Democracia paraguaia em coma
Democracia paraguaia em coma
B. Requena é editor de Internacional do JC
Os últimos acontecimentos em terras paraguaias vêm dar uma inequívoca demonstração de que a fragilidade da democracia na América Latina é uma realidade. No domingo à noite, o presidente do Paraguai, Raúl Cubas, renunciou ao seu mandato. Dois dias antes, o general Lino Oviedo, um dos responsabilizados pela crítica situação vivida pelo país, fugiu aparecendo só ontem, na Argentina, onde solicitou asilo político. E menos de uma semana antes que tudo isso acontecesse, o vice-presidente Luis María Argaña era assassinado. E os dois maiores suspeitos de ter encomendado o crime? Cubas e Oviedo.
"Não parto por ser corrupto ou ladrão. Vou porque minha saída serve para pacificar o País neste momento tão delicado", disse o até então presidente Raúl Cubas, no momento em que anunciava a sua renúncia, na noite de domingo.
Raúl Cubas chegou ao poder no rastro do que seria a eleição da candidatura vitoriosa do próprio general Lino Oviedo, acusado de tentativa de golpe durante o governo do ex-presidente Juan Carlos Wasmosy. Impedido à última hora por estar atrás das grades, o militar trocou as honras de chefiar o Estado guarani com o seu vice, que foi eleito e empossado. Mas se o vice de Oviedo (Raúl Cubas) era seu aliado em quaisquer circunstâncias - sua primeira medida foi determinar a libertação do amigo - o presidente Cubas acabou ficando com um vice que não era seu aliado e cujo nome nasceu das conveniências de momento.
Oriundo do Poder Judiciário, Argaña vinha exercendo forte oposição e cobranças sobre o chefe da nação, pedindo a prisão de Oviedo como principal bandeira. O fato de seus assassinos estarem vestidos com trajes militares gera um questionamento que não tem saída enquanto os criminosos não forem presos. Se fossem militares não estariam assim trajados - diriam alguns. São civis e assim estavam para complicar Oviedo - garantem outros. Eram militares e assim aparentavam para usar com tranqüilidade os dois primeiros argumentos - justifica uma terceira opinião.
Depois de Argaña, mais quatro jovens foram mortos nos confrontos com policiais e forças do governo. Eles faziam parte da multidão que exigia o impeachment de Cubas. O Paraguai, que por várias décadas foi governado pelo ditador Alfredo Stroessner, hoje exilado no Brasil, tem uma história de golpes e outros atentados à democracia. E corre o risco de continuar reeditando os seus piores momentos. Para os seus vizinhos, dentro dessa conjuntura está o risco que corre um dos quatro pilares do Mercosul.
Façamos torcida para que, com a posse do presidente do Congresso no comando da nação, Luiz González Macchi, também tenha chegado o momento final da recaída. Enquanto isso não se efetivar como uma certeza, sangra a nação, sangra a democracia. (B. Requena)