Mulheres indígenas sofrem com alcoolismo e prostituição
Mulheres indígenas sofrem com alcoolismo e prostituição
Ativista da questão das mulheres indígenas, Jupira Terena afirma que há o que comemorar neste dia 8, com ressalvas. Cada vez mais submetida a problemas como o alcoolismo e a prostituição, a mulher indígena sofre discriminação dupla. Leia a seguir a entrevista com a índia que sonha em um dia ver uma mulher presidente no Brasil para pôr fim à violência.
Pergunta - Dia 8 é comemorado o Dia Internacional da Mulher, a senhora como índia e como mulher acha que há o que comemorar nesta data?
Jupira Terena - A mulher indígena tem o que comemorar nesta data, porque foi no dia 8 de março de 86 que nós fizemos nossa primeira reunião nesse dia, lembrando que era o Dia Internacional da Mulher e onde também fomos participar de uma cerimônia no Conselho Nacional do Direito da Mulher, que abriu as portas para nós mulheres indígenas. Foi a primeira vez, que nós pensamos, vamos nos organizar de uma forma consciente, coerente, sensata, firme. A gente se preocupa muito com a questão da educação, da saúde, a questão da demarcação de terra, meio ambiente, direitos humanos.
Pergunta - A senhora acha que a sociedade está abrindo espaço para a questão do índio?
Jupira - Sim, nós estamos percebendo que estão ouvindo as nossas reivindicações e as nossas preocupações em relação à mulher indígena.
Pergunta - Quais são os principais problemas das mulheres indígenas?
Jupira - O alcoolismo está cada vez mais entrando nas reservas e a mulher, especificamente, ela sem querer acabe entrando neste processo. Ela vai para a cidade trabalhar e não sabe como é o mecanismo. Ela pensa que o local onde ela vai passear, levada pelas outras companheiras, é um local bom, onde ela pode se divertir normalmente, mas depois de quatro cinco meses ela vira uma prostituta. Isso atingiu muito a mulher indígena.
Pergunta - Que cargos a senhora tem atualmente?
Jupira - Eu sou funcionária da Funai, sou presidente da Associação das Mulheres Indígenas do Centro-Oeste Paulista, coordenadora do Conselho de Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e faço uma articulação voltada a questão da mulher para que cada vez mais, a gente se una. Eu tenho também participado do Conselho Integrado de Atendimento à Mulher.
Pergunta - Quantas mulheres indígenas existem em Bauru?
Jupira - São 20 mulheres, mas que não estão em situação de alcoolismo ou prostituição. Elas tem trabalho como empregada doméstica e não tem estes problemas.
Pergunta - A senhora sabe de alguma estimativa de quantas mulheres indígenas estão na prostituição?
Jupira - Chega a uma faixa de 20%. Nós temos um problema na reserva dos Ianomani, que os garimpeiros chegam lá e submetem sexualmente as mulheres. Mas, nós não chegamos a fazer um trabalho lá porque já existem muitas ONGs internacionais trabalhando nesta questão, mesmo assim nós também vamos entrar nesta questão em 99. As terenas, também estão sofrendo muito, estão entrando no alcoolismo e na prostituição. Esse é um problema que nós mulheres estamos tentando chamar a atenção da Funai neste sentido. A gente gostaria que a Funai olhasse a questão da mulher indígena com mais seriedade. A gente quer se organizar e abrir a mentalidade da mulher indígena porque a gente tem direito de se organizar.
Pergunta - E a mulher como um todo a senhora acha que há o que comemorar?
Jupira - Como mulher nós temos que festejar não só no dia 8 ,mas todo dia. Nós temos que lutar pela união do mundo, que somos responsáveis pela educação dos nossos filhos, pelo idioma. Porque o filho da gente é o futuro de amanhã. Nós que permanecer na força, na resistência porque sem união não se consegue nada. Vamos nos unir, unir nossos pensamentos e Deus queira que uma mulher chegue a ser presidente e grite chega de violência.
Pergunta - Existe alguma atividade sobre as mulheres indígenas programada para acontecer em Bauru?
Jupira - E estou com um projeto para realizar ainda este ano em Bauru o 2º Encontro Nacional de Mulheres Indígenas.