"Vagabundos", com outras palavras
"Vagabundos", com outras palavras
B. Requena é editor de Internacional do JC
O presidente Fernando Henrique Cardoso voltou ao tema em que chamou trabalhadores e aposentados brasileiros de "vagabundos". Só que o chefe do Governo desta vez usou outras palavras. No entanto, para dizer a mesma coisa que tanta polêmica e crítica gerou. Em maio do ano passado, FHC desabafou:
"Fiz a reforma da Previdência para que aqueles que se locupletam da Previdência não se locupletem mais, não se aposentem com menos de 50 anos, não sejam vagabundos em um país de pobres e miseráveis."
Na semana passada, durante cerimônia pelo Ano Internacional do Idoso, o presidente da República disse, no Palácio do Planalto: "Temos que entender que para os mais idosos trabalhar é bom. Desde que tenham boas condições de trabalho, é bom trabalhar. Essa obsessão de parar de trabalhar a uma certa idade faz é criar problemas na Previdência."
Como podemos constatar, sua excelência não se deu por satisfeito com a enxurrada de críticas que recebeu com a primeira ofensa aos brasileiros. Porque voltou ao tema comunicando o mesmo significado, porém, agora, com outras palavras.
"Essa obsessão de parar de trabalhar"... Ora, nem vale a pena voltar ao tema já por todos sabido o suficiente. Isto é, se o chefe da Nação se aposentou com mais ou com menos de 50 anos. E quantas aposentadorias ele tem, assim como outras destacadas figuras da República... Como se pode provar, continua vigorando a filosofia do "faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço".
Ao afirmar que após a aposentadoria o trabalhador brasileiro
"cria problemas porque deixa de encontrar uma conexão natural com o resto da sociedade", FHC provou ter razão naquilo que diz e culpa naquilo que faz. Porque se é uma verdade que efetivamente o aposentado fica um tanto alheio ("sem conexão") às atividades sociais, isto se deve a uma série de fatores, quase todos provocados pelo próprio governo.
Por exemplo, no ato da aposentadoria, através dos miseráveis salários, o governo amarra mãos e pés do envelhecido trabalhador. Castra a maior parte dos seus anseios. Suas reivindicações são deixadas de lado,
às vezes são até vítimas de chacotas.
É certo que algumas conquistas já ocorreram, na legislação e fora dela (passe de ônibus, preferência em atendimento em alguns estabelecimentos, etc.), mas ainda é muito pouco! A maior parte das conquistas nas áreas de lazer, por exemplo, os idosos conseguiram por iniciativa própria ou veio do setor privado (clubes de terceira idade, Sesc e assemelhados). Caso o governo fizesse um pouco mais, o aposentado não romperia esse vínculo com a sociedade, até reforçaria ainda mais. FHC também não pode esquecer que anualmente 2 milhões de jovens pedem entrada no mercado de trabalho...
(B. Requena)