08 de julho de 2026
Geral

Crescimento populacional

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 6 min

População de Bauru cresce cada vez menos

População de Bauru cresce cada vez menos

Texto: Márcia Buzalaf

Até a década de 70, a população bauruense crescia assustadoramente, em progressão geométrica. Depois deste período, começou a crescer menos e atingiu o teto do desenvolvimento demográfico. A tendência

é que a população de Bauru cresça cada vez menos, envelhecendo cada vez mais. Isso deve prejudicar sintomaticamente o sistema previdenciário, que poderá enfrentar graves problemas daqui há 30 anos, quando a geração do último "baby-boom" bauruense estará saindo do mercado de trabalho. A análise demográfica e econômica é do professor do Departamento de Ciências Econômicas da Instituição Toledo de Ensino

(ITE) e da Departamento Ciências Humanas do Campus da Unesp de Bauru, Jacques Vervier, com base em duas recentes publicações sobre o assunto.

Em 1990, a Revista Exame apontou Bauru como sendo a cidade com maior potencial de crescimento demográfico do Estado de São Paulo. Entretanto, a cidade não vingou. Na prática, Bauru perdeu indústrias desde então e sofre o impacto da retração do consumo diretamente em sua principal atividade, o comércio.

A posição da cidade no o Atlas do Mercado Brasileiro, publicação da Gazeta Mercantil com detalhados dadods sobre a economia nacional lançada no final do ano passado, também não é animadora: Bauru é a 14ª cidade na grande maioria dos itens analisados para se determinar o Índice de Potencial de Consumo da população das principais cidades do Estado de São Paulo no ano de 1996. Acima de Bauru está Piracicaba. Em 15º, está Mogi Mirim.

A previsão da revista Exame, segundo Vervier, era baseada exclusivamente em uma análise do crescimento linear da população. Atualmente, de acordo com o Data-ITE, banco de dados da faculdade organizado pelo próprio professor, observa-se que a população não cresce desta forma.

Em Bauru, o crescimento demográfico aumentava cada vez mais até a década de 70, um crescimento em progressão geométrica. Depois deste período, começou a crescer cada vez menos. "O gráfico que era convexo, vira côncavo. Isso porque existe uma certa saturação da cidade. Estamos indo para um teto de desenvolvimento populacional", explica o professor.

Esta queda brutal na natalidade em Bauru, que o professor chama de inversão demográfica, faz com que a população cresça cada vez menos. "Ela envelhece, na verdade", ele diz. O fenômeno é assistido na população do Brasil todo, assim como a de São Paulo. "Mas, provavelmente, a de Bauru em uma proporção maior", destaca.

"Baby-boom"

A última geração numerosa em Bauru foi concebida na década de 70 e, atualmente, está na faixa dos 20 anos de idade, explica o professor.

Em trinta anos, esta geração estará saindo do mercado de trabalho e deixando outra geração, caracterizada também pela queda na taxa de natalidade.

"A taxa de natalidade caiu bastante em Bauru", defende Vervier quando analisa as últimas duas décadas.

A conseqüência desta mudança populacional vai causar uma inversão forte nos ativos e inativos financeiros, explica Vervier. Na prática, os problemas de hoje no tocante a aposentadoria e securidade social vão piorar e muito.

"Serão muitas pessoas se aposentando no mesmo período", detalha.

Antinatalista

A queda da natalidade não foi motivada por nenhum tipo de política de controle de natalidade no Brasil. Os fatores que levaram a população a não crescer mais são fatores endógenos, não externos.

Um deles, Vervier explica, é o aumento do custo da vida urbana. No sistema agrícola do passado, ter filhos era ter fonte de renda e era seguro de aposentadoria. Custava pouco e rendia muito. "Os filhos eram um benção. Atualmente, ter filhos custa muito e rendem praticamente nada", alega ele.

A queda da natalidade em Bauru foi natural, não induzida por uma intervenção externa. "Por vontade própria da população e pela situação econômica", completa.

Ônus

Vervier diz que a qualidade de vida da cidade melhorou nos últimos anos. Isso se deve à evolução do ônus populacional, que descreve a relação entre o salário e a renda per capita de uma região. O ônus populacional calculado pela divisão do número de habitantes pelo número de trabalhadores. "Ele indica o número de vezes que o salário é divido", Vervier fala.

Nos dados do País como um todo, na década de 70, o ônus populacional era de 3,17, ou seja, o salário de cada trabalhador brasileiro sustentava 3,17 pessoas.Em Bauru, o ônus populacional em 97, era de 2,58 - cada trabalhador sustenta ele próprio e mais 1,58 pessoas. "Isso indica que tem mais gente trabalhando", explica Vervier. As causas da queda no ônus populacional, segundo o professor, são o envelhecimento da população - cada vez menos jovens dependem de adultos -; e um crescimento da entrada da mulher no mercado de trabalho.

O fenômeno de Bauru acontece no Brasil de um modo geral, o que indica uma melhora na qualidade de vida. Vervier lembra que os salários cresceram, mas, mesmo se não tivessem crescido, nível de vida teria crescido porque os salários ficaram menos divididos, com mais pessoas trabalhando.

Estagnação

A taxa de mortalidade da população de Bauru, de 80 para cá, se manteve estável. O que cai foi a taxa de natalidade, diminuindo o crescimento vegetativo da cidade.

De acordo com o Data-ITE, em 1940, existiam 108 homens em Bauru para 100 mulheres. Em 92, para cada 100 mulheres, existiam apenas 97 homens. Essa é uma tendência do Brasil todo, mas, em Bauru, teve uma inversão.A cidade vai parar de crescer ou crescer pouco, diz Vervier. No ponto de vista de qualidade de vida, é boa notícia. Do ponto de vista econômico, somos uma cidade com déficit de consumo em vários itens importantes, como venda de carros, livros e revistas e alimentação fora de casa.

A publicação da Gazeta Mercantil deixa bem claro isso na análise do professor. Além do número de habitantes, Bauru ocupa a 14ª posição em consumo no Estado também em outros itens, como eletrodoméstico, carne vermelha, óleo de cozinha, produtos lácteos, maionese, refrigerantes, produtos de limpeza, produtos de higiene, roupas masculinas, roupas femininas, discos e fitas, brinquedos e jogos, tratamento dentário, óculos e lentes, remédios, reforma de imóvel e acessórios para banheiros.

Se 14ª posição não significa nenhum grande desenvolvimento no perante o Estado, em outros itens, Bauru fica ainda abaixo. No potencial de consumo de livros e revistas, a cidade cai para a 16ª posição; em compra de veículos, para a 20ª posição; e, para refeições fora de casa, para 31º lugar.

Bauru também é classificada como uma cidade considerada

"de menor potencial", juntamente com Marília, Presidente Prudente, Franca, Araraquara, Limeira, entre outras. De "médio potencial", estão listadas São José do Rio Preto, Ribeirão Preto, Piracicaba e Sorocaba. Já de grande potencial, apenas Campinas e São Paulo.

O poder de consumo da cidade é um dos fatores levados em conta pela publicação. De 100% que se consome no Brasil, 34% é consumido no Estado de São Paulo e 0,298% é consumidor em Bauru. Em Piracicaba, a porcentagem

é de 0,319, uma grande diferença, acredita Vervier.