Pesquisador desenvolve sistema para tratamento de esgoto
Pesquisador desenvolve sistema para tratar esgoto
Texto: Fábio Grellet
Professor da Unesp de Botucatu comprova vantagens de sistema que utiliza plantas no tratamento de esgoto; processo permite que água seja reutilizada, ainda que não para beber
Botucatu - O custo de instalação e manutenção de um sistema usual de tratamento de esgoto faz com que, ainda hoje, muitos moradores da zona rural não disponham deles, como deveriam, e depositem o esgoto, sem qualquer tratamento, em córregos próximos a suas casas - cuja água, em geral, é aproveitada, também, para afazeres domésticos e até para beber.
Pretendendo amenizar esse problema, Paulo Rodolfo Leopoldo, professor do Departamento de Engenharia Rural da Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, está desenvolvendo um sistema de tratamento de esgoto simples e barato, que pode ser utilizado em localidades, rurais ou urbanas, com quantia reduzida de habitantes.
Iniciado há dois anos, o experimento foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e já produziu resultados considerados bastante satisfatórios.
O aspecto inovador do sistema consiste na utilização de plantas que se desenvolvem em meios aquáticos (mesmo poluídos) e se alimentam de resíduos presentes no material componente do esgoto, após sua decomposição. Em contato com a água poluída, as plantas absorvem parte do material orgânico presente nela, consumindo-o, depois que as bactérias já realizaram a mineralização dele. O resultado é que, após a exposição a diversas etapas (algumas delas compostas por plantas com as características mencionadas), a água, recolhida misturada com os mais diversos detritos - eis que proveniente do esgoto -, resta quase que plenamente limpa e própria para ser reutilizada, por exemplo, em serviços domésticos
- mas não para beber, alerta Leopoldo. Parte do material orgânico, submetido a outro processo, também pode ser utilizado, como adubo.
O experimento começou há dois anos: o esgoto produzido por cerca de 60 colonos, que moram em 12 casas existentes na Fazenda Experimental Lajeado, da Unesp, em Botucatu, foi canalizado até o local onde se instalou o sistema. Até então, esse esgoto era depositado, sem qualquer tratamento, no córrego Olaria, que passa pela fazenda e deságua no Ribeirão Lavapés, responsável pela drenagem da cidade de Botucatu.
Desde 1997, esse esgoto passou a ser submetido ao tratamento: após captado, atravessa diversas caixas de amianto (caixas d'água), dentro das quais é realizado o processo de purificação. Segundo Leopoldo, porém, o mesmo método pode ser desenvolvido utilizando-se reservatórios
(buracos) abertos na própria terra, desde que existam canais de comunicação entre eles. Cada um dos tanques é ligado aos demais através de canos que permitem fluxo contínuo. O volume que sai do primeiro tanque foi determinado previamente, para evitar que o reservatório transborde. Em seguida, o material em tratamento passa de um tanque a outro no volume conveniente para que ocorra a purificação.
O primeiro reservatório é um tanque de decantação, onde o esgoto permanece parado, para que os detritos maiores se depositem. O esgoto permanece, em média, 10 horas depositado nesse reservatório. Esse tempo é chamado "período de residência". Decorrido este prazo, boa parte dos detritos existentes na água já se depositou numa parte do reservatório. A água que sai em direção
às outras fases do tratamento já é muito menos suja.
O segundo reservatório contém pedra britada, de tamanho número um. A pedra também retém impurezas visíveis.
Em seguida, a água é distribuída para um reservatório que contém a primeira planta, esta infiltrada em terra: aguapés - vegetais que, habitualmente, crescem em ambientes aquáticos poluídos.
Ao sair desse tanque, a água é enviada até outro, em que cresce o junco. Este, ao invés de infiltrado no solo, está em pedra britada (como as plantas das fases seguintes, também). Segundo o pesquisador, não há diferença considerável entre a terra ou a pedra, já que a fonte essencial de nutrientes para a planta é a água que a banha, além do sol.
As outras plantas, cada qual ocupante de um reservatório próprio, são a taboa, o lírio-do-brejo e o inhame.
O tempo total de residência - período que a água demora desde que entra no primeiro tanque até sair do último deles - é de aproximadamente 30 horas, segundo indicaram medições de volume e vazão da água. Além dos tanques com plantas, há outro, com água, chamado de testemunha, porque demonstra como ficaria a água se não estivesse em contato com os vegetais.
As espécies vegetais foram escolhidas respeitando um conhecimento prévio: o pesquisador sabia que essas plantas são capazes de resistir em água poluída, conclusão a que chegou inclusive mediante observação.
Segunda fase
As plantas usadas no experimento estão sendo substituídas, agora que se encerrou a primeira fase do experimento, decorridos dois anos de seu início. O junco será mantido, mas já está ocupando um dos reservatórios, atualmente, o coast-cross, espécie de capim.
A segunda fase deve demorar outros dois anos, mas os resultados colhidos na primeira fase do experimento já comprovam a eficiência do sistema: segundo o pesquisador Leopoldo, vários
índices demonstram a melhora da qualidade da água, antes absolutamente poluída pelos detritos. Um dos índices
é a Demanda Química de Oxigênio (DCQ), que melhorou em 85%. O volume de bactérias presentes na água diminuiu em 90%. Oitenta por cento do material sólido foi retido, e a turbidez também se reduziu. Este é um critério que avalia a quantidade de partículas que impedem a penetração de luz na água. A turbidez da água potável é nula (corresponde a zero).
A água resultante do tratamento, porém, praticamente não contém oxigênio, pois já não dispõe dele, ao iniciar o procedimento. Mas o processo de oxigenação dela, que melhoraria ainda mais sua qualidade, é prático e quase automático, conforme o pesquisador.
Proporcionando gastos bastante reduzidos - Leopoldo não dispunha de valores - e com custo de manutenção praticamente inexistente, o sistema pode ser instalado em qualquer comunidade cuja população seja consideravelmente pequena.
Segundo o pesquisador, além do experimento em Botucatu, a cidade de Analândia (na região de São Carlos), cuja população é de aproximadamente 4 mil pessoas, também dispõe de um sistema de tratamento de esgoto que utiliza esse princípio. Os responsáveis pela instalação do sistema em Analândia foram um órgão de assessoria privada, o Instituto de Ecologia Aplicada, de Piracicaba, e o Centro de Estudos Ambientais, da Unesp de Rio Claro.
No Paraná, parte da água utilizada na cidade de Curitiba também seria purificada através desse sistema. Leopoldo não soube informar se já houve a instalação completa do sistema, lá.
O pesquisador afirmou ainda que, na Europa, já existem, em funcionamento, aproximadamente 2 mil sistemas idênticos.
Adubo
O material orgânico retirado da água durante o processo de purificação também pode ser reutilizado, como fertilizante, após submeter-se a um processo de decomposição. Ele é rico em ferro, zinco, manganês, cálcio e potássio.
Segundo o pesquisador, há um inconveniente: o tempo (aproximadamente três meses) em que o material precisa permanecer secando, antes de ser utilizado.
Mas observações iniciais, após a aplicação do adubo em pés de café, comprovaram que o fertilizante
é de boa qualidade e produz resultados satisfatórios. A comprovação disso a nível científico será feita durante a segunda fase do experimento, quando dois pesquisadores auxiliares, que também obtiveram bolsas de estudo através da Fapesp, participarão do projeto.