito triste. Basta ver a questão dos camelôs, que é quem procura honestamente ganhar o dinheiro que ele não pôde no emprego. Ele não recorre nem ao roubo, nem ao crime, como infelizmente alguns recorrem, mas ele recorre à economia alternativa. E depois essa situação de desemprego provoca o maior número de mendigos e pessoas que aceitam qualquer trabalho por qualquer preço.

Eu acho que o desemprego atinge principamente a dignidade da pessoa humana, a pessoa desempregada entra em uma crise psicológica muito forte, atinge a auto-estima. O desemprego provoca consequências muitos graves, não só na parte econômica, mas na parte moral também.

JC - O que o senhor vai procurar transmitir para os católicos sobre este tema?

Dom Aluysio - Primeiro que aqueles que estão empregados compreendam a situação do desempregado. Eu acho que quem está empregado não avalia a situação de um pai de família que está desempregado.

Em Bauru não há muitas grandes indústrias. As grandes indústrias estão cada vez mais se modernizando, se atualizando e dispensando empregados.

Por outro lado, é triste nós pensarmos, por exemplo, que na coleta de cana uma máquina substitui 80 pessoas. Centenas e talvez milhares de pessoas vão perder o emprego devido à mecanização na colheita de cana, que até pouco tempo era uma grande criadora de emprego na nossa região.

Então, quem puder dar alguma condição de emprego, qualquer que seja, que dê. Agora quem não puder, que seja solidário com aqueles que estão desempregados, que tenham maior abertura para ajudar as famílias que passam pela situação de desemprego.

E a campanha da fraternidade visa, principalmente, conscientizar a população a exigir do governo. O governo é o grande responsável pela situação política e econômica da Nação.

As campanhas provocam um movimento de opinião pública muito fortes, como houve na questão do menor, do encarcerado. Nós vamos trabalhar nesse sentido para que todos estejam conscientes da situação muito aflitiva dos desempregados.

JC - A Igreja vai conduzir algum projeto para ajudar a combater o desemprego.

Dom Aluysio - Aqui em Bauru nós temos um programa chamado COT (Centro de Orientação para o Trabalho), que dá condições de carteira, fotografia, recebe pedidos de empresas e encaminha pessoas que procuram o projeto.

A cada ano a parte que compete à Diocese na campanha da fraternidade a gente vem destinando para este centro. E este ano mais ainda a gente vai buscar orientar tudo para gerar empregos e facilitar os meios para as pessoas se empregarem.

O COT está ligado à uma associação internacional da Igreja que é a Caritas. Eu estou vindo da Alemanha agora e tive uma surpresa lá. A Caritas na Alemanha é a segunda empregadora depois do governo. Tem mais de 480 mil empregados e todos realizando obras beneficentes.

Serviço

Quem quiser entrar em contato com o COT. O endereço é rua Azarias Leite, 9-80. Telefone: (014) 223-7766.