02 de janeiro de 2026
Geral

Projeto de reabilitação

Ana Maria Ferreira
| Tempo de leitura: 5 min

Carnaval ajuda a curar doença mental

Carnaval ajuda a curar doença mental

Texto: Ana Maria Ferreira

Pelo quarto ano consecutivo o Carnaval de rua de Bauru contou com a participação especial do bloco "Loucura com amor se cura" , formado pelos pacientes e funcionários do Hospital Psiquiátrico da Sociedade Beneficente Cristã (SBC) , mais conhecido por 'Hospital do Paiva'. O bloco, este ano, desfilou pelas ruas do bairro Bela Vista, com 170 integrantes levando a alegria e a emoção para fora dos muros.

O bloco 'Loucura com amor se cura' faz parte do programa de Reabilitação Psicossocial da entidade e tem como um dos objetivos principais resgatar a cidadania do doente mental na sociedade. O psicólogo e terapeuta Dorival Vieira, 40, presidente do bloco, considera o movimento histórico para a cidade. Na opinião do psicólogo esta foi uma das alternativas encontradas para que a sociedade e as próprias famílias dos internos promovessem um resgate da relação sociedade-doente mental. "Dentro do hospital uma parte dos pacientes foi abandonada pela família e uma outra parte mantém o vínculo familiar. Desfilar pelas ruas no Carnaval significa estabelecer uma interação/integração com a comunidade. Pudemos observar familiares dos pacientes acompanhando o desfile e se emocionando com ele. Para se ter uma idéia, alguns pacientes nunca haviam deixado o hospital antes."

O início do projeto do bloco carnavalesco foi marcado pela dificuldade de aceitação dos médicos, que viam risco nessa iniciativa de colocar o "bloco na rua"

, literalmente. A resistência perdeu força pelo trabalho dos profissionais do hospital e dos colaboradores que vislumbraram nisso uma oportunidade para aprimorar o trabalho que já vinha sendo realizado com os internos. Uma oportunidade de mostrar

à sociedade que eles existem e que podem ter uma vida normal.

Hoje, passados três anos, a diretoria do hospital é parte integrante do bloco e dos 120 pacientes participantes, cerca de 20 deles são veteranos de Carnaval, saindo todos os anos.

Vieira comenta que "a doença mental é como outra doença qualquer e é isso que as pessoas precisam entender, porque o doente bem tratado

é capaz de tomar conta da sua própria vida: trabalhar normalmente e, até porque não dizer, ter a sua própria empresa." Um paciente esquizofrênico, por exemplo, pode viver fora de um hospital psiquiátrico, trabalhar, conviver socialmente sem nem "risco". Havendo continuidade do trabalho de acompanhamento médico, do uso dos medicamentos indicados, o paciente adquire condições de ele próprio detectar um surto e buscar ajuda terapêutica, auxiliando no tratamento.

O trabalho terapêutico em conjunto com o acompanhamento médico tem obtido resultados animadores que reforçam o projeto da extinção dos manicômios.

"A idéia é transformar os hospitais psiquiátricos em hospitais dia, onde o paciente recebe todo o acompanhamento de que precisam, mas sem a necessidade de permanecer internado", explica Dorival. Essa luta pela extinção dos manicômios, na forma como são hoje, implica num processo educativo muito forte do resgate da cidadania destas pessoas. Elas tem o direito de voltar a conviver com a sociedade. "A gente vai conseguir mudar a sociedade com educação. Essa luta

é em benefício de toda a comunidade. É um processo lento mas inevitável para a sociedade", conclui Vieira.

Pinel

Vieira conta a história da transformação na forma de tratamento do doente mental, utilizando o trabalho do médico francês Dr. Pinel - no século passado

- que mudou sua visão sobre a doença mental depois de observar o tratamento de um jovem selvagem pelo médico Dr. Itard. De acordo com a literatura o jovem selvagem foi trazido ao convívio social já adolescente e não conseguia estabelecer nenhum tipo de contato social com as outras pessoas. O Dr. Itard que trabalhava com surdos-mudos percebeu que o que faltava ao jovem era a não-experiência, depois de testar as reações dele e concluir que independentemente da condição mental de uma pessoa, ela têm sentimentos. Esta descoberta possibilitou a humanização dos manicômios franceses, pois até então os doentes eram mantidos aprisionados com correntes e pesos de metal atados aos pés.

"Na Inquisição os doentes mentais e físicos, assim como os místicos, foram queimados nas fogueiras", diz Vieira.

República

O Hospital Psiquiátrico da SBC realiza uma experiência interessante mantendo três casas - próximas ao hospital - do tipo república, para os pacientes que convivem com mais liberdade e interagem entre si e com a comunidade. A experiência é animadora, segundo Dorival Vieira, pois é um primeiro passo rumo à mudança dos hospitais psiquiátricos. Os pacientes são monitorados pelos médicos, enfermeiros e terapêutas.

Todo o trabalho está canalizado para que cada um adquira consciência do seu estado e que está conscientização provoque as mudanças esperadas e desejadas, não só no doente mental mas na sociedade.

"Todos temos que fechar as questões um dia, temos que fazer esse encontro consigo mesmo e Jung diz que 'nós estamos descendo a montanha" e Dorival finaliza dizendo que

"o coração pode falar com uma pedra...o amor total revela esse mistério. Torne-se um louco do coração."

Agradecimento

O Bloco Loucura com amor se cura, através da sua diretoria, destaca a importância do desfile do dia 15 de fevereiro pelas ruas do Bairro Bela Vista. Primeiro, porque cada um fez uma unidade pelo amor. Derrubamos pré-conceitos e todos eram pessoas brincando pela vida, cantando, repartindo alegria, fazendo Carnaval e mantendo uma tradição cultural.

Agora que tudo acabou fica a lembrança dos funcionários do hospital arrumando uma paciente com carinho e uma solidariedade que não se conta. Nas pequenas coisas as mãos se juntam, colando lantejoulas; maquiando os pacientes; no gesto de carinho estendo a mão e o coração.

Agradecemos aos enfermeiros, auxiliares de enfermagem, monitores da T.º e toda a equipe pela conquista de um momento de dignidade e cidadania dos internos.

A impressão final é que todos nós estamos nos sentindo bem. Bem do coração e da cabeça, pois estamos felizes.

Agradecemos à Polícia Militar Cia de Trânsito e seus batedores, bem como a Secretaria de Cultura Municipal, Sindicato dos Bancários, amigos, simpatizantes e moradores da Bela Vista.