04 de março de 2026
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Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 11 min

Depoimento de Izzo não convence

Depoimento de Izzo não convence

Texto: Nélson Gonçalves

A Delegacia Seccional também ouviu o prefeito afastado e o indiciou em extorsão contra a ECCB. Inquérito já pode ser encerrado

O prefeito afastado Antonio Izzo Filho (PPB) compareceu à Delegacia Seccional de Bauru e foi ouvido por mais de cinco horas pelos delegados Edson Cardia, J.J. Cardia e pelo promotor Hércules Sormani Neto, com acompanhamento do representante da OAB-Bauru, Nilton Santiago. Izzo falou da denúncia de extorsão contra a ECCB, assumiu que pelo menos um bilhete entregue como prova da denúncia foi escrito por ele (mas negou o conteúdo da acusação), prestou informações sobre o inquérito das bombas (ver matéria pág. 5) e, ao final, falou com a imprensa. O delegado Seccional Edson Cardia e o promotor criminal, Hércules Sormani Neto, avaliaram que Izzo não trouxe elementos que mudassem o rumo das investigações e o livrassem das acusações até o momento. O depoimento de Izzo não convenceu as autoridades.

Em entrevista coletiva à imprensa, o prefeito afastado reforçou que não tem qualquer participação nos crimes e nas denúncias, chegou a admitir que sua gestão possa ter sido alvo de corrupção mas não concorda que ele, prefeito, tenha que perder o cargo ou ser responsabilizado por atos possivelmente irregulares de seus subordinados.

Izzo acabou respondendo a questionamentos também sobre outras denúncias e problemas que envolvem sua gestão. Em entrevista, Izzo citou que apresentou documento que o inocentariam, referindo-se a documento assinado pelas representantes da ECCB, Nerle e Carmem Quaggio Bresolin, onde elas estariam dizendo que não tem nada de pessoal contra o prefeito afastado. O delegado assistente, Edson Cardia, entretanto, diz que a declaração não se consiste em retratação em relação

às denúncias de extorsão contra Izzo. Para o delegado são mantidas as denúncias. Veja os principais trechos da entrevista coletiva:

Imprensa - O que o senhor disse sobre as acusações de que o senhor teria pago pelos atentados nas casas dos vereadores?

Izzo Filho - Eu na realidade neguei, porque não fiz isso daí. Cada um fala o que quer. Mas eu quero dizer que dois dos que foram apresentados eu nem conheço, nem tenho relacionamento com eles.

Imprensa - Agora, foram presos dois seguranças que eram funcionários da Prefeitura?

Izzo - Conheço eles. Mas os seguranças faziam o papel de me acompanhar, quando eu saía de casa de manhã, ia até a Prefeitura e voltava pra casa e só isto. Então, eu não tinha um relacionamento mais intenso com eles e também não tinha nenhum outro serviço a não ser esse de fazer o acompanhamento.

JC - Quem apresentou os seguranças para o senhor e quem os levou até o senhor?

Izzo - Logo depois que eu voltei da cassação, eu recebi em casa um ex-presidiário que teria ido lá pra me matar. Enquanto eu conversava com esse presidiário foi chamado o tenente Jorge. Ele foi lá pra ver o que estava acontecendo. Realmente confirmou posteriormente que era um ex-presidiário e fez o encaminhamento dessa pessoa. Posteriormente eu acredito que a chefia de gabinete resolveu então pegar o Roberto que trabalhava na Cohab e que eu acredito tenha apresentado o outro, o Djalma. Eles ficavam trabalhando ali na portaria. Quando eu saía me acompanhavam.

JC - O Djalma já estava com o senhor no dia do retorno ao cargo, em dezembro de 98?

Izzo - O delegado perguntou isso aí. A segurança que foi contratada pro dia da cassação e quando do retorno não foi contratada por mim. Eu não sei quem da administração, mas não fui eu quem coordenou essa contratação. Um trabalhava na Cohab e outro trabalhava na Emdurb.

Imprensa - Eles poderiam fazer a segurança do senhor sendo funcionários públicos?

Izzo - Não, não era segurança. Na realidade eles trabalhavam ali na portaria do gabinete e me acompanhavam quando eu ia pra casa. Não eram seguranças, não andavam armados.

JC - Mas eles fizeram segurança já no período anterior à cassação?

Izzo - Então, quando da Rodrigues Alves, em que foram contratados seguranças para fazer, para evitar o confronto da oposição, aí então eles foram contratados, eu não sei exatamente por quem, mas foi alguém da administração que fez essa contratação.

Imprensa - Porque eles tiveram aumentos salariais de mais de 100%? Ele era motorista, ganhava R$ 649,00 e passou a ganhar R$ 2.991?

Izzo - O Roberto já era funcionário. Aí teria que ver na Cohab pra ver o que aconteceu. O Djalma foi contratado agora.

JC - O senhor acha só coincidência esse aumento de salário de outubro de 98 até agora?

Izzo - Não, não sei. Não sei te informar isso. Teria que ver na Cohab.

JC- O senhor acha justo esse aumento?

Izzo - Não, não sei, isso eu não sei te explicar.

Imprensa - Porque que o senhor acha que o pedreiro Alexandre afirmou que recebeu do prefeito Izzo Filho o dinheiro pra cometer esses atentados?

Izzo - Não sei. Eu nem conheço esse rapaz.

JC - Como o senhor vê o fato de Djalma Duarte, um dos seguranças, com cargo na Emdurb, confirmar essas afirmações?

Izzo - Também não sei porque ele teria feito isso.

Imprensa - O senhor confiava neles?

Izzo - Não é que confiava neles. Eu não tinha um relacionamento próximo com ele. Eu andava no meu carro eles andavam no outro carro.

JC - O senhor tomou referências dessas pessoas?

Izzo - Não, não tomei referências. Não fui eu quem contratei. Eu não tomei esse cuidado.

JC - O senhor não acha isso perigoso?

Izzo - Pode ser, mas eu não tomei esse cuidado. Não tinha essa pretensão.

Imprensa - Qual é a posição do senhor em relação a eles cometerem esses atentados?

Izzo - Não, eu não sei primeiro se foram eles que cometeram os atentados. E se foram com a minha ordem não foi com certeza. Vai ter que pesquisar, ir a fundo pra ver o que efetivamente aconteceu.

JC - O senhor acha que um contratado seria suicida a ponto de pessoalmente diante de uma das vítimas potenciais, o meu caso, afirmar categoricamente que só não atirou na minha perna porque o senhor teria pago muito pouco pra ele?

Izzo - Eu não paguei nada pra absolutamente ninguém e nem tinha motivos para mandar atirar em você.

JC - O senhor que eles seriam suicidas de, na minha frente, confirmar isso?

Izzo - Não sei, teria que perguntar pra eles Nélson.

JC - O senhor tem alguma coisa contra este jornalista?

Izzo - Não, não tenho.

JC - O senhor tem alguma coisa contra os proprietários do Jornal da Cidade?

Izzo - Não.

JC - O senhor tem alguma coisa contra o promotor Simioni e o juiz Mauro Ruiz Daró?

Izzo - Também não.

JC - O senhor teria algum motivo pra pedir para assassiná-los?

Izzo - Não, eu não pedi.

JC - Quem é a pessoa que o senhor disse que conversou pessoalmente e teria mandado matá-lo?

Izzo - João Joelson. Eu não sei, o tenente Jorge venho, conversou com ele um pouco e depois saiu e eu não sei pra onde ele foi.

JC - Há alguma chance do senhor sair fora do País?

Izzo - Nenhuma.

JC - O senhor comprou passagem pra Miami?

Izzo - Não.

JC - O senhor não vai sair fora do País?

Izzo - Não, não vou sair fora de Bauru.

Imprensa - O senhor mantém o mesmo endereço?

Izzo - Mesmo endereço.

JC - O endereço citado por depoentes é uma fazenda ou chácara?

Izzo - É uma chácara próxima ao Posto Garcia. A propriedade é minha.

Imprensa - O senhor também respondeu a perguntas sobre o crime de extorsão da ECCB. Qual foi a defesa do senhor?

Izzo - Eu mostrei que aquelas declarações não são verdadeiras. Que a última vez que as proprietárias da empresa estiveram aqui, a dona Carmem e dona Nerle, faltaram com a verdade. Está me dando um pouco de trabalho, mas eu acho que os documentos que eu estou apresentando hoje são conclusivos. Elas disseram que alguém, a meu mando, teria ido lá pra conseguir uma declaração delas. E na realidade, nós contactamos os empresários que estiveram em contato com elas e um deles, que iniciou a negociação, indicou o advogado e fizeram a negociação na própria ECCB. Aposteriore eles foram pra um escritório de advocacia, lá elas fizeram as declarações, tudo relacionado

à venda. Lá elas declararam inclusive o motivo pelo qual eles estavam pedindo concordata, porque teriam feito as acusações contra o prefeito Izzo Filho que iria facilitar a obtenção da concordata se isso, segundo elas, por orientação do advogado. Me isentava de qualquer culpa disso daí.

JC - O ex-presidente da Emdurb, Torrens, foi afastado bem antes do caso ECCB ter vindo à tona, na época em que ainda se falava em propina que levou a cassação do senhor. Este é o real motivo da exoneração do Torrens?

Izzo - Não, não é. Na época um grupo de vereadores pediram que se afastasse um grupo da administração porque daí o caso da primeira processante seria resolvido. Estaria esclarecido. Tudo o que eles pediram foi feito.

JC - Nesta reunião, nenhum vereador levantou e apontou para o Torrens?

Izzo - Me parece, eu não tenho muita certeza, que o Paulo Madureira falou alguma coisa. Mas quando foi pedido a eles que mostrassem o que efetivamente tinha, eles disseram que não tinha nada. Foi pra ele, pra um outro vereador, eu não me recordo se foi pro Valle ou pro Roberto Bueno. Na frente de todos os outros vereadores.

JC - Conforme denúncia no Tribunal de Justiça, o senhor está convencido ou não de que foi formada uma quadrilha na sua administração?

Izzo - Não. Estou provando e vamos ganhar tudo, mostrando que não houve nenhum ato ilegal, tanto na administração do Mobaid, quanto nesta Processante que está em andamento, como com relação ao caso da ECCB, como nessa CEI em que vão apurar o problema do transporte escolar e de servidores, como eu não tenho absolutamente nada com isso que está acontecendo.

JC - O senhor acha que não tem nada a ver com isso, ou admite que houve corrupção em sua gestão?

Izzo - Não, eu admito, como em qualquer administração, que se algum funcionário errou ele tem que ser punido. Eu só acho que a punição não pode ser extensiva quando um funcionário lá de baixo, se cometeu o erro, quem acaba pagando o erro é o prefeito.

JC - Não vamos entrar no mérito da culpa. O senhor admite que secretários do senhor fizeram corrupção na Prefeitura?

Izzo - Eu não sei, enquanto não provar eu não admito, primeiro eu quero saber se houve, o que houve.

JC - Então os 14 fornecedores que foram até o Ministério Público estariam mentindo?

Izzo - Não sei, eu não sei. Eu nem tive acesso a esse processo da Câmara. Eu só sei que, se eles efetivamente deram alguma coisa então eles deveriam estar também no processo indiciados.

Imprensa - O senhor não teme uma prisão diante de tantas denúncias?

Izzo - Eu acho que seria uma arbitrariedade. Porque acusar poder ser feita qualquer acusação. No entanto, eu não cometi, eu tenho a consciência tranquila que não cometi nada e não pedi pra ninguém sofrer isso daí. Pressão eu não estou sofrendo de agora. Na primeira administração quase que me cassaram. Seis anos depois eu provei que tinha razão com relação a esse problema do lixo. Eu não tenho perdido nada na Justiça. Eu pretendo voltar a Prefeitura quando a Justiça autorizar.

JC - O senhor foi condenado no caso da publicidade e também no caso Sachetti?

Izzo - O caso Sachetti, foi uma contratação feita pra apurar possíveis irregularidades na administração anterior. Apurou. Tanto a Prefeitura não tinha os técnicos competentes e especializados pra fazer que quando o Nilson assumiu chamou os contadores pra fazer. Então isso, tranquilamente, nós vamos mostrar no Tribunal de Justiça que foi dessa maneira.

JC - A Justiça entendeu, em primeira instância, que o senhor desrespeitou uma cláusula, fazendo aditivo por 100% do valor do contrato?

Izzo - Então, mas nós fizemos de conformidade com uma Medida Provisória que o governo federal usa.

JC - A media provisória não é considerada pelo juiz na sentença? O juiz errou?

Izzo - Não, eu não sei, você me faz perguntas técnicas que eu não sei. A medida provisória se transformou em lei. É por isso que eu vou recorrer para mostrar que essa medida provisória permite ao governo federal e estadual fazer isso, a não ser que a nível local não seja permitido.

JC - Porque o senhor receberia um celular da proprietária da ECCB?

Izzo - Eu não sei qual era a verdadeira intenção dela, quando ela conversava em coisas que a gente não entendia. Não sei porque que ela fez isso aí.

JC - O que é o celular então? O senhor diz na gravação que iria recebê-lo?

Izzo - Não, não sei. Você está querendo que eu admita uma culpa que eu não posso. Não sei.