Fungo mortal é identificado em 80% de tatus na região
Fungo mortal é identificado em 80% de tatus na região
Botucatu- Conhecer os locais e formas de ocorrência no ambiente do Paracoccidiodes brasiliensis, fungo causador da doença conhecida popularmente como micose do capim,
é ainda um dos desafios para ciência. O professor Instituto de Biociências de Botucatu, Eduardo Bagagli, acaba de relatar que de 15 tatus-galinha da região de Botucatu estudados, em 10 foi isolado o fungo Paracoccidiodes brasiliensis. Em média 80% dos animais recolhidos em áreas próximas as cidades de Botucatu, Manduri, Pardinho e Manduri estavam contaminados pelo fungo.
"A dificuldade de isolamento ambiental deste fungo, a falta de surtos epidemiológicos, o prolongado período de latência da
doença e as frequentes migrações das populações das áreas endêmicas tornam-se praticamente impossível identificar o local exato onde a infecção foi adquirida", relata Bagagli, o segundo a identificar o fungo em tatus.
Deste fungo, ainda não se sabe ao certo, como ele é adquirido pelo homem. Antes se acreditava que a contaminação era apenas pelo ar, através da inalação de pequenos fragmentos do fungo que atingia os pulmões. Agora, já se começa a pensar
na possibilidade da contaminação pela manipulação ou pela pela ingestão da carne de animais contaminados já que alguns
doentes comeram carne de tatu.
Os fungos foram encontrados no fígado, basso e intestinos dos animais avaliados. O achado não apenas serve como um alerta para as pessoas que costumam comer carne de tatu, apesar de proibida a sua caça, mas também como indicador de uma área endêmica da doença. "O tatu pode atuar como sinalizador epidemiológico dos locais de ocorrência do patógeno", diz o pesquisador.
Bagagli considera remota a contaminação através da carne de animais, já que o fungo é sensível
à fervura e à fritura. "A inalação de partículas fúngicas provavelmente presentes nos restos de fezes e urina do animal, misturados com solos da toca do tatu, talvez seja a fonte mais importante de infecção", afirma.
Caso o fungo for inalado ou ingerido pode causar uma micose sistêmica e atingir vários órgãos, chegando a ser fatal em muitos casos.
Contaminação
O fungo pode ficar latente até 40 anos, dependendo do seu grau de agressividade e do sistema imunológico da pessoa contaminada. "A infecção primária é pulmonar, seguido de disseminação sistêmica para outras partes do corpo, incluindo lesões na região da boca, de onde surgiu a falsa idéia de que a contaminação ocorre pelo hábito de mastigar vegetais, levando à denominação popular de micose-do-capim", relata.
A doença acomete principalmente trabalhadores rurais ou pessoas que têm contatos regulares com solos e plantas. Entre os países de maior incidência da micose provocado pelo fungo estão o Brasil, Argentina, Colômbia e Venezuela.
Botucatu se tornou referência internacional no estudo da paracoccidioide micose devido aos constantes casos, em sua maioria de trabalhadores rurais, atendidos no Hospital das Clínicas da Unesp. Pesquisadores japoneses da Universidade de Chiba, participantes deste trabalho, começaram a se interessar pelo fungo devido ao risco de contaminação através da migração de descendentes na região para o Japão.
O trabalho de Bagagli foi publicado pela Revista da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene no ano passado. No próximo passo do estudo está sendo feita a identificação do fungo em tocas de tatus através da amplificação do DNA do paracoccidioido micoses por biologia molecular, utilizando o PCR. "Podemos esclarecer mais sobre o papel dos tatus e seu ambiente como reservatório do fungo e assim indicar sítios de ocorrência e as fontes de infecção natural para o homem", conclui. "Para depois adotar medidas de prevenção".