08 de julho de 2026
Geral

Educação especial

Andréia Alevato
| Tempo de leitura: 7 min

Escola para todos, sim

Escola para todos, sim

Texto: Andréia Alevato

Em 97, a Delegacia de Ensino de Bauru realizou um encontro com professores e diretores de escolas estaduais da cidade para estudar a possibilidade de incluir alunos portadores de deficiência

(física, mental, auditiva e visual), em salas de aulas comuns. O desafio foi aceito no ano seguinte, pela Escola Estadual Luiz Braga. Hoje, ao todo, são 35 alunos portadores de deficiência na escola.

"A educação para todos é difícil, porque nós fomos educados para termos o aluno ideal. Mas, o que nós temos é o aluno real, que tem o pai na cadeia ou a mãe morrendo de Aids ou que tem qualquer outro tipo de problema ou de limitação. A educação para todos é difícil, mas não é impossível", disse Vera Lúcia Capelline, assistente-técnico pedagógica de educação especial da Delegacia de Ensino de Bauru.

Vera Lúcia contou que representantes de Presidente Prudente vieram conhecer as escolas de Bauru para implantarem o projeto.

As antigas salas especiais dos alunos portadores de deficiência se transformaram em salas de recursos, que atendem as dificuldades dos deficientes. Hoje, os professores das salas de aulas comuns trabalham em parceria com o professor da sala de recursos.

Mas, a Luiz Braga não é a única escola em Bauru que aceitou o desafio de incluir alunos portadores de deficiência em salas de aula comuns. A escola estadual Vereador Ferreira de Menezes, a Mercedes Paes Bueno, a Luiz Carlos Gomes, a João Pedro Fernandes e a Salvador Filardes também aceitaram o desafio. Este ano, a Ferreira de Menezes tem 27 alunos portadores de deficiência, a Luiz Braga, 35, a Mercedes Paes Bueno, a Luiz Carlos Gomes, a João Pedro Fernandes e a Salvador Filardes, todas entre 1 a 5 alunos .

Marilene Silva Guerrero, diretora da Ferreira de Menezes, afirmou que desde sua instalação, em 93, a escola atende crianças portadoras de deficiência.

"Este ano, por causa da inclusão, estamos com um maior número de vagas para os alunos portadores de deficiência. Foi muito bom. Ganhamos uma sala de recursos para auxiliar os alunos. Hoje, as crianças estão bem integradas e os outros alunos estão sempre ajudando os portadores de deficiência", completou Marilene.

Vera Lúcia disse ainda que Estados do Brasil estão se organizando para limitar o número de alunos nas salas de aula.

"No Mato Grosso, por exemplo, uma classe que tem três alunos portadores de deficiência, tem no máximo 20 alunos. Com menos alunos, os professores podem dar maior atenção a todos", disse a assistente-técnico pedagógica de educação especial.

Vera Lúcia afirmou que a importância do projeto é integrar as portadoras de deficiência em toda a sociedade.

"Uma coisa que não deve ser feita é cobrar do aluno portador de deficiência o mesmo do aluno normal. Ele tem certas barreiras que devem ser respeitadas", afirmou Vera Lúcia.

A assistente-técnico pedagógica comentou que os principais motivos que fazem com que as escolas não participem da inclusão são a resistência dos professores e o número de alunos por sala de aula.

"A resistência dos professores é um dos principais motivos que fazem com que a escola não participem da inclusão. Mas, os professores e a escola devem ousar, porque quem não ousa, não acredita. Eles têm que ousar e acreditar que o projeto dará certo", comentou.

Outro ponto que Vera Lúcia citou foi o de que nem todas as escolas em Bauru são abertas aos portadores de deficiência.

"Infelizmente, nem todas escolas de Bauru são abertas aos portadores de deficiência. O nosso desejo é que todas as escolas se abram para a inclusão. Claro que isso não vai acontecer do dia para noite. Isso é um processo que só acontece se alguém acredita nele. Todos ganham com a inclusão: o portador de deficiência, os alunos comuns, a família do portador de deficiência, a família dos alunos comuns, os professores, enfim, todos. E esse espírito de solidariedade é a grande chave da virada do milênio", completou.

A diretora da escola Ferreira de Menezes afirmou que a intenção da escola é fazer um barracão, para que outras atividades, como teatro, dança e artes possam ser realizadas para os alunos. Ela explicou que os alunos, inclusive os portadores de deficiência, no período contrário ao de aula, iriam desenvolver outras atividades.

"Estamos lutando para conseguir esse espaço cultural para os alunos", afirmou.

Marilene contou que na escola a integração é total, não só entre os alunos, mas também na comunidade.

"Os alunos comuns se preocupam e querem estar sempre com os portadores de deficiência física. Essa integração, que também acontece com toda a comunidade, é ótima. Aqui, temos alunos portadores de deficiência, alunos com desvio de comportamento e alunos comuns, e todos se dão muito bem", disse.

Adriano Jacinto de Almeida, 9 anos, é portador de deficiência física e matriculado na escola Ferreira de Menezes. Ele disse que quer estar entre os primeiros da classe e que adora seus coleguinhas.

"Quero estudar bastante e ser um dos primeiros da classe", disse.

Sua mãe, Isabel Jacinto de Almeida, contou que Adriano freqüentou a Apae por cinco anos, e que esta foi a primeira vez que conseguiu vaga em escola comum para ele.

"Ele completa 10 anos em maio, e pela primeira vez consegui matriculá-lo em uma escola comum. Ele está adorando a escola. Não vê a hora que acabe o final de semana só para voltar para a escola, que é tudo para ele. E eu também estou feliz, porque eu gostei da iniciativa do governo de tentar acabar com a discriminação. Pelo menos eles estão tentando melhorar", completou Isabel.

As Emeis (Escola Municipal de Ensino Infantil) também recebem crianças portadoras de síndrome de Down.

A fonoaudióloga da Apae, Eloisa Maria Selhuann Quatrina, idealizou o projeto Integração de Pessoas Portadoras de Deficiências no Ensino Regular Pré-Escolar. Hoje, 13 crianças, alunas da Apae, são matriculadas nas Emeis de Bauru.

Eloisa contou que as práticas iniciais de integração e inclusão social do portador de deficiência estão presentes no meio educacional de Bauru há três anos. A Apae tem como parceira, no projeto Integração, a Secretaria Municipal de Educação.

"A integração na escola regular não

é benéfica apenas para as crianças portadoras de deficiências. Ela pode ser percebida como uma via de mão dupla, porque as crianças normais, ao conviver em condições de igualdade com as que apresentam limitações em algumas áreas, também serão beneficiadas", completou Eloisa.

Os alunos que fazem parte do projeto Integração freqüentam as Emeis de terça a sexta-feira. Nas segundas, as crianças recebem atendimento especializado, nos setores de fonoaudiologia, psicologia e fisioterapia, na Apae.

"Consideramos essa parceria uma união de esforços que culminaram em resultados extremamente satisfatórios no processo de integração do portador de deficiência física. Também não podemos esquecer o papel de professores e diretores das escolas foi fundamental, que foi fundamental", concluiu a fonoaudióloga da Apae.

Cynthia Maria Caldas Bresciani, diretora do Departamento Pedagógico da Secretaria Municipal de Educação, que além do projeto Integração junto com a Apae, as Emeis e as Emefs (Escola Municipal de Ensino Fundamental) também recebem crianças portadoras de deficiências.

"Hoje, o portador de deficiência não é mais visto como antigamente. O sistema educacional está abandonando essa prática de colocar o portador de deficiência separado da sociedade, em classes especiais", disse Cynthia.

Para a diretora do Departamento Pedagógico da Secretaria Municipal de Educação, a inclusão tem que existir e que o portador de deficiência é uma diversidade.

"A gente tem que saber que o deficiente é uma diversidade. E a gente tem que aprender a conviver com a particularidade de cada um", completou.

Cynthia disse ainda que a escola que atende o deficiente vai diversificar suas atividades, buscar uma pedagogia mais centrada na criança e novos conhecimentos.

"A criança portadora de deficiência vai estabelecer vínculos com outras pessoas. E as outras crianças e os professores estarão também desenvolvendo valores

éticos. Quem precisa de ajuda é o moleque de rua. Geralmente, a criança portadora de deficiência tem todo um aparato", enfatizou.

Como a inclusão é um assunto novo, no sentido legal, para as escolas, a Secretaria Municipal de Educação estará trabalhando, no mês de maio, com a questão da inclusão.

"Mas, nós já estamos passando nas escolas, falando sobre o assunto e até distribuindo o material que o MEC enviou. A inclusão é o caminho e um direito das pessoas portadoras de deficiência, porque acima de tudo, elas são seres humanos", finalizou.