Simpósio enfoca citrocultura de mesa
Simpósio enfoca citricultura de mesa
Texto: Márcia Buzalaf
A citricultura vem passando por um fase de estagnação mundial na exportação depois da expansão do ano de 97. A indústria brasileira, que absorve a maior parte da produção brasileira de frutas cítricas, vem se comportando em uma situação privilegiada, já que o citricultor não tem opção na hora de comercializar o produto. Com a baixa qualidade dos frutos e a falta de controle da época de colheita , a única alternativa do produtor é transformar a produção em suco na venda para as indústrias. A saída para este problema é investir na qualidade e da citricultura de mesa. Esta foi a proposta principal da realização do 1.º Simpósio Internacional de Fruticultura, com enfoque na produção e qualidade de frutos cítricos.
O simpósio, que começou na segunda-feira e terminou ontem, às 18 horas, no auditório da Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista
(Unesp), contou com 250 participantes de graduação, pós-graduação, pesquisadores e produtores de todo o Brasil e do exterior também. Representantes de três países fortemente desenvolvidos na citricultura
- os Estados Unidos, a Espanha e o Marrocos - ministraram palestras teórico-práticas e participaram das mesas-redondas de discussão, sempre ao final de cada dia do simpósio.
Os palestrantes, segundo um dos organizadores do simpósio, o engenheiro agrônomo doutorando, Márcio Christian S. Domingues, 25 anos, somaram informações e técnicas junto aos brasileiros durante o evento.
O enfoque na produção de frutos de mesa para aumentar a competitividade do produto no mercado nacional foi escolhido por necessidade do próprio mercado, segundo ele.
A fruta cítrica brasileira de mesa, afirma Domingues, perde em qualidade para as importadas por vários fatores, todos eles ligados à deficiência em adubação, irrigação, reguladores vegetais, controle de época de colheita e diversificação de citros.
Se visar a melhora da produção para o mercado nacional, o citricultor dispõe de técnicas ainda pouco difundidas no Brasil, como o uso de fitoreguladores, substâncias que, se usadas corretamente, podem atrasar ou adiantar a colheita da produção.
Usados com muita freqüência na Espanha, que é o maior exportador mundial de frutos de mesa, os fitoreguladores têm como mais forte característica a regulagem da
época da colheita. Quando usados dentro das condições específicas estabelecidas por um especialista, os fitoreguladores dão maior autonomia para o produtor colher seus frutos.
Os fitoreguladores também são capazes de fazer o desbaste da produção, ou seja, fazer a seleção dos frutos para que a árvore não fique carregada de frutos pequenos, que, para a comercialização direta do produto para consumo, têm pequeno poder de venda.
Domingues diz que, no simpósio, foi discutido que o Brasil, sendo o maior produtor de laranja e o maior exportador mundial de suco da fruta concentrado, precisa cada vez mais investir na diversificação do produto e na melhora da qualidade da fruta de mesa. "No Brasil, a fruta não tem padrão de qualidade para a mesa, sofre de falta de uniformidade, de qualidade, de tamanho e de diversificação", explica Domingues.
A estudante de Agronomia da Unesp e participante do simpósio, Ellen Valeska Rossetti, 22 anos, disse que as novas técnicas e experiências divididas pelos expositores são importantes para suprir as falhas da produção nacional e para disseminar técnicas ainda não desenvolvidas no Brasil.
Os outros setores da citricultura a serem desenvolvidos pelos produtores de citros, segundo Domingues, são a irrigação, a adubação e a diversificação.
O pesquisador José Orlando Figueiredo, durante o simpósio, enumerou os diversos tipos de laranja. Dentre as variedades comerciais, estão a laranja pêra, a Natal, a Valência, a Hamlin, a Washington (Baiana), a Lima, a Lima tardia, a Westin e a Rubi. Entre as novas variedades, o palestrante destaca a laranja homosassa, a João Nunes, a Seleta Vermelha, a Mangaratiba e a Rosa.
Também podem ser somados à diversificação dos tipos de laranja as características que elas podem apresentar, como o tamanho da fruta, a diminuição no número de sementes e a dilatação do período de safra.
O simpósio ainda contou com visitas técnicas um pomar de ponkã e tangor-murcote da região de Guainbê, um pomar irrigado de laranja em Itajubi, na Fazenda Morrinhos de produção de limão siciliano, em Botucatu, a fazenda Cambuí de laranja e tangerina, em Matão, e a Fazenda Ana Maria, de laranja-lima, mexerica do rio e murcote, em Porto Feliz.
O simpósio foi organizado por professores e alunos de pós-graduação da Faculdade de Ciências Agrônomicas da Unesp de Botucatu durante dois anos, que contou com o apoio de empresas privadas e de instituições científicas.
Para os organizadores do evento, as pessoas tiveram um grande interesse pelo primeiro simpósio internacional do setor na região, que superou a expectativa dos participantes e envolveu produtores e pesquisadores, nacionais e internacionais, no debate sobre o fortalecimento e a busca de qualidade da produção de citricultura brasileira. "O setor pode crescer ainda muito mais", garante Domingues.
Mercado interno
De acordo com o Food and Agriculture Organization (FAO), departamento especializado em estudos de alimentos e agricultura da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil é o primeiro produtor de frutas cítricas do mundo, com uma produção que representa cerca de 25% da produção mundial.
Em 98, o País produziu 24,138 milhões de toneladas contra 16,335 milhões de toneladas dos Estados Unidos, o segundo lugar na produção mundial.
Esta grande participação brasileira na citricultura ganhou participação no mercado e visibilidade depois da década de 60, com a instalação de indústrias de suco de laranja concentrado e congelado. Além do suco, a citricultura brasileira também oferece outros tipos de produto oriundos do processamento industrial, como o farelo de polpa cítrica e as essências cítricas.
Três críticas foram apontadas pela pesquisadora da Esalq/USP, Margarete Boteon, em texto preparado para introduzir o simpósio com base em sua tese sobre o mercado cítrico: a falta de variedade de frutas cítricas típicas de mesa; a falta de packing houses (responsável pelo beneficiamento da produção) modernos; e a falta de padronização das frutas cítricas e das embalagens.
A consolidação do mercado brasileiro de frutas cítricas foi ancorado, durante o simpósio, ao desenvolvimento da produção de frutas de mesa e ao aperfeiçoamento da forma de comercialização do produto.
Laranja mecânica
A maior parte da produção de frutas cítricas no Brasil é destinada à indústria de processamento de suco. No período de 95 a 98, 65% da produção nacional foi direcionada à indústria; 0,5% foi destinada
à exportação; e apenas 35% foi destinada ao consumo.
Na Espanha, no mesmo período, a situação
é praticamente inversa: 2% da produção de citros foi voltada para o processamento, 61% para a exportação e 29% para o consumo. Nos Estados Unidos, a indústria absorveu 72% da produção e exportou 8%.
Mundo
Produção de citros em 98, em milhões de toneladas, dos principais países produtores:
País - Laranja - Tangerina - Limão/lima Grapefruit/Pomelo
- Citros
Brasil - 22,872 - 0,750 - 0,455 - 0,062 - 24,138
EUA - 12,571 - 0,534 - 0,850 - 2,382 - 16,138
China - 2,804 - 7,218 - 0,247 - 0,253 - 11,098
México - 4,005 - 0,270 - 1,090 - 0,245 - 5,631
Espanha - 2,500 - 1,700 - 0,600 - 0,025 - 4,832
Mundo - 66,116 - 17,670 - 9,144 - 4,875 - 101,918
Fonte: Anais do 1.º Simpósio de Fruticultura, Botucatu, 1999 - dados FAO.