19 de março de 2026
Geral

Editorial

B. Requena
| Tempo de leitura: 3 min

Lição de fibra e coragem que faltava ao brasilerio

Lição de fibra e coragem que faltava ao brasileiro

(*) B. Requena Seu nome? Catita. Pode lembrar outra coisa que não seja pura doçura, delicadeza, feminilidade? Certamente, ninguém haverá de me contestar. O nome dele? Holls. Não, não confundam com aquele gigante do seriado de TV que ficava verde de raiva e inchava, "O Incrível Hulk". Este cara é Holls, mesmo. Lembra do inglês

"hollow", que quer dizer falso, insincero, cavernoso, cabeça oca. E este segundo é que deveria ser o seu verdadeiro nome, pois os significados entram em seu caráter como uma verdadeira luva.

A esta altura, o leitor ou deve estar tentando matar a charada ou já chegou a uma conclusão antes mesmo que eu contasse a história. "Ah, é mais uma daquelas historinhas que no mundo atual todos estamos fartos de saber"

- pensou um, para acrescentar: "É um daqueles casos que hoje em dia é difícil um quarteirão que não tenha um. A mocinha, estudiosa, bonita, já tem um emprego. O cafajeste, ou melhor, o namorado, vagabundo, maconheiro, de vez em quando senta a mão na cara dela. Outro dia já quis enfrentar o futuro sogro. Mas o que se pode fazer, ela está apaixonada!?"

Cada um imagina a sua história em torno de Catita e Holls, mas não é nada disso. De Catita, ninguém nem havia ouvido falar, antes. De Holls, sim, um tremendo mau caráter. Aliás, não só ele. Nenhum da sua turma se salva. Todos muito mal falados no bairro, metidos a valentões. E ninguém pode com eles. Nem outros que se dizem machões e corajosos.

O que aconteceu há menos de uma semana me fez vibrar como se meu time tivesse vencido um campeonato com goleada na final. Catita, meiga, feminina, carinhosa, deu um tremendo de um pau no "Incrível Holls" que o Brasil inteiro ficou de boca aberta.

Catitinha, uma cachorra vira-lata, sem pedigree, cujo nome não tem nenhum vínculo com a elite, de família pobre, desconhecida, é mãe de uma prole de cinco. Ela amamentava a todos, dando, de vez em quando, uns tapinhas para que o leite fosse sugado da maneira mais isonômica possível. E também para que os seus baixinhos aprendam desde logo que a solidariedade, a boa convivência são valores e maneiras que valem a pena cultuar. Mesmo que o pai - e a mãe - não tenham qualquer tradição. Também desde cedo pensava em incutir na cabeça da, digamos criançada, que devemos respeitar e defender todo mundo, sendo ou não nossos amigos e conhecidos.

Nesse momento, Catita ouviu lá longe, na rua, duas crianças gritando. E eram gritos de horror. Alguma coisa grave estava acontecendo. "São filhos dos outros, mas não importa. Estava justamente pensando nisso ainda agora. É preciso agir". Empurrou aquela turma que parecia soldada em suas tetas e saiu em disparada. Holls já havia rasgado o pescoço de uma criança, o rosto de outra e queria mais. Ela nem perguntou seu CIC, RG ou o que desejava ali. Foi rolando com aquele mau caráter e lhe dando o maior número de dentadas por segundo de que se tem notícia ultimamente. E salvou da morte o pequeno Lucas e o irmão. Catita me emocionou. Logo ela, que não recebe sequer um centavo da Secretaria de Segurança Pública! Não tem cursos de defesa pessoal ou assemelhados. Passei a infância vendo na TV as ficções de Rin Tin Tin e de Lassie nos livros. E Catita não é ficção! Ela vive! Tem sangue que por sinal goteja de sua orelha quase arrancada pelo pit bull! É gostoso escrever sobre lições de destemor, caráter, de honestidade dos brasileiros. Mas como isso tudo está indo à falência, uma cachorra está fazendo as vezes...

(*) B. Requena é editor de Internacional do JC