08 de julho de 2026
Geral

Câncer infantil

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 6 min

Câncer infantil já tem 70% de cura

Câncer infantil já tem 70% de cura

Texto: Fábio Grellet

Oncologista pediátrico afirma que integração entre centros de tratamento permite índices de cura cada vez maiores

Jaú - O câncer infantil - que é uma das principais causas de mortalidade infantil no Estado de São Paulo - já é curado, em média, em 70% dos casos.

É o que afirma Marcos Augusto Mauad, oncologista pediátrico do Hospital Amaral Carvalho, de Jaú.

Ele destacou que há várias espécies de câncer, e que os índices de cura variam de acordo com o tipo desenvolvido.

Entre as crianças, os tipos mais comuns são leucemias

(que abrangem aproximadamente 30% dos casos), linfomas (entre 18 e 20% dos casos), tumores no sistema nervoso central (20%) e, ainda: tumores de rim (6%), neuroblastoma (6%), tumores ósseos

(4%) e outros, mais raros - que, juntos, são responsáveis pelo restante dos casos.

Até a década de 60, o objetivo do tratamento era a erradicação do tumor. Para tanto, eram usadas técnicas cirúrgicas agressivas, e a radioterapia e quimioterapia eram recursos utilizados de forma bastante intensa. Em razão disso, mesmo para as pessoas que obtinham a cura, restavam sequelas bastante incômodas, como a ausência de membros, amputados, e a esterilidade. Nesse período, o tratamento era desenvolvido exclusivamente sob responsabilidade do especialista em câncer.

Entre o final dos anos 70 e início dos 80, surgiu um novo conceito de tratamento, que buscava a cura impondo o menor número de sequelas possível. O tratamento passou a ser regido pela multidisciplinariedade: o envolvimento de médicos e paramédicos permitiu o aprimoramento do atendimento ao doente. Cirurgiões, oncologistas, radioterapeutas, nutricionistas e psicólogos, entre outros, passaram a ser responsáveis, em conjunto, pela assistência ao paciente, cuja qualidade de vida sofreu considerável evolução. Foi nesse período que o índice de cura começou a evoluir, chegando ao estágio atual de 70% dos casos.

Atualmente, o tratamento do câncer infantil sofre nova evolução: até há algum tempo, ele era restrito ao ambiente hospitalar. Hoje, busca-se realizar o tratamento sem afetar a vida social do paciente. O objetivo é impedir que sua condição de saúde interfira em seu desempenho escolar e que o paciente seja constantemente tratado, em casa, pelos próprios familiares, como um doente. Segundo Mauad, o médico deve ter a consciência de que é incorreto afastar o paciente de suas atividades sociais, para tratá-lo. Isso porque, quando ele se cura, pode ter perdido as referências necessárias ao desenvolvimento normal de suas atividades. No caso das crianças, o afastamento da escola é um dos maiores problemas: se o indivíduo em tratamento deixa de freqüenta-la durante alguns anos (o período eventualmente necessário para o tratamento), submete-se à hipótese de se afastar de seu círculo habitual de amizades e pode ter dificuldade em retomar os estudos. Mauad destaca que o aumento do índice de cura acentuou essa discussão, já que a maioria das crianças se cura, mas a medicina deve lhe proporcionar, também, condições de se manter integrado ao seu ambiente social - para que, quando curado, ela não tenha perdido as referências.

Com os novos avanços, segundo Mauad, pretende-se, também, aumentar ainda mais o índice de cura. A previsão para os próximos anos é que se atinja 80% de cura.

Diagnóstico precoce

Os bons resultados do tratamento, segundo Mauad, dependem também do diagnóstico precoce da doença. Como o câncer

é raro entre crianças (atinge aproximadamente 2% delas), o pediatra pode não perceber logo de início o problema. Por isso, Mauad recomenda a máxima atenção aos sinais que podem indicar o desenvolvimento do câncer. Os sintomas são diversos, e cabe ao pediatra vislumbrar a hipótese do desenvolvimento da doença, sempre que surgir qualquer deles. Mas Mauad ressalta que o alto índice de cura, em nossa região, se deve, inclusive, ao bom trabalho dos pediatras, que têm detectado a doença com precocidade satisfatória.

Outro aspecto que facilita o combate ao câncer infantil em nossa região é a integração entre os diversos centros médicos de referência. Não há cidades grandes na região, mas aquelas de porte médio - quais sejam, Jaú, Bauru e Botucatu -, reunidas, oferecem condições de tratamento satisfatórias para qualquer espécie de câncer. Além da disponibilização de equipamentos adequados, a integração envolve também os médicos que tratam da doença: dois exemplos são Maura Rosane Valério Ikome, oncologista pediatra em Bauru e médica responsável pelo laboratório de citometria de fluxo do Hemocentro do hospital da Faculdade de Medicina de Botucatu, e Antônio Marcos Rodrigues, que divide seu trabalho entre os três principais centros médicos da região: é cirurgião pediátrico do Hospital da Unesp, em Botucatu, do Hospital de Base de Bauru e, ainda, do Hospital Amaral Carvalho, em Jaú. A integração entre as cidades permitiu que o combate ao câncer infantil atingisse o atual índice de excelência.

Mauad destaca, porém, que não é possível acomodar-se, ainda diante dos bons resultados atuais: "para 30% das crianças, o tratamento não resolve e o índice de cura é zero. Por isso, é preciso lutar sempre, para que as chances sejam estendidas a uma quantia cada vez maior de crianças".

Embora incida sobre um número pequeno de crianças, o câncer é uma das principais causas de morte, já que a maioria das demais doenças infantis são curadas de forma mais fácil. Assim, conforme Mauad, quanto maior o desenvolvimento de uma região, mais o câncer se destaca como causa de morte na infância, já que a maioria das demais doenças é combatida mais facilmente. Em regiões menos desenvolvidas, os maiores responsáveis pela mortalidade infantil são problemas como a diarréia, por exemplo.

A duração do tratamento do câncer varia conforme sua espécie: há tipos cujo combate demora apenas quatro meses, mas outros exigem até três anos - como

é o caso da leucemia, o tipo mais freqüente entre crianças. Também a necessidade de internação varia conforme a espécie de câncer e o estágio de tratamento: alguns exigem internação, enquanto, em outros casos, a presença no hospital pode ser reduzida para um visita semanal ou quinzenal.

As crianças que se submetem a tratamento no Hospital Amaral Carvalho, de Jaú, encontram diversas opções de entretenimento, durante o período em que permanecem no hospital: a terapeuta ocupacional Márcia Boletti Pengo coordena uma equipe responsável por organizar atividades de recreação, que permitem às crianças observar de forma lúdica o tratamento da doença. E faz com que elas guardem também lembranças alegres de um período difícil que, cada vez mais, significa apenas a primeira vitória diante das dificuldades impostas pela vida.

Jovem é exemplo de sucesso no tratamento

Luiz Henrique Ewbank Macário tem 23 anos e formou-se em Direito ao final do ano passado. Apresenta boa saúde e disposição para o trabalho e a prática de esportes. Quem o observa não imagina que, há oito anos, Macário foi acometido pela osteossarcoma, espécie de câncer que, até meados dos anos 70, exigia a amputação da perna do paciente. Usufruindo das novas técnicas, porém, o jovem - então com 15 anos - submeteu-se a uma cirurgia em que se retirou o tumor e, em lugar de um osso de uma de suas pernas, foi inserida uma prótese.

O tratamento de Macário estendeu-se por um ano: o problema foi detectado em outubro de 1990; a cirurgia ocorreu em março de 1991 e o tratamento terminou em outubro daquele ano. Hoje, Macário submete-se a exames anuais, mas considera sua presença no hospital meras visitas aos médicos que permitiram a ele conduzir sua vida da melhor forma, perante uma doença que ainda apavora.