Turismo deve enfocar viagens de negócios
Turismo deve enfocar viagens de negócios
Texto: Márcia Buzalaf
Depois de dois meses da desvalorização do real, em meados de janeiro, o setor de turismo não tem muita perspectiva de crescimento para os próximos meses. A reação inflacionária que o turismo doméstico teve com a possibilidade de ganhar mercado fez com que o sucesso das agências ficasse comprometido. Em Bauru, a queda foi ainda mais acentuada por vários fatores. Na opinião do vice-presidente do Sindicato dos Agentes de Viagens do Estado de São Paulo, conselheiro da Associação Brasileira dos Agentes de Viagens (Abav) e da Fórum das Agências de Viagens Especializadas em Contas Comerciais (Favecc) e presidente da Flytour, Eloi D'Avila de Oliveira, turismo deve caminhar para o business travel, as viagens de negócios intesificadas pelo possível investimento em exportação.
Com o dólar baixo e a possibilidade de passar um final de semana prolongado em Buenos Aires por US$ 500 dólares, os brasileiros lotaram as agências de turismo e movimentaram o setor com tanta intensividade que a prestação de serviço virou indústria do turismo, com o aumento do número de cursos superiores e de agências de viagens.
Desde o começo deste ano, os mesmos US$ 500 para conhecer a capital argentina ficou muito mais caro. O movimento no setor, segundo Oliveira, caiu 40% nas viagens internacionais e de 30% a 35% no turismo doméstico.
Em Bauru, a situação foi um pouco pior, de acordo com o diretor da Flytour de Bauru, Hugo Pinheiro Machado Neto. Ele diz que o impacto nas agências de Bauru foi muito maior do que na maioria das cidades brasileiras.
Além da situação econômica do país e a queda do poder de compra das pessoas, a incerteza política durante o início deste ano contribuíram para a queda no setor, que, se comparado ao mesmo período do ano passado, deve ter ficado na ordem de 30% a 40% em turismo internacional.
O outro fator que Machado Neto acredita ter prejudicado o setor
é o fechamento de duas agências de turismo da cidade, desde o início deste ano, sendo que uma delas deixou débito com clientes. "Os consumidores ficaram com receio", conta Machado Neto.
Já para o diretor da agência Asa Sul Turismo, Paulo Eugênio Querino, 36 anos, o próprio período do ano, chamada de "entresafra", ajudou a puxa para baixo o movimento em Bauru.
Money
Atualmente, ir ao exterior está cerca de 60% mais caro, de acordo com Oliveira. Para ele, a saída é mudar o enfoque do turismo: "tem um mercado que deixou de viajar a passeio, mas tem um mercado que começou a exportar".
A exportação, segundo Oliveira, tende a renascer com as viagens de negócios. "De abril até outubro, vão ter várias feiras no exterior", já adianta Oliveira.As operadoras e agências que viviam do turismo internacional são as que mais sofreram neste começo de ano. Oliveira diz que a recuperação delas pode ocorrer apenas no segundo semestre deste ano. "Elas não têm fôlego para investir com uma demanda muito pequena", completa.
Atualmente, a rede de turismo nacional pode ser mais bem desenvolvida. Logo após a desvalorização, os hotéis do Brasil inflacionaram os preços, justamente por terem ganho mais atenção com o enfraquecimento da moeda frente ao dólar. Agora, Oliveira diz, é hora de um ajuste para que o setor se desenvolva.
Câmbio
Logo após a desvalorização do real, a Abav apresentou a proposta de congelamento do dólar a R$ 1,70 para bilhetes internacionais aéreos. As companhias aéreas aprovaram a atitude, mas o Departamento de Aviação Civil (DAC) barrou o congelamento afirmando, primeiramente, que a associação havia passado por cima da autoridade deles.
De acordo com Oliveira, o DAC é autoridade no tráfego aéreo, não na tarifa aérea. "Qualquer interferência do DAC é cuidar de oligopólios", argumenta ele. A liberdade do preço da tarifa, segundo Querino, é importantíssima para a restruração do mercado. Atualmente, Oliveira conta, o DAC aceitou rediscutir o câmbio.
Mesmo assim, Oliveira vê com otimismo a atual situação cambial no setor de turismo. "O câmbio nunca foi R$ 1,21. Sempre foi R$ 1,70", afirma. Para ele, esta posição frente ao mercado internacional pode trazer mais investimentos ao país, tanto nas companhias aéreas quanto na rede hoteleira.
Belle Époque
O ano passado celebrou o crescimento do setor de turismo. Em 98, até o mês de abril, o movimento foi muito abaixo do que esperado, ainda com a recuperação da crise asiática. De maio a outubro, as tarifas cairam e o número de passageiros aumentou. "Isso deu a oportunidade de pessoas conhecerem o turismo", analisa. Ele diz que apenas 5% da população brasileira, assim como a indiana e a chinesa, tem acesso a viagens de turismo.
O grande propósito da guerra tarifária do ano passado, segundo Oliveira, foi o aumento nas viagens de negócios.
"Aquele que antes viajava de ônibus começou a viajar de avião".
De acordo com Oliveira, a popularização do turismo, em todos os setores, não fez com que a receita das agências crescesse proporcionalmente. Um exemplo: o aumento do número de passageiros nos vôos domésticos em 98 foi de 42%, em contraposição ao aumento no faturamento das companhias aéreas e agências de turismo, que foi de apenas 2%.
"Isso significa que a gente conquistou novos consumidores", afirma.
Investimentos
Os investimentos no turismo durante o período de valorização do real foram altíssimos. Segundo Oliveira, as companhias aéreas formam as que mais investiram. Ele fornece alguns exemplos: a Vasp trouxe 13 aviões novos nos últimos cinco anos (MD 11), a TAM trouxe o Air Bus para vôos nacionais, a própria Varig comprou MD 11 novos no ano passado e a TransBrasil mudou a filosofia e voltou-se ao mercado.
Neste primeiros meses do ano, todas as companhias aéreas fizeram um remanejamento na rota dos vôos, cancelando rotas na Europa, África e algumas nos Estados Unidos. "Não adianta manter as rotas e ficar de fora do mercado", completa.
O investimento nos aeroportos brasileiros, segundo Oliveira, é muito pequeno. Nos últimos dez anos, foram construídos dois aeroportos no território nacional, sendo que este investimento deveria ser feito anualmente.
Internamente
Para Machado Neto e Querino, o movimento de turismo de Bauru deve se recuperar em breve.
A proximidade com a Semana Santa, o planejamento das férias de julho e a volta dos estudantes, e as viagens de formaturas, são alguns dos fatores que poderão contribuir para ajudar a reviver o movimento.
Para Machado Neto, a entrada da empresa aérea InterBrasil em Bauru, fazendo vôos com conexão para Cumbica. A TAM só fazia rota para o aeroporto de Congonhas, o que dificultava as condições das viagens internacionais.