Contador de causo é historiador oral
Lendas do Tietê sobrevivem em Barra Bonita
Texto: Marcos Zibordi
Últimos contadores de histórias, lendas e mitos das barrancas dos rios guardam registro oral do tempo
Barra Bonita - Imagine-se numa noite do começo do século, sentado na barranca do rio Tietê, à beira de uma fogueira. Estão reunidos alguns pescadores, navegantes, sertanistas, missionários, soldados e romeiros. Violeiros e cachaceiros muito distintos completam a reunião. Entre a mata e o rio, as histórias começam surgir naturalmente, relatadas de maneira calma e envolvente. Um fala do Ser com os pés virados para trás que fazia os caçadores perderem o caminho, outro conta do menino que virava o barcos dos pescadores, algumas modas de viola e mais
"causos". O que era frequente naquele tempo, um fato corriqueiro e quase comum, perdeu-se com registro da história oficial, no que foi escrito, mostrado e divulgado. Mas, assim como um bom "causo" sobrevive aos tempos, alguns desses homens ainda podem ser encontrados, mascando fumo de corda e contando seus "causos", relatos que hoje parecem fantásticos mas que eram ingredientes e suporte imprescindíveis daquela realidade.
Em Barra Bonita, na casa simples de um núcleo habitacional, encontramos "Seu Dema", Ademar Roberto Silva, 59 anos e dois livros publicados só com as lendas folclóricas da beira do rio Tietê. Filho de navegador dos antigos "vapores" que fizeram a colonização do interior, Dema também viveu sua vida no rio. As histórias que ouviu de seus pais, de amigos de uma vida inteira e dos que ainda estão vivos, foram relatadas nos livros que escreveu.
Quem viveu aquelas histórias tem a incrível capacidade de contá-las como se fossem reais, deixando os expectadores mais novos com leve ar de desconfiança, pensando se aquilo aconteceu mesmo. Mas não é isso que importa. A realidade factual desses relatos é bem menos importante do que o extrato cultural, folclórico e religioso que contém. Mais. O registro do tempo, ao modo dos contadores de histórias,
é um tesouro que se perdeu no dia-a-dia, no ritmo da degradação que sofre o rio. Hoje são poucos contadores de histórias de um Tietê que inspirava muito mais. "Seu Dema" sabe disso. "Todas as histórias são contadas pelo pessoal da navegação, contadas pelos caboclos de beira de rio, principalmente de Salesópolis, Mogi das Cruzes, Piracicaba, essas pessoas que sempre viveram em barrancas".
Os vapores
O canal de toda a comunicação oral daquela época era o rio. O Tiête foi o grande corredor que trouxe o desenvolvimento para a região. As embarcações eram chamadas de "vapores", barcos que traziam os homens e os mantimentos para o interior e daqui levavam a cada dia um pouco mais da nossa riqueza.
"Como todos os caboclos eu vim pegado a laço, que nasce na mão de uma parteira ribeirinha. Então minha vida sempre foi relacionada com o rio Tietê desde meus pais. Meu pai era navegante da antiga navegação a vapor, do vapor Souza Queiros, propriedade da estrada de Ferro Sorocabana. O trasporte fluvial era de Porto Martins, Barra Bonita, Porto Eliseu e Porto Ribeiro, que era o último porto. Nesse transporte vinham todos os cereais das grandes fazendas, como o café, o arroz e o milho", lembra "seu Dema", completando que em Barra Bonita ficava o porto central.
Os vapores levavam os gêneros de Barra Bonita até Porto Martins, onde existia o ramal da estrada de ferro Sorocabana que vinha de Botucatu. De Botucatu os vapores voltavam com outras materias para Barra Bonita para serem distribuídos na região. Seu "Dema", nascido no ano em que a Segunda Guerra Mundial eclodiu, começou cedo nos vapores, junto com seu pai, aos cinco anos de idade. "Gravei na memória todas essas passagens da navegação a vapor".
Sua vida, mesmo em outros empregos, sempre esteve ligada ao rio Tietê. Com isso, o contato constante com os caboclos e todas as pessoas envolvidas com o rio, foram deixando marcas e histórias na memória de "Seu Dema". "Sempre ligado ao rio pela navegação a vapor, pelas grandes pescarias que existiam no Tietê, que naquela época era um rio muito piscoso. Tinha todas essas lendas, como a do Caboclinho D'água, a principal do Tietê, a da Mula sem Cabeça".
"Causos"
Entre as lendas mais conhecidas está a da mula sem cabeça. Com variações em cada região onde é contada mantém, pelo menos, a fidelidade com a figura de uma mula soltando fogo onde deveria existir sua cabeça. A versão de "Seu Dema" é a seguinte: "A mula sem cabeça era uma mulher comcubina de um padre. Todas as comcubinas de padre têm a praga de virar mula sem cabeça. Então nessa região tinha uma moça com o nome de Janete. Ela tinha vindo do Rio Grande do Sul porque já tinha tido um caso com um padre. Então eles vieram para a região de Barra Bonita. A moça era muito fogosa e namorava o filho de um carreiro. Ela namorava esse rapaz mais tinha sempre um comportamento estranho, até que ela adoeceu. E numa Festa do Divino o pai da moça, que era o Capitão do Mastro, aquele que cuida do levantamento do Mastro da Bandeira do Divino, não compareceu. Com muita demora ele veio e chamou um dos agregados da fazenda para socorrer a filha dele, que ela não estava passando bem. O homem chegou lá e já viu que havia algo estranho. O Curador chamou o namorado de lado e falou olha, não é bom você ficar namorando essa moça que ela deve ser a mula sem cabeça. Ele fez os benzimentos dele com galho de arruda, água benta, e ela cada vez mais agitada, sempre falando palavrão. Como não deu jeito na situação dela, cada vez piorava mais, uma dia eles resolveram ir para Barra Bonita pegar um curandeiro muito famoso que existia para ver a moça. Eles estavam caminhando pela estrada e já era noite. De repente me aparece aquela mula, soltando fogo pelo pescoço sem cabeça, relinchando, dando coice. Aí o curandeiro pegou um punhal e cravou no peito dessa mula que relinchou e saiu em disparada. Eles pegaram aquele medo e foram embora. Chegando na casa da moça doente, chamou, chamou e ninguém atendeu. Aí eles foram para o fundo do quintal e viram o piquete onde ficava o burro da família preso, e ele estava arrombado. O casal de velhos, pai da moça, estava todo pisoteado no chão, agonizante. E a moça estava com o punhal que o curandeiro tinha cravado no peito dela, agonizando também". Segundo "Seu Dema", essa lenda surgiu na região em 1935.
Sobre as lendas e crenças, benzimentos com ervas e aparição de assombrações, "Seu Dema" diz que "acredito porque estou vivo". Ele diz que quando vivia nas barrancas não existiam médicos, mas grandes epidemias já maltratavam a população, como a maleita e a febre tifóide. "Então os médicos nossos eram as rezadeiras, as fomosas benzedeiras. Elas usavam as ervas para seus benzimentos, muita água com o carvão para curar lombriga, a coqueluche, que é a tosse comprida, que hoje não existe mais, era curada com os bichinhos que viviam debaixo da pedra, os 'tatuzinhos'. Então fazia um rosário daqueles 'tatuzinhos' e punha no pescoço das crianças e fazia os benzimentos".
"Seu Dema" relaciona os causos fantásticos de assombrações aos grandes crimes praticados por psicopatas.
"Muitas dessas superstições, eu as associo com esses grandes crimes praticados por psicopatas, que ficaram sem testemunhas. Duas ou três pessoas viram e eles acreditavam que alguma entidade sobrenatural havia matado as pessoas. Todas as histórias começam em cima de uma lenda. Forma-se a lenda em cima de uma pessoa".
O caso do Lobisomem, por exemplo, é verídica na visão de "Seu Dema". "Era um pastor com problemas mentais. Ele exilou-se nas montanhas, matou um lobo, e vestia aquela pele de lobo para atacar os rebanhos e os pastores. Como ele atacava só de noite, eles viam um homem lobo, o Lobisomem", resume.
Segundo "Seu Dema", ainda existem alguns contadores de histórias no interior do Estado. "Na região de Taubaté ainda tem. Muitos Piracicabanos gostam de contar causos, que tem mais aquela vida de barranqueiro do rio Piracicaba. Anhembi tem ainda seus contadores. Numa cidade como Barra Bonita, foi desaparecendo".
Falando nisso, ele puxa outra história, esta de assombração, que se chama "O Pagamento em Minas": "Tinha um casal que só vivia brigando e morava nas margens do rio Tietê, bem no brejão. Ele era lenheiro e estava planejando matar a mulher dele. Um dia ele convidou a mulher para lenhar. A mulher inocentemente foi para o mato. Chegou lá ele pegou o machado e acabou matando a mulher, cortou-a em vários pedaços e deixou lá, para que os animais comessem e não ficasse vestígio nenhum do crime. A cabeça da mulher rolou, caiu no rio e foi embora. Ele foi embora para Minas trabalhar numa fazenda de criação de cabras. Um dia ele tinha matado uma cabra para os patrões e vinha trazendo os muídos da cabra para a casa, para a mulher com quem ele estava vivendo, para fazer uma buchada. A polícia viu ele com o saco nas costas, sangrando, interceptou-o e perguntou: o que você está trazendo aí? Ele falou: venho trazendo miúdo de um bode para fazer uma buchada. A polícia falou: abra o saco que nós queremos ver então. Ele abriu o saco, era a cabeça da mulher que ele tinha matado que estava dentro do saco".
"Seu Dema" ainda contou várias histórias, como a do Caipora, um negro enorme montado num cachorro do mato com um pito na boca. Se você encontrar um Caipora à noite ele vai te pedir um pedaço de fumo para pôr no pito. Se você não der, ele te joga uma praga que você fica "encaiporado" pelo resto da vida.
Muitos outros causos ainda foram relatados por "Seu Dema", que não caberiam nestas páginas. Eles são tão impressionantes que nós voltamos prestando atenção redobrada no caminho, no caso de algum Curupira com os pés virados para trás estar tentando desviar a nossa rota.