17 de março de 2026
Geral

Artes plásticas

Marcos Zibordi
| Tempo de leitura: 6 min

Barra Bonita mostra a arte censurada

Barra Bonita mostra a arte censurada

Texto: Marcos Zibordi

Artistas plásticos tiveram sete obras censuradas em Campinas no ano passado. Trabalho tem cunho ecológico e social.

Barra Bonita - Júlia Arantes e Sérgio Ferraz, respectivamente 39 e 48 anos, são os dois artistas plásticos barrabonitenses responsáveis pela 1 ª Mostra de Arte Gouche na Casa da Cultura. A exposição tem cerca de 50 trabalhos, entre objetos de arte, instalações e telas, além das sete obras que foram censuradas em Campinas no ano passado, dada à "agressividade" com que tratam seus temas preferidos: drama social e destruição da ecologia.

A mostra está causando opiniões diversas na cidade, desde o simples "não entendi" até a clássica

"isso não é arte". Até uma certa

"censura velada" está ocorrendo. O evento, que fazia parte do calendário oficial do aniversário de Barra Bonita, não teve o prestígio necessário, sendo menos divulgada que a mostra "Revendo Michelangelo", também incluída no calendário oficial de comemorações, e que está ocorrendo no Shopping da cidade.

O trabalho da dupla surgiu em 97, quando os artistas resolveram juntar suas atividades. Sérgio é chargista, jornalista e escritor de histórias em quadrinhos, com dois livros publicados. Júlia teve formação clássica em pintura, e estava começando nas artes plásticas com material alternativo de garrafas "pet" quando se conheceram. "Ela que foi o pai da cria, ela me levou para tela. Aí criamos a obra com ecologia na cabeça, com essa idéia de defesa do meio ambiente. Com o espírito conturbado, começamos a sentir os problemas sociais e começamos fazer arte com isso também", diz Sérgio.

A palavra "Gauche", que dá nome à exposição, não é nova na nossa história da arte. Drummond foi quem primeiro a cunhou no poema "quando eu nasci um anjo torto disse (...) vai Carlos, vai ser Gauche na vida". Depois Chico Buarque ("quando eu nasci veio um anjo safado, um chato dum querubim") revisitou o poema, seguido por Torquato Neto em "Let's Play That" ("quando eu nasci um anjo torto, um anjo louco, veio ler a minha mão"). "Gauche", do francês, quer dizer torto, marginal, à esquerda.

Agora chegou a vez de Julia e Sérgio experimentarem o gosto da expressão. Como diz o informe da mostra, "Apoio Cultural: nenhuma pessoa física ou jurídica". Os trabalhos vão de telas com colagem fotográfica ao quadro "Independência", que faz uma releitura do clássico em óleo com Dom Pedro empunhando uma latinha de Coca-Cola ao invés da espada. Tem ainda "Status", com a foto dos artistas de óculos-escuros (ao estilo ET e Rodolfo) emoldurados numa tampa de privada. A mostra também conta com uma instalação chamada "Eclesiastes 5:14", com direito a vela, caixão e tela gigante que representa alguém "desencarnando". Os materiais usados são os recicláveis mais diversos trabalhados com o clássico das telas, numa mistura que dá a dimensão do quando os artistas não têm "pudor" ao juntá-los. "A nossa idéia não é agredir nem mostrar uma beleza estética. Pode colocar como anti-arte, qualquer coisa, não tem problema".

Na galeria de heróis nacionais da dupla, retratos de Lampião, Filipe dos Santos (um dos primeiros inconfidentes) e Chico Mendes.

Censuras

Após exposições em Bauru (final de 97) e Americana, surgiu o convite para Campinas, patrocinada por um Banco da cidade, em 98. O que seria um grande passo para os artistas acabou se tornando uma decepção. "Deram o espaço vip para gente depois foi essa cacetada. Colocamos tudo, demos entrevista para televisão, chamou atenção, estava tudo esquematizado. 15 dias depois eu voltei lá e tomei o maior susto. Teve um pessoal vip da vida que pediu para tirar o trabalho porque era muito agressivo. Deu uma prejudicada na nossa exposição", conta Sérgio.

No entanto o incidente acabou despertando o interesse pelo trabalho da dupla, principalmente da mídia. "Depois veio o troco. O pessoal daqui ficou sabendo, já veio fazer matéria com a gente. Santa Bárbara do Oeste ficou sabendo e queria que levássemos o material censurado para lá. Uma escola nos convidou para fazer palestra sobre censura e problemas sociais. Um ato imbecil acabou sendo melhor para gente", conta Sérgio.

Mas além das barreiras institucionais, os artistas esbarram no problema da falta de apoio, que impede a realização de novos trabalhos e novas exposições, cujos convites de outras cidades já existem, mas a dupla não tem como se deslocar até lá. "A visão de cultura que se tem é um desastre", dizem.

Segundo Domingas Perea, Diretora do Departamento Municipal de Cultura, "nós estamos com uma exposição muito diferente agora. E esse impacto vem das mais variadas formas. Tem causado um certo desconforto em alguns, se revelado completamente diferente de todas as outras exposições que são calmas, plácidas, as pessoas olham as pinceladas, um motivo mais decorativo. Esse não tem nada de decorativo, é realmente um trabalho para se refletir".

Segundo a diretora, a reação do público tem sido muito pessoal, o que combinada com a visão dos artistas,

"dão as mais diversas respostas. Isso é interessante porque o público vem e interage, o que é diferente quando tem um estilo que as pessoas passam, olham, acham bonito, mas não têm essa interação".

Crítica aos críticos

"A crítica ao crítico existe porque o cara vai lá, bota um preguinho aqui, faz um risquinho ali e chama de arte moderna, conceitual, meu eu, meu universo vazio", ironiza Sérgio.

Esse ponto de vista é resultado da vivência na arte e na vida da dupla que não quer, não parece e nem alimenta o status do artista do outro mundo, que é capaz de conhecer todos os grandes mestres, citá-los e reconhecê-los, mas não se sensibiliza com a miséria do seu povo, com a destruição do seu lugar.

A postura de Sérgio e Júlia é a de quem quer discutir, mostrar e se expressar, tendo como meio as telas, as tintas e os recicláveis, sem entrar nas discussões sobre arte, que já vem de longe e não parecem ter fim. "É o não objeto, da não arte, do não espaço de tempo, do não sujeito, do não artista. Então a gente fica se sentindo um perfeito imbecil", ironiza Júlia, sorrindo.

Para Sérgio, seu trabalho é até óbvio, podendo ser visto e entendido por qualquer pessoa que pode ter qualquer interpretação, mas que "sinta" o trabalho.

Como dizia Torquato Neto numa das releituras do "Gouche"

à brasileira, esse é o preço que se paga por quem "vai desafinar o coro dos contentes". Por isso o trabalho de Sérgio e Júlia merece ser visto sem preconceitos. Não por se tratar de anti-arte, arte pop ou contemporânea. É arte para pensar, provocar, discutir.

A exposição fica aberta até o dia 5, inclusive nos finais de semana, na Casa da Cultura.