07 de julho de 2026
Geral

Adolescentes

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Toda donzela tem o pai que é uma fera

Toda donzela tem o pai que é uma fera

Texto: Gustavo Cândido

A frase é batida mas ainda hoje não deixa de expressar uma certa maneira uma verdade: os pais têm ciúmes de suas filhas adolescentes quando estas começam a namorar. O comportamento, até certo ponto, considerado normal (assim como o ciúme da mãe da namorada do filho) tem diminuído a sua intensidade, se compararmos, por exemplo, com os pais das décadas de 40 e 50 que, quando permitiam que suas filhas namorassem, impunham mil condições, entre elas o namoro em casa e nada de "amassos". Sinal dos tempos.

Hoje a maioria dos pais já incorporaram ao seu vocabulário palavras modernas como "rolo" e "ficar", que muitas vezes substituem o namoro propriamente dito e já se adaptaram à nova realidade dos relacionamentos das filhas. Mesmo assim admitem que, no fundo, se sentem um pouco enciumados quando aparece em casa um marmanjo querendo "levar embora" a "menininha do papai."

Chegar em casa e dizer para o pai que está namorando não

é uma tarefa fácil. Principalmente se ele for do tipo "durão", ou se a garota for a única filha da família. A maioria das mulheres passou por essa situação um dia e, pelo jeito, as mais novas vão continuar passando por mais algum tempo. Geralmente, se a família

é formada por filhos e filhas, o comportamento paterno adquire dois pesos e duas medidas. O filho é criado completamente solto, livre para namorar e aparecer um casa com o número máximo de garotas que for capaz, a filha não. Ela tem direito a ter um namorado, sério, e só, como se houvesse a obrigação de acertar na escolha logo na primeira vez. Raphael Nasralla Ribeiro, de 15 anos confirma:

"meu pai sempre me deixou solto mas com a minha irmã

é diferente".

Esse comportamento dos pais em relação às filhas é fruto de uma formação machista já enraizada em nossa cultura, segundo a psicóloga Andréia Georges. Muitas vezes o pai não consegue entender que com o passar do tempo a idade para o início dos relacionamentos entre os adolescentes caiu em relação à época dele. Ele enxerga a filha de quinze anos como uma criança ainda porque antes o namoro só acontecia dos 18 anos para frente. Hoje com treze anos muitas meninas já "ficam" e namoram. "É por isso que o pai não pode ver o namoro como ele via no seu tempo", diz a psicóloga,

"é preciso se adaptar".

Outro medo paterno comum é de que sua filha sofra na mão de algum garotão namorador, o que é mais um comportamento que remete ao seu passado. Geralmente o pai teme que alguém faça com a sua filha o que ele fez com a filha de alguém quando era jovem.

Antonio Américo dos Santos, comerciante e pai de Aline, de 14 anos, admite que esse é o seu problema. "E se ela namorar um canalha qualquer que só queira aproveitar da situação?", pergunta. Santos porém não confessa se foi ou não um desses namoradores que tanto teme no passado, "Nunca fiz nada de errado, mas vi muita coisa acontecer", afirma. Por enquanto o comerciante ainda não pôs em prática a sua desconfiança em relação aos jovens de hoje, já que Aline ainda não apareceu um casa com um "marmanjo".

Kristy Karg Silveira, de 16 anos apareceu e a recepção não foi das melhores. Ela conta que mesmo seu pai conhecendo os pais do ex-namorado, a primeira reação dele não foi exatamente positiva. "Ele dizia: aqui na minha casa não entra", ela relembra, "depois ele acostumou com a idéia". Segundo Kristy quando o namoro terminou o pai voltou a se manifestar,

"ele falou: agora você vai ficar uns dois meses sem namorar", conta.

Nem tão fera assim

O representante comercial Paulo Renato Franco diz que nunca foi ciumento com as irmãs mas teve ciúmes quando suas filhas começaram a namorar. "Pensei, estão levando as minhas filhas de casa", revela. Porém ele nunca deixou que esse sentimento ultrapassasse os limites do normal,

"nunca fui de pegar no pé, ir atrás, seguir", conta. Hoje, suas duas filhas, Camila, de 20 anos e Bruna, de 17, estão com seus namorados há alguns anos e têm no pai um grande amigo, que nunca atrapalhou em nada os seus relacionamentos.

"Aqui em casa sempre houve muito diálogo e companheirismo", diz Bruna. De acordo com Franco e sua esposa Sonia, o namoro dá uma certa tranqüilidade aos pais, desde que eles saibam quem

é o namorado da filha e que a relação entre eles é boa. "A minha filha acabou de viajar com o namorado no carnaval. É ótimo que isso aconteça", afirma Sonia.

A tranqüilidade na família Franco, que também conta com Cauê, de 16 anos, é facilitada pelo fato das duas filhas estarem namorando sério. Mas e se o namoro de uma delas terminasse e ela resolvesse "recuperar o tempo perdido" ficando com o todos os rapazes que tivesse vontade? Segundo o pai, não haveria problema algum. "É claro que eu acredito que, de acordo com a educação que as minhas filhas receberam, elas não sairiam ficando com vários rapazes, mas o ficar é completamente normal", afirma Paulo Renato Franco.

A maior preocupação do engenheiro Mario Arduin Gabrielle com relação as suas filhas, Marília, de 20 anos e Marina, 15, é saber onde elas estão e com quem. Segundo Gabrielle, ele não tem ciúme das filhas, embora admita que a sua preocupação esconde uma ponta desse sentimento. "Como nenhuma das duas trouxe um namorado para casa ainda não me sei se na hora vou sentir ciúme mesmo", diz.

O namoro também é visto com uma coisa tranqüilizadora na família Gabrielle, mas o "ficar" também não foi desaprovado "é normal hoje em dia", diz o pai. Marina completa, "ficar é bom justamente por não ter compromisso.

Como acalmar o leão

Alguns pais passam dos limites com o ciúme doentio, perseguem as filhas quando elas saem ou simplesmente as proíbe de sair, censura telefone, carro, dinheiro, faz chantagem. O que fazer numa situação dessas? Conversar é sempre a melhor solução. Andréia Georges diz que não é bom que o pai radicalize no controle com a filha porque isso pode trazer problemas mais sério de relacionamento no futuro. "O ideal é que haja uma orientação por parte do pai e não uma pressão. Ele deve conversar sobre o namoro e até ensinar o que é namorar. O que não pode é proibir porque o namoro é uma etapa natural da vida da sua filha", ensina a psicóloga.