08 de julho de 2026
Geral

Artesão

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 4 min

"Gepeto" de Bariri prepara o Natal

"Gepeto" de Bariri prepara o Natal

Texto: Fábio Grellet

"Carlito dos Brinquedos" começou a fabricar peças em madeira há 9 anos; ele distribui no Natal os 800 brinquedos que faz, em média, por ano

Bariri - Se alguém, na cidade de

Bariri, perguntar por Egídio Carlos Cassiola, certamente poucos - ou quase ninguém - vão saber de quem se trata. Mas se o procurado for "seu" Carlito dos Brinquedos, então, imediatamente, muitos vão indicar o homem que, há nove anos, produz e distribui brinquedos entre as crianças carentes da cidade.

Aos 63 anos de idade, Carlito conta, emocionado, que, em outubro de 1990, ao acordar, ouviu uma voz lhe orientando a produzir brinquedos de madeira. Pasmo, perguntou como poderia fazer, se nunca havia praticado atividades de marcenaria e nem sequer imaginava como desenvolver a arte. Mas, segundo conta Carlito, a voz insistiu que ele deveria tentar, garantindo-lhe que iria ter sucesso.

Nessa época, Carlito já era aposentado. Havia trabalhado em várias atividades, a última delas como motorista da Companhia Energética de São Paulo (Cesp). Após ouvir a voz, saiu de casa e, quase inconscientemente, passou por uma loja de ferragens, onde observou um aparelho que considerou ideal para começar a aprender marcenaria. Depois de verificar o preço dele, voltou para casa e contou aos familiares que pretendia adquirir um equipamento para fazer brinquedos e distribuir às crianças. Sensibilizados com a iniciativa, os familiares então recolheram entre si contribuições e, em pouco tempo, já havia dinheiro suficiente para comprar a máquina. Numa viagem a Jaú, Carlito encontrou um aparelho ainda mais sofisticado do que o primeiro que desejara, e o adquiriu, instalando-o nos fundos de sua casa.

Dispondo do equipamento, Carlito começou a imaginar os modelos que produziria. Os primeiros que conseguiu preparar foram miniaturas de caminhões. Conforme ia produzindo, distribuía

às crianças do bairro onde mora, em Bariri, que vinham à sua casa pedir as miniaturas. Os pequenos brinquedos começavam a proporcionar grandes alegrias à criançada.

Com o tempo, Carlito começou a ousar, produzindo carretas, botes e até pequenas carroças, com cavalos. O processo de criação não é complexo: basta imaginar o modelo e insistir até que suas mãos, hoje já bastante hábeis na arte da marcenaria, consigam conduzir a madeira da forma correta, para que a máquina faça os cortes imaginados. Atualmente, ele se ocupa com tentativas de produzir tratores, sem esquecer dos usuais caminhões e outras peças, como carros semelhantes aos da Fórmula 1.

Até o início de 1993, os equipamentos de que Carlito dispunha eram estritamente manuais. Por isso, o volume de brinquedos que produzia era pequeno, ainda que já suficiente para alegrar muitas crianças.

Em abril de 1993, porém, Carlito foi à Porta da Esperança, extinto quadro do programa de televisão de Sílvio Santos aos domingos, e ganhou duas máquinas de marcenaria, que lhe permitiram aumentar consideravelmente sua produção de brinquedos.

Desde então, Carlito preferiu alterar o sistema de distribuição das peças: ao invés de entregá-las conforme elas iam sendo produzidos, começou a guardá-las, para fazer uma ampla distribuição, às vésperas do Natal.

Assim, já no Natal de 1993, crianças de creches e outras entidades de Bariri começaram a receber os brinquedos de Carlito.

Atualmente, são quatro as entidades cujos freqüentadores são agraciados com os brinquedos: Creche Madre Leônia, Centro de Educação Infantil, Creche Rachel de Queiróz e Centro Espírita Mensageiros de Luz.

Embora produza, a cada ano, aproximadamente 800 brinquedos, essa quantia não é suficiente para atender todas as crianças dessas entidades. Por isso, os professores de cada uma delas fazem uma triagem, em que escolhem as crianças mais necessitadas, lhes entregando uma senha que elas trocam pelos brinquedos. A distribuição, atualmente, acontece no pátio do Centro de Promoção Social da Prefeitura de Bariri.

Madeira

A madeira usada por Carlito para fazer os brinquedos é o pinus. Inicialmente, ele o recolhia em lugares onde empresários do ramo depositavam material que não iriam mais utilizar. Era o resto da produção de madeireiras, portanto.

Um dos lugares que Carlito visitava era a madeireira Faidiga, em Bauru. Certa vez, perguntaram a ele o que fazia com a madeira recolhida. Carlito explicou e, desde então, os proprietários da empresa passaram a lhe ceder, gratuitamente, todo o material que quisesse utilizar. Atualmente, há também algumas empresas de Bariri que oferecem material ao fabricante de brinquedos, mas boa parte da madeira utilizada ainda é proveniente da Faidiga.

Além da madeira e pregos, Carlito usa tampinhas de refrigerante e muita cola.

Perda do filho

Dois anos depois de começar a fazer os brinquedos, "seu" Carlito perdeu um filho, morto, aos 29 anos, em um acidente de carro. Ele conta que a perda, porém, serviu como incentivo para que ele se entregasse ainda mais à produção dos brinquedos para as crianças.

O ritmo de produção dos brinquedos, hoje, só

é restrito porque Carlito não dispõe de muito espaço. Ele ainda trabalha nos fundos de sua casa, mas o pequeno salão existente lá tem goteiras e pouco espaço para guardar os brinquedos prontos. Por isso, vários moradores de Bariri, entre eles o vereador Luiz Gonzaga Febraro, estão se mobilizando para conseguir um local onde Carlito possa trabalhar dispondo de mais conforto.