04 de março de 2026
Geral

Depressão

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

Depressão é resultado de desequilíbrio

Depressão é resultado do desequilíbrio

Texto: Gustavo Cândido

Ao contrário do que muitos pensam, a depressão não é uma crise passageira causada por problemas do cotidiano. É uma doença séria, que pode levar a pessoa ao suicídio aos poucos. Ela vem na seqüência de um processo. Não é difícil, encontrar pessoas em depressão hoje em dia, pelo contrário,

é cada vez maior o número de homens e mulheres, jovens e adultos, que entram neste estado desesperador, é um fenômeno mundial. Infelizmente, muitas vezes esse desespero chega a um ponto tão profundo que a idéia de tirar a própria vida passa a não ser tão ruim. E ai... A quantidade e a frequência com que os suicídios têm acontecido em várias faixas da sociedade, revelam que cada vez mais se torna difícil para o depressivo, encontrar uma ajuda. Mas o que faz com que as pessoas se entreguem de tal forma a ponto de achar que sua vida não tem mais solução? As respostas são muitas e podem ser mais simples do que se imagina. É preciso abrir os olhos...

Muitas pessoas confundem depressão com ansiedade. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A ansiedade deixa a pessoa impaciente, inquieta, enquanto a depressão a derruba e faz com que ela não tenha vontade de fazer nada, levantar da cama, trabalhar, comer, até comer. Simplesmente nada tem graça. Para o padre Boaventura Barron, a depressão

é a doença do momento. O pároco, que também

é psicólogo e pedagogo e tem experiência no trato de pessoas com distúrbios emocionais, acredita que a depressão vem como resultado de uma estafa excessiva, um esgotamento, uma desordem mental que deixa as pessoas angustiadas.

Segundo a psicóloga Maria Regina Corrêa Lopes Vanin, as causas da depressão podem ser inúmeras. Ela lembra que o ser humano é uma criatura biopsicosocial, com uma interdependência de valores e nomear uma razão apenas para o mal é difícil. Com cada pessoa tem uma formação, uma história de vida e seus próprios traumas, cada uma pode ser afetada por um fato diferente. Uma sobrecarga maior de estresse, uma perda (qualquer que seja), solidão, podem ser causas da depressão.

Mais recentemente, as mudanças da vida cotidiana e o desenvolvimento

(com seus prós e contras) tem sido também uma causa de depressão. O consumismo exagerado é um exemplo,

"o apelo materialista é muito grande, a pessoa quer comprar cada vez mais, não conseguem e entram em depressão", diz Vanin. O aumento da violência também tem feito com que as pessoas fiquem com mais medo umas das outras, se afastando e, com isso, deixando o espaço aberto para o isolamento e conseqüentemente a depressão. Uma visão pessimista do mundo também pode atrapalhar. "Ficar enxergando as coisas com se elas não tivessem solução" pode ser muito ruim para quem já tem tendência à depressão.

Modos diferentes

Todo mundo fica ocasionalmente deprimido. A tristeza é um sentimento normal. A diferença é que cada pessoa lida com seus traumas e perdas de uma maneira. A psicóloga lembra que uma pessoa pode ter uma maior tendência à depressão do que outra mas a sua história de vida também é importante, a forma com ela lida com os sentimentos, o contexto social em que vive e o sentido que a vida tem para ela.

"Um fator psicológico importante na depressão

é a repressão dos sentimentos, especialmente da raiva, que quando não é expressa se volta contra a pessoa", explica Maria Regina Vanin. A perda também precisa ser trabalhada, de acordo com a psicóloga, é preciso que as pessoas possam expressar seus sentimentos na hora da morte de um ente querido ou em um momento de dor, senão vai acumulá-lo o que vai ser pior no futuro.

Quem sofre de depressão deve procurar tratamento com psicólogos ou psiquiatras o mais rápido possível. É muito importante para o paciente e o especialista compreenderem a doença e desenvolverem formas de lidar com ela. Além disso, a ajuda da família e dos amigos é muito mais importante na recuperação do paciente.

O fim da linha

O suicídio vem como a forma de acabar com todos os problemas para o depressivo, é com se não houvesse mais alternativa alguma para a sua vida. Mais uma vez é sempre decorrente da maneira como a pessoa suporta a sua situação, já que nem todos os depressivos se matam.

"Meu filho não suportou o trauma de ter sido espancado, ficou com medo de tudo e de todos e por fim acabou tirando a própria vida", conta emocionado o comerciante Alfredo Silva (nome fictício). Segundo ele o filho, que tinha 19 anos, tinha um comportamento normal antes do assalto que foi vítima na estrada, quando voltava para casa de uma viagem. "Ele era alegre e brincalhão e perdeu completamente a vontade de viver", diz o pai do jovem que mesmo tendo passado pelas mãos de uma psicóloga conseguiu superar o trauma.

Embora a maioria das vezes o suicídio pareça uma atitude inesperada, ele sempre vem acompanhado de um histórico da pessoa, da mesma maneira que o desequilíbrio emocional. De acordo com o médico psiquiatra e psicanalista João Maurício Bolzan, a pessoa vai acumulando, desde a sua formação uterina, uma série de informações, traumas, gostos e tendências e vai ampliando esse estoque de sentimentos durante a vida com os pais, os amigos, na escola, etc. "O suicídio é uma coisa que estava lá, dentro da pessoa o tempo todo e que uma hora ela desenvolveu, existem casos que a pessoa não desenvolve", explica. Para ele, às vezes a vida gratifica a pessoa de uma maneira, que ela esquece essa tendência e vive normalmente. Quando isso não acontece, é mais fácil a depressão levar a pessoa a se matar.

Morte sem depressão

Atualmente a Igreja Católica considera o suicídio como uma fatalidade, como explica o padre Barron: "a Igreja compreende que existem situações psicológicas tão fortes que podem privar a pessoa de sua liberdade momentânea e fazer com que ela nessa hora tire a vida. Por isso em caso de suicídio o padre não condena a pessoa como uma criminosa, para chegar a essa situação ela estava completamente perturbada, não estava em si", diz. Segundo o padre

é muito difícil que a pessoa que uma pessoa que se mate tenha uma liberdade de decisão e o faça com absoluta lucidez.

Mas nem sempre o suicídio esta relacionado a um comportamento depressivo (veja o boxe sobre o livro). No Japão, por exemplo, ele é encarado como uma forma honrada de morrer. Para Bolzan, uma das causas para o suicídio não relacionada a depressão, é o fato da pessoa estabelecer para ela mesma, padrões e objetivos muito altos. Quando ela não consegue atingir esse padrão, prefere se matar a mudá-lo.

"A idéia do suicídio está sempre ligada a uma dificuldade a ser resolvida, seja ela interior ou exterior", afirma o médico.

Os principais sintomas da depressão e suas conseqüências

Isolamento do convívio familiar - O isolamento ocorre porque há perda de parte da identidade e do interesse pelas outras pessoas. Este isolamento agrava ainda mais a doença e seus sintomas.

Desinteresse pelas atividades normais - A pessoa quando está deprimida acredita que o seu desejo nunca será alcançado. Por isso perde a busca pelo ideal, pelos objetivos e pelo amor próprio, havendo pouca ou nenhuma coisa que lhe desperte o interesse.

Perda da auto-estima - O deprimido perde a autoconfiança, ficando em um estado de autodepreciação. O sentimento de culpa é um estado doloroso, no qual

a pessoa se vê como alguém que está quebrando uma regra, porém, manifesta-se de maneira hostil ou agressiva.

Concentração diminuída - O paciente perde o interesse, fica abatido e ansioso e tem dificuldade de interpretar o mundo à sua volta.

Inquietação e hostilidade - Em alguns quadros, o paciente fica inquieto, irritado e com comportamento agressivo. A apatia promove um atraso nas idéias e, como conseqüência, a pessoa se retrai socialmente. Seu estado fica confuso e tem dificuldade de tomar decisões.

Perda de interesse pelo trabalho - Quando a pessoa está deprimida, costuma se ausentar do trabalho. Muitas vezes, o motivo

é a fraqueza ou a fadiga e, como conseqüência, a atenção, a concentração e a produtividade diminuem.

O apetite é alterado - Normalmente, há um quadro significativo de perda de apetite, em algumas situações o paciente chega ao extremo de se negar a comer. Entretanto, também

é freqüente um aumento exagerado do apetite.

Diminuição do apetite sexual - Normalmente o deprimido perde o interesse e a satisfação sexual, que vêm também acompanhados da perda de esperança em relação ao futuro.

Cansaço - O humor triste, o ânimo e a energia baixos levam o deprimido a um quadro de fadiga crônica, com diminuição da força e da atividade física.

Insônia - É um quadro comum e acompanhado de dores crônicas de cabeça ou de distúrbios gastrointestinais. O quadro também pode ser o inverso: um estado de sonolência permanente, com total apatia, cansaço e lentificação.

Idéia de suicídio - O baixo rendimento no trabalho ou na escola, a tristeza, as alterações da personalidade e do comportamento, a desesperança, a agressividade, a sensação de pânico e o fato de falar constantemente na morte, podem ser sinais indicativos dos riscos de suicídio da pessoa deprimida. A intervenção deve ser imediata, tanto do ponto de vista psicoterápico quanto farmacológico.