Doar leite é um gesto de amor
Doar leite é um gesto de amor
Texto: Adriana Rota
O Banco de Leite Humano de Bauru (BLH) fechou o ano de 1998 com um saldo positivo. O número de doadoras passou de 159, em 1997, para 182 no ano passado. A quantidade de leite recebida foi acrescida em cerca de 200 litros. Considerando-se que a quantidade de partos sofreu uma diminuição substancial (de 5.977 para 5.275), isso significa que está havendo uma maior conscientização por parte das mulheres que dão à luz.
O BLH é um serviço mantido há mais de 15 anos pela Secretaria Municipal da Saúde. São, aproximadamente, 13 pessoas envolvidas nessa atividade, dentre auxiliares de enfermagem, uma enfermeira, uma nutricionista e o pessoal de apoio da parte administrativa, limpeza e transporte. Apesar dos números satisfatórios, o BLH continua solicitando doações.
O trabalho tem início ainda dentro da maternidade, quando as mães recebem orientações quanto à importância do aleitamento materno e são informadas a respeito do BLH, de forma que possam estar efetuando doações caso tenham leite excedente, ou seja, quando a quantidade produzida
é suficiente para alimentar o bebê e ainda sobra.
A interessada é cadastrada e passa por uma série de exames para verificar seu estado de saúde (hemograma completo, hepatite, HIV, glicemia, sífilis, toxoplasmose e doença de chagas). Mediante resultado negativo e estando com a saúde em dia, ela recebe o material necessário para retirar o leite dos seios e armazená-lo. Uma vez por semana, um encarregado vai até a residência para buscar o alimento.
Ele é mantido congelado e, posteriormente, passa por descongelamento e pasteurização. É submetido a um rígido controle de qualidade e, em seguida, distribuído através da solicitação de um profissional de saúde.
Essa solicitação é feita pelo pediatra em diversas situações: infecção neonatal, prematuridade, distúrbios de modo geral, anemia, deficiência de anticorpos, malformações, complementação alimentar, dentre outras .
Bom para todos
A nutricionista coordenadora do BLH, Maria Nereida Panichi, 38 anos, salientou que a doação do leite excedente
é positiva para quem recebe e para quem doa. "É claro que não ocorre com todas as mulheres, mas o excesso de produção de leite pode vir a provocar ingurgitamento mamário, chegando a evoluir para uma mastite, que é um processo inflamatório responsável por um grande desconforto. Dependendo da situação, o seio pode ficar ferido a ponto de produzir pus, o que obriga a mãe, em alguns casos, a deixar de amamentar nesse período", explicou.
Além disso, segundo Nereida, quanto menos leite for retirado, menor será a produção. Por isso, conforme o tempo de duração do problema, o leite pode até secar. "A mulher fica derrubada nessas situações de inflamações", comentou.
Ela fez questão de dizer, ainda, que o anticorpo humano só pode ser obtido através do colostro (o primeiro leite produzido após o parto). "Não é possível encontrá-lo em vacinas e de nenhuma outra forma".
USP dá exemplo
O campus de Bauru da Universidade de São Paulo (USP) de Bauru dá um exemplo de valorização às funcionárias, mantendo o berçário e maternal Leite e Amor, onde os filhos das funcionárias ficam durante o expediente e podem ser amamentados duas vezes ao dia.
A coordenadora do berçário, Maria Irene Bachega, 42 anos, explicou que a lei determina que toda empresa que tenha a partir de 30 funcionárias com mais de 16 anos deve manter um local próprio para amamentação. "Além de estar de acordo com a lei, é uma medida inteligente, pois a mãe acaba não faltando no serviço e produzindo mais, já que se mantém mais tranqüila com a criança por perto. Isso sem contar que o bebê também vai adoecer menos sendo amamentado", concluiu.
Mães doam com satisfação
Um dos momentos de maior realização da mulher, dizem
"as boas línguas", é a amamentação. A cumplicidade entre mãe e filho atinge seu ponto máximo nesse instante. Compartilhar com aqueles que não podem usufruir desse prazer, segundo algumas doadoras, é uma satisfação ainda maior.
A agente de administração Claudinéia Serrano Affonço, 24 anos, é um exemplo disso. Mãe de duas crianças, uma de quase dois anos e a outra de cinco meses, ela resolveu doar leite pela primeira vez porque "tinha dó de jogar fora".
Resolveu entrar em contato com o BLH e obter maiores detalhes do processo de doação. "É muito gostoso porque, além de estar amamentando o seu, você acaba arranjando 'filhos de leite'. Às vezes dá até vontade de saber quem está recebendo. Não pretendo ter mais filhos mas, se acontecesse, certamente voltaria a doar", afirmou, feliz da vida.
Serviço
Para quem tiver interesse em doar, o BLH fica na rua Saint Martin, 26-9, Vila Santa Tereza e funciona de 2.ª a 6.ª feira, das 7 às 17 horas. O telefone é 235-1368.