19 de março de 2026
Geral

Desemprego

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 5 min

Rumo ao emprego: perspectivas e caminhos

Rumo ao emprego: perspectivas e caminhos

Texto: Márcia Buzalaf

Na terceira e última reportagem da série sobre desemprego, uma abordagem da atual situação do emprego em Bauru e no Brasil e o futuro incerto da categoria trabalhista assim como ela é. Com o número de vagas cada vez menor e o número de candidatos buscando uma vaga aumentando em progressão geométrica, a falta de emprego deve continuar sendo o problema nacional, apontado por uma pesquisa feita pela Confederação Nacional da Indústria

(CNI), em parceria com o Ibope, como o principal motivo da situação brasileira ter piorado tanto (53% dos entrevistados). A solução para o impasse talvez dependa da ajuda governamental para garantir o mínimo para todos.

Em Bauru, os números apresentados pelo Centro de Orientação do Trabalho (COT) provam que a crise de emprego no mundo todo tem afetado sensivelmente os trabalhadores da cidade.

Em 98, por exemplo, o COT atendeu 1.666 candidatos formalmente e encaminhou 456. Deste total, a entidade colocou 147 trabalhadores no mercado de trabalho, ou seja, 8,82% dos que buscaram vagas. O total de vagas disponibilizadas no ano passado foi de apenas 121.

Élcia Rodrigues, destaca que, no início do Plano Real, praticamente todos os encaminhados eram atendidos. Hoje em dia, a diminuição significativa do número de vagas oferecidas pelas empresa não supriu o aumento da demanda por emprego.

Este ano, Élcia compara, a situação é sensivelmente pior. Em janeiro de 98, 142 trabalhadores foram atendidos pelo COT, sendo que, deste total, 34 foram encaminhados e 12 foram efetivamente colocados. Em 99, 147 pessoas procuraram o COT, que encaminhou 27 candidatos e colocou dez trabalhadores em postos de trabalho. A diferença também é sensível no número de vagas oferecidas: 12 vagas em 98 contra dez este ano.

Em fevereiro de 98, com apenas nove vagas disponíveis, 13 dos 35 trabalhadores encaminhados foram empregados através do COT, sendo que a entidade foi procurada por 132 pessoas. Em fevereiro deste ano, 103 procuraram a entidade, 27 foram encaminhados e 12 conseguiram o emprego, sendo que apenas uma vaga havia sido aberta.

Os dados de março, apesar de ainda incompletos, também já dão a dimensão do atual problema. Apenas sete vagas foram abertas, sendo que 216 candidatos foram atendidos pelo COT. No mesmo período de 98, 140 trabalhadores procuraram a entidade que disponibilizava apenas nove vagas, mas que colocou no mercado de trabalho oito pessoas.

Para professor de economia da Unesp e da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Jacques Vervier, o que faz a distinção entre o emprego formal e o informal são as leis. Mais de 40% do emprego em Bauru é informal. De acordo com informações do Data-Ite, banco de dados da instituição elaborado pelo professor Vervier, em 95, Bauru deveria ter cerca de 113.338 empregados formais, sendo que o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) registra 64.147 empregados formalmente.

"Neste sentido, 43% da população vive de emprego informal ou autônomo na cidade, o que corresponde a média nacional", diz.

Élcia diz que, todo final de ano, ela conta com várias vagas no comércio, vagas que não foram oferecidas este ano. As indústrias de alimentação foram canais de geração de empregos até o meio do ano passado. Desde então, Élcia explica, as vagas caíram na proporção inversa ao número de trabalhadores de todos os setores que cresceu.

Brasileiro

Na década de 70, durante o Milagre Brasileiro, o Brasil praticamente tinha o chamado pleno emprego, ou seja, existia emprego para quase todos que queriam trabalhar - as taxas de desemprego eram muito baixas. Por este motivo, a política adotada na época enfocava o dever de trabalhar. Daí o bordão:

"Vai trabalhar, vagabundo".

Qualquer renda que não advinha do conceito de emprego, era tida como duvidosa - e este passado não é tão distante assim. Na década de 80, com o desemprego aumentando significativamente - por vários motivos, entre eles, entrada de mulheres no trabalho e a grande quantidade de jovens no mercado.

Foi nesta época, Vervier diz, que o discurso do emprego mudou: passou da obrigação de trabalhar para o direito ao trabalho. Para o professor, com o desemprego com previsão de atormentar as próximas décadas, está na hora de começar a falar do direito de não trabalhar. Vervier explica melhor: reconhecer que a sociedade não consegue empregar todo mundo.

Consequentemente, deveria ser perfeitamente aceitável que algumas pessoas não tivessem emprego, o professor defende.

"Isso não quer dizer não trabalhar, mas, sim, não ter um emprego formal", explica.

A conjuntura atual parece caminhar no sentido oposto. Ao mesmo tempo em que as portas das indústrias se fecham, cada vez mais famílias inteiras saem às ruas para procurar emprego. A constatação é de Élcia, que conta que o trabalhador costumava procurar emprego sozinho.

"Hoje, ele leva a mulher e os filhos para batalhar emprego", explica.

Não-trabalho

Uma forma de institucionalizar este direito a não trabalhar

é implantando a chamada renda universal ou alocação universal. Quando a idéia foi apresentada, há cerca de 15 anos atrás, a proposta pareceu totalmente utópica. Atualmente, está ganhando espaço. "Utopia é continuar do jeito que está", defende o professor.

A renda universal, de acordo com a explicação de Vervier, seria substituir as ajudas casuísticas que existem atualmente - como a aposentadoria, seguro desemprego, salário-família

- que são limitados a alguns casos específicos, por uma renda que seria universal, ou seja, incondicional, atingiria a todos.

Você tem mais de 18 anos, logo, tem direito ao mínimo: esta deveria ser a regra. É claro que, se você ganhar a mais do que este mínimo, seria incididos tributos sobre esta renda. "Isso garante o mínimo a todos", alega Vervier.

Para o professor, enquanto as pessoas estão trabalhando, elas podem ter diferentes salários, mas, quando deixam de trabalhar, segundo a teoria da renda universal, ganhariam o mesmo, e teria o diferencial conquistado durante o tempo de trabalho. Resta reconhecer concretamente o direito a não trabalhar, para que a procura por emprego diminua. "Porque não tem mais emprego", explica.

Esta idéia é nova tanto no Brasil quanto em outros países. Existem legislações na Europa que vão de encontro a proposta da alocação universal, garantindo uma aposentadoria unificada para os cidadãos.

"Quem quisesse ter uma velhice mais tranqüila, trabalharia mais antes de se aposentar", explica.

Entre as considerações do professor Jacques o os números apresentados pelo COT, fica uma certeza: a de que vivemos a revolução das relações trabalhistas, e que uma revolução pressupõe mudança. Cabe aos trabalhadores se adequarem ao novo conceito de trabalho e às autoridade darem o chão para o cidadão caminhar, rumo ao novo "trabalho".