08 de julho de 2026
Geral

Desemrpego

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 5 min

TecnologiaXglobalizaçãoXdesemprego: eixo sustentável

Tecnologia X globalização X desemprego: eixo sustentável

Texto: Márcia Buzalaf

Na segunda reportagem desta série sobre o desemprego, uma abordagem positivista a respeito da ligação entre tecnologia , globalização e desemprego. O lugar comum das habituais críticas ao fenômeno podem ser analisadas com mais profundidade e instinto de sobrevivência durante esta transformação irreversível. Para o professor de economia da Unesp e da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Jacques Vervier, a geração de novos produtos é a chave para o bom caminho que o processo tecnológico pode seguir. Dessa forma, a trilogia entre tecnologia, globalização e desemprego se torna, ao menos, sustentável.

Para o professor, não há uma relação unilateral entre desemprego e desenvolvimento tecnológico. Se a tecnologia fosse sempre a causa principal do desemprego, nos países mais tecnologicamente desenvolvidos é que seriam detectadas as maiores taxas de desemprego. A realidade diz diferente: nos países mais atrasados tecnologicamente

é que existem os maiores índices de desemprego.

Na verdade, para o professor, a relação entre desemprego e tecnologia - e, conseqüentemente, globalização

- depende de onde incide este progresso tecnológico. "Se você substitui um bóia fria por uma colhedeira automática, você vai desempregar milhões de trabalhadores", ele defende.

Mas, se você usa a tecnologia para desenvolver os fertilizantes, você vai aumentar a renda de todos os que estão ligados nesta cadeia de produção", explica Vervier. Esta premissa significa que, quando você introduz o progresso tecnológico em produtos totalmente novos, não há aumento do desemprego, mas, sim, um aumento do saldo de trabalho.

Na contramão, quando o progresso tecnológico é introduzido em atividades que já existem, normalmente, ele causa elevação do desemprego. "Se você coloca o robô na construção de carros, são 80 desempregados", ele defende.

Mundializados

Para Vervier, a globalização sofre da mesma descrença e repúdio do desenvolvimento tecnológico. "Atualmente, a globalização tem sido visto como uma coisa satanizada. Precisa se tomar cuidado com verdades tão supremas assim", alerta o professor.

Para ele, a melhor definição de globalização

é "a relação do tempo e do espaço nas relações humanas". O conceito engloba, inclusive, as relação econômicas, mas não de forma exclusiva.

Definida desta forma, a globalização é, primeiramente, um fenômeno tecnológico: o que reduz o tempo e o espaço é a tecnologia. "Nesse sentido, a globalização

é um bem", ele diz.

O professor conta que, em um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI), que se propôs a verificar as conseqüências da globalização no mundo em geral, percebeu-se que a reação ao fenômeno não é a mesma em todos os lugares do mundo.

Nos países ricos onde o trabalho é pouco regulamentado, como os Estados Unidos, a Nova Zelândia e a Austrália, a globalização não elevou o desemprego, mas causou uma maior desigualdade social. "Piorou a distribuição da renda, mas não aumentou o desemprego", completa.

Já nos países ricos com mais rígidas regulamentações trabalhistas, como o Mercado Comum Europeu, o desemprego coincidiu com a globalização. Assim como na América Latina, onde a globalização coincidiu com uma piora na distribuição da renda e, também, com o fim da inflação. Vervier diz que os dois fenômenos apresentaram efeitos diferentes no País: a globalização teve efeito negativo, mas que foi parcialmente compensado pelo positivo fim da inflação.

Salvo a época de intensa crise financeira, pode-se dizer que os Tigres Asiáticos e a China foram positivamente beneficiados pelo desenvolvimento tecnológico. "Eles aproveitaram a globalização para crescer e redistribuir melhor as riquezas", completa.

Beneficiadores

Vervier conta que, quando ele estava na Bélgica, no final do ano passado, ele assistiu a um fato que teve uma repercussão completamente diferente no Brasil. A montadora francesa Renault fechou uma fábrica em uma cidade perto de Bruxelas, demitindo 2.500 operários de uma só vez. Na mesma época, estava sendo aberta a montadora da Renault em Curitiba, empregando diretamente 3 mil funcionários. "Os sindicatos belgas falaram: nós somos as vítimas da globalização, subentendendo-se que o Brasil levou vantagem", contou Vervier.

No Brasil, a revolta dos belgas foi retratada pelos grandes meios de comunicação de forma tímida, quase despercebida. Em contraposição, até mesmo o presidente Fernando Henrique Cardoso compareceu para a destacada inauguração da fábrica na capital paranaense.

Vervier não acredita na idéia de que a tecnologia possa ser controlada. Para ele, o acaso no progresso tecnológico e científico é enorme e imprevisível. "Flemming descobriu os antibióticos por acaso", exemplifica o professor quando diz que não há formas de guiar o bonde deste progresso. "A saída é tentar potencializar os aspectos positivos e remediar os negativos", defende o professor.

"Tudo leva a crer que o progresso tecnológico eliminará cada vez mais o trabalho humano, que todo o esforço físico e parte do esforço intelectual poderão ser delegados a máquinas e que ao homem restará só o monopólio das atividades criativas. (...) Para nós, homens pós-industriais, há uma terceira alternativa. Sísifo vai construir um mecanismo eletrônico ao qual delegará a canseira do transporte inútil e banal e se sentará no alto do morro para contemplar o seu robô em função, saboreando enfim a felicidade do ócio prazeroso."

(Domenico de Masi - 1993)

"Mesmo que haja um custo de transição a curto prazo para os países em desenvolvimento na medida em que eles adotam políticas voltadas mais para a liberalização, a globalização providencia esperança de uma significante redução na pobreza a longo prazo através de sua contribuição para o crescimento econômico, produtivo e de consumo."

(Em "Globalização e Liberação: efeitos das relações internacionais na pobreza", estudo publicado pelas Organização das Nações Unidas - ONU, 1996).

"E esse interessante quadrúpede olhava para o bonde com um olhar cheio de saudade e humilhação. Talvez remomerava a lenta do burro, expelido de toda a parte pelo vapor, como o vapor o há de ser pelo balão, e o balão pela eletricidade, a eletricidade por uma força nova, que levará de vez este grande trem do mundo até a estação terminal."

("Progresso", de Machado de Assis - 15/3/1877)