08 de julho de 2026
Geral

Prisão de ventre

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 8 min

Tratamento: ingerir mais fibras é o primeiro passo

Tratamento: ingerir mais fibras é 1.º passo

Texto: Sabrina Magalhães

A alimentação desequilibrada é um importante fator que desencadeia alterações intestinais e que precisa ser readequada

Um dos principais problemas que causam disfunção intestinal é a dieta alimentar errada. Neste sentido, aumentar a ingestão de fibras e de água é o primeiro passo para tratar o problema e restabelecer o bom funcionamento do aparelho digestivo. "Além da vida mais corrida e competitiva dos tempos atuais, que por si já atrapalham o trabalho do intestino, o mundo moderno adota uma dieta muito pobre em fibras. A fibra tem uma importância muito grande junto ao intestino, ela seria o óleo lubrificante da máquina. Ela faz um volume de bolo fecal macio de tal forma que o intestino não precisa de muita força para expelir", destacou o gastroenterologista Mário Hamada.

Segundo ele, quando não há fibra, não há consistência no bolo fecal, o que obriga os músculos do intestino a uma contração maior. E nesse "fazer muita força", os músculos podem não trabalhar efetivamente, resultando em diarréia ou prisão de ventre. Além disso, a fibra atua como "vassoura", carregando o excesso de gordura e as toxinas, diminuindo o tempo de contato destas substâncias com a parede intestinal.

Mas para que as fibras possam atuar, é imprescindível uma boa quantidade de água também. Sem o líquido, as fibras são irritantes do aparelho digestivo. Por isso, insiste-se na ingestão de pelo menos dois litros de água por dia. "E num país quente como o nosso, comumente precisamos até de um pouco mais que isso."

Quantidade

Hamada ressaltou que a necessidade de mais ou menos fibras varia de um organismo para outro, sendo que, em média, o ideal seria ingerir entre 20 e 30 gramas por dia. Segundo o médico, isso é possível mantendo-se uma alimentação balanceada, com uma boa quantidade de saladas no almoço e no jantar, uma porção de legumes e frutas, com

ênfase para o mamão, a laranja e o abacate. "Tem que ter o mínimo possível por dia, pelo menos um prato de salada e uma fruta. Um dia você come mais fibra, outro dia menos, mas não pode faltar."

Uma opção que vem sendo bastante difundida ultimamente

é a suplementação desta categoria de alimentos por cereais e aveias. É fácil encontrar nos supermercados os famosos sucrilhos, os produtos integrais, barras de cereal, que podem substituir um tablete de chocolate, por exemplo. Por

último, de sabor não muito agradável, mas com ótimos resultados para o organismo, vêm o farelo e o gérmen de trigo, que podem ser misturados à comida, ao leite ou ao suco. "Para quem tem um problema intestinal, a tendência é recomendar fracionar mais a alimentação, ou seja, comer mais vezes ao dia, em menor quantidade, incentivando o organismo a trabalhar num ritmo mais constante, até a reeducação."

Hamada ainda lembrou da necessidade de se comer devagar, degustando melhor o alimento (sentindo o sabor de cada pedaço, de cada garfada), mastigar bem, para que a comida chegue bem triturada ao estômago, facilitando a digestão, evitar tomar

água ou refrigerante durante as refeições, mantendo como limite um intervalo de meia hora antes e uma hora depois. "As pessoas precisam aprender a observar melhor o que comem, evitar pensar em outras coisas, reservar um tempo só para comer. Quem come depressa demais, engole muito ar e isso aumenta a fermentação e os gases, podendo resultar em cólicas, diarréias ou prisão de ventre. São pequenos hábitos que precisam ser corrigidos."

Hábito infantil

"Uma coisa que nós observamos com freqüência

é que quando a mãe tem problemas intestinais, os filhos também têm. Na maioria das vezes, é uma questão de regra alimentar, a criança não

é disciplinada a comer fibras, ela se recusa a comer a verdura e a mãe dá bolacha para ela. Com isso, o intestino não aprende a funcionar, refletindo isso na vida adulta."

De acordo com os nutricionistas, a cantina das escolas contribuem bastante para esse problema: Antigamente as crianças tomavam sopas ou compravam pipoca no recreio. Hoje, elas se entopem de refrigerantes e cachorro quente. Apesar da quantidade de gordura, a pipoca contribui para o bom funcionamento do intestino e, ao contrário do que se pensa, ela tem baixo valor calórico. Então, ao invés das bolachas e dos salgadinhos chips,

é melhor uma boa tigela de pipocas.

Cuidado com os laxantes!

De acordo com Mário Hamada, é preciso ter muito cuidado com os medicamentos laxantes, que costumam causar dependências graves. Ao ingerir um laxante, o organismo força os movimentos peristálticos (contrações do intestino). Ele vai ficando "preguiçoso", até que o remédio não faz mais efeito e é preciso trocar ou aumentar a dose. Com o uso prolongado, os músculos do intestino podem dilatar tanto, que deixam de funcionar, exigindo até que o paciente passe por uma cirurgia.

O médico também observou que os laxantes, em geral, inclusive muitos que são comprados como sendo produtos homeopáticos, são substâncias que irritam a mucosa intestinal. Insistir neles, sem suprir o organismo de fibra pode causar desde hemorragias até perfurações no intestino, que sempre podem evoluir para câncer.

Quando procurar o médico

"Sempre que houver um incômodo. Se a pessoa tem o intestino preso desde criança, ela precisa ser logo orientada para corrigir esse hábito do organismo, porque armazenar toxinas não é nada bom. Agora, o que chama nossa atenção de forma mais contundente são as mudanças bruscas no comportamento intestinal, ou seja, uma pessoa que sempre teve evacuação regular e de repente começa a apresentar prisão de ventre ou diarréia. Ou uma pessoa que sempre teve intestino preso e de repente começa a ter diarréias. Ou então quando você nota a presença de muco ou sangue nas fezes. Estes são sinais que devem ser investigados com certa rapidez."

Hamada ressaltou que há diarréias causadas pela alimentação inadequada, por exemplo, comer excesso de nozes, de abacate. Estes seriam os desarranjos intestinais, que passam em horas ou, no máximo, em três dias. Fora isso, qualquer quadro que cause desconforto ao indivíduo deve ser levado ao médico. Mesmo que não haja uma patologia orgânica, é possível amenizar o incômodo.

Alimento percorre 9 metros no organismo

Texto: Sabrina Magalhães

Entre a boca e o ânus, o alimento passa entre 12 e 40 horas passando pela "máquina" digestiva

Sempre que se ingere alguma coisa, seja uma refeição completa, uma fruta ou um simples cafezinho, dá-se início ao processo digestivo, ou seja, aquilo que foi colocado na boca vai passar por uma verdadeira fábrica, onde será transformado em energia ou substância útil.

Esse processo digestivo começa quando o alimento recebe saliva e é triturado. Daí, ele vai passar pelo esôfago, pelo estômago, pelos intestinos delgado e grosso e pelo reto, até chegar ao ânus. Este caminho, chamado tubo digestivo, tem aproximadamente nove metros de extensão num adulto. O processo todo pode demorar entre 12 e 40 horas, dependendo do organismo e do alimento.

Esôfago

Depois de mastigado, o bolo alimentar é empurrado, com a ajuda da língua, para o esôfago, um tubo elástico com cerca de 25 centímetros de comprimento. As glândulas do esôfago produzem substâncias lubrificantes que facilitam a passagem do bolo alimentar. Sua musculatura se contrai a cada oito ou nove segundos, impelindo a comida no sentido do estômago. Então, os músculos relaxam até receber outra porção de alimento.

Estômago

O estômago é um "saco" com grande poder de dilatação, que pode atingir o volume de até 1,5 litro. O alimento vai ficar retido aí por aproximadamente cinco horas, recebendo os sucos gástricos e sendo espremido pelas poderosas contrações das paredes musculares, os chamados movimentos peristálticos. Os sucos gástricos têm outras substâncias que vão atuar sobre cada tipo de alimento, como a renina que coagula o leite, a ptialina, que dissolve os carboidratos.

Pelo alto poder de decomposição dos sucos gástricos, o estômago é revestido internamente por um muco especial. Quando esse muco é escasso ou quando há uma liberação excessiva de suco gástrico, as paredes do estômago podem ser lesadas. É o que se chama úlcera. Sem tratamento adequado, a ferida pode evoluir para quadros graves e comprometedores da saúde do indivíduo.

Intestino delgado

Do estômago, depois de decomposta, esta mistura vai para o duodeno, a primeira parte do intestino delgado. Aí, ela vai receber os sucos pancreáticos e a bile (produzida no fígado). No restante do percurso pelo intestino delgado, vão sendo separados os nutrientes, as vitaminas, proteínas e gorduras, que são carregadas pelo sangue e distribuídas por todo o corpo. Se há excesso de comida, uma parte é armazenada como energia, em forma de gordura.

Intestino grosso

O que não pode ser aproveitado - os restos do alimento

- vai para o intestino grosso, que só tem o trabalho de retirar a água e encaminhar o bolo fecal para o reto. Em determinado momento, as fezes são eliminadas pelo ânus, ponto final do tubo digestivo.

Curiosidades

* laxantes atuam nos intestinos irritando as mucosas que revestem as paredes. Isso força a contração muscular, empurrando o bolo fecal violentamente. Só que isso agride o tubo digestivo e, em excesso, pode causar feridas e perfurações.

* O laxante mais natural que existe, de acordo com Mário Hamada, é a água. Conforme entra nos intestinos, vai levando os resíduos que encontra, ao mesmo tempo que lava o tubo. A associação água e fibras funciona como uma escovação, evitando que as toxinas fabricadas no próprio organismo fiquem muito tempo em contato com as mucosas, mantendo-as intactas.

* Atividades físicas leves e de longa duração

"ensinam" os músculos a se contrair (principalmente nos exercícios abdominais), tornando mais fácil a eliminação das fezes.