Alegria renovada
Alegria renovada
Texto: Andréia Alevato
Cada vez mais as pessoas desafiam o medo de dentista só para embelezar a boca.
Obturações, tratamentos de canal, extrações. Muitas pessoas continuam enfrentando o consultório do dentista para se submeter a essas pequenas torturas. A temida cadeira, no entanto, recebe um número crescente de clientes que chegam animadíssimos e vão embora mais felizes ainda. O que querem, e conseguem, é o tratamento puramente estético. Aquele que branqueia os dentes, preenche falhas, elimina presas de vampiro, diminui gengivas, enfim, tem o único propósito de embelezar o sorriso.
Atualmente, as pessoas se preocupam, cada vez mais, com a estética, principalmente a da boca. Cresceu tanto, que em 1.995, foi fundada a Sociedade Brasileira de Odontologia Estética (dez membros na fundação e 500 hoje). A entidade instituiu em 96, o prêmio "Sorriso do Ano" para as pessoas que servem de modelo da boca perfeita aos menos privilegiados. Os contemplados são naturalmente abençoados com dentes impecáveis, que exigem apenas manutenção. Tereza Collor, vencedora em 96, escova os dentes após as refeições, usa fio dental e, há dois anos, trocou suas quatro restaurações de amálgama
(metálicas) por porcelana. Thaís Araújo, sorriso de 97, nem isso, já que a atriz nunca teve uma cárie. No ano passado, levaram o prêmio o casal Letícia Spiller e Marcelo Novaes, que também escovam os dentes e mais nada.
Segundo Mário Honorato Silva e Sousa Júnior, professor do departamento de Dentística da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP), as pessoas procuram cada vez mais o dentista para ficar com o sorriso bonito.
"Mesmo aqui na faculdade, em que os pacientes são mais carentes, hoje eles reclamam se a restauração tem uma cor que não combina com o dente ou que seja de almágama (material metálico). A gente percebe que
é uma tendência a busca pelas soluções de um sorriso bonito", completou Honorato.
O professor explicou que hoje em dia, a estética se prende a alguns fatores, como econômico, psicológico e até cultural. Mas, de uma maneira geral, o paciente busca a harmonia, compatível com seu aspecto físico. Normalmente, os dentistas restauravam os dentes da área posterior (dentes de trás) o amálgada (material metálico), em termos de aspecto visual, é completamente diferente da cor dos dentes. Alguns profissionais também usavam, no lugar do amálgada as restaurações de ouro, que também são muito pouco usadas hoje. Hoje em dia, os materiais mais usados são a resina (material bem desenvolvido e muito usado), a porcelana ou cerâmica. Por serem técnicas mais delicadas e sensíveis, de acordo com Honorato, o tratamento também se torna mais caro.
"Mesmo nas áreas mais escondidas que as pessoas não davam muita importância, hoje, elas querem trocar a restauração de almágada pela de resina ou a de porcelana. Mas, são materiais que exigem maiores cuidados do operador e do paciente. Num ambulatório, onde você não tem condições de controlar o paciente, a resina e a porcelana não são materiais muito apropriados, porque são muito sensíveis. Então, quando esses detalhes não são observados, a tendência é falhar mais. ", afirmou.
Outro ponto observado pelo professor foi o do resultado final harmônico. Ele disse que a forma, o tamanho, o posicionamento do dente, certas peculiaridades e características de cada pessoa, como trincas e manchas nos dentes, a forma da gengiva, correção de espaços (movimentação dentária - ortodontia) entre outros, tudo faz parte do conjunto que embeleza o sorriso.
"Não basta concertar a forma do dente, sem concertar a forma da gengiva. Corrigindo tudo, você tem um resultado mais harmônico", lembrou.
Há pessoas que têm o dente muito curto, a coroa do dente é muito pequena e por isso recorrem a cirurgias na gengiva, como a atriz Glória Pires. A cirurgia é feita em consultórios, com anestesia local. Recorta-se a área inferior da gengiva, expondo mais os dentes. Em seguida, protege-se o local com uma "cobertura cirúrgica", que é removida depois de uma semana, quando a cicatriz já está adiantada.
"A periodontia está tão especializada, que
é comparada com a própria cirurgia plástica. Tem casos de pacientes que forçam muito a escovação num determinado local, que a gengiva sobe. Existem técnicas de enxerto sob microscopia. Você faz o enxerto e o reposicionamento do retalho com um resultado imperceptível. Não fica cicatriz e os fios de estruturas só são percebidos através de microscópios. Um grande avanço nesta área cirúrgica", completou.
O clareamento dos dentes é uma das técnicas mais procuradas pelas pessoas. O professor da USP lembrou que existem duas modalidades principais. Um é o dente que escurece quando ele sofre um processo de degeneração ou um tratamento de canal mal realizado. Nesse caso, é usada uma técnica muito antiga. É feito um tratamento de canal e feito um clareamento por dentro do dente (pela parte que foi aberta para ser feito o tratamento de canal). Na segunda modalidade é feito um clareamento no dente, porque ele simplesmente está escuro. Nesse caso, deve ser analisado. O paciente também deve ser selecionado e que o dentista tenha a certeza de que ele seguirá a risca todos os procedimentos indicatos pelo profissional. Além do clareamento no consultório, o paciente também pode fazer o clareamento em casa. O profissional faz uma moldeira, onde o paciente coloca o medicamento e usa durante algumas horas por dia. Há também pastas dentárias que são mais abrasivas e que podem clarear os dentes.
"Se for um escurecimento mais suave, as técnicas funcionam muito bem. Agora, quando existe uma pigmentação mais forte, no esmalte e na dentina, é mais difícil de clarear. Milagres ao paciente não devem ser prometidos, já que o resultado depende muito do grau de escurecimento", comentou.
Atualmente, as propagandas sobre os novos materiais e técnicas para se ter um belo sorriso são feitos diretamente para o paciente. O marketing usa fotos de pessoas com restaurações metálicas e mostram que o sorriso fica muito mais bonito com as de resina.
"Numa revista de entretenimento apareceu mostrando a fotografia da modelo Claudia Shiffer de longe, sorrindo, ao lado da frase
"Bela, ..." e, um pouco mais embaixo, um close de sua boca, que aparece uma restauração metálica, com o resto da frase "... mas nem tanto. O marketing não mostra mais o produto para o profissional, mas sim, diretamente para os maiores interessados: o paciente", concluiu Honorato.